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5 motivos para amar The Bold Type

Com roteiro de Sarah Watson, que também trabalhou em Parenthood e Pure Genius, The Bold Type inspira-se na vida de Joanna Coles enquanto editora chefe da Cosmopolitan para falar sobre amor, identidade e, naturalmente, moda sob a ótica de quatro mulheres: Kat (Aisha Dee, de Chasing Life), Jane (Katie Stevens, de Faking It), Sutton (Meghann Fahy, de The Good Wife) e Jacqueline (Melora Hardin, de Transparent).

Cada episódio tem aproximadamente 45 minutos, dirigidos por Gary Fleder, reconhecido por seus trabalhos em Beauty and the Beast, Kingdom e Turn. Só isso não despertou sua curiosidade? Então vamos falar mais um pouco sobre a série.

Esqueça Miranda Priestly, no mundo da revista Scarlet, a editora-chefe é Jacqueline. Exigente, ela administra uma equipe imensa de colaboradores, aprova as edições de moda, checa todo o trabalho desenvolvido nas redes sociais, atenta para todas as matérias que saem na revista impressa e no site — e tem um objetivo.

Scarlet não é apenas uma revista de moda. Ela conversa de igual para igual com jovens em transição para a vida adulta. Para conseguir isso, seus textos precisam ser muito mais que meras chamadas interessantes: precisam mostrar a vida real na sua forma mais pura, sem ilusões. Se moda não é acessível, é necessário dar um jeito para que seja. E o posicionamento da marca precisa deixar tudo isso transparecer de forma simples, direta, concisa e clara.

Vertentes essas que chamam nossas três protagonistas. Kat é gerente de mídias — e mais que pensar em eventos, ela usa as redes sociais para posicionar a revista e lutar por causa nas quais tanto ela quanto a empresa acreditam. Jane acabou de ser promovida, e tem uma coluna própria para escrever sobre os mais variados temas, de sexo à política. Sutton, por sua vez, está se esforçando para deixar a vaga de assistente e seguir seu sonho. Assim, temos a primeira temporada montada — e ela é apaixonante.

Apesar das tentativas, não foi possível escrever este post sem spoilers.

JACQUELINE É A CHEFE QUE VOCÊ QUER TER

Apesar da primeira cena da editora-chefe mostrar seus maravilhosos sapatos vermelhos e ser construída de forma que imaginamos que estaremos lidando com uma nova Miranda (de O Diabo Veste Prada), precisamos de pouco mais que 15 minutos para entender que Jacqueline, na verdade, é exatamente a chefe que queremos ter.

Ela acredita no potencial de quem emprega, dá oportunidades para quem sente que está preparado para recebê-las e não vai aceitar menos do que alguém pode oferecer. Ela é ousada, gosta de inovações (ainda que nem sempre possa abrir os braços para elas), e é quase uma mãe para as demais personagens. É o tipo de pessoa que você não quer decepcionar porque gosta dela, não porque a teme.

E, principalmente, ela não é construída apenas como chefe. Um dos momentos mais icônicos da série é extremamente pessoal e exige uma coragem absurda por parte dela. E, francamente, não é qualquer pessoa que faz esteira de salto alto. Não tem como essa mulher ser algo menos que incrível.

PELO DIREITO DE SER HONESTA QUANTO A NÃO CHEGAR AO ORGASMO

Quando Jane recebe a tarefa de escrever sobre o melhor orgasmo que teve na vida, enfrenta um problema: ela nunca gozou. E, ainda que vivamos em uma sociedade na qual se fala muito mais abertamente sobre prazer e liberdade feminina, o assunto geralmente é jogado para debaixo do tapete e se finge que nada aconteceu e está tudo nos conformes.

Ainda que a série não se aprofunde no assunto (nem exatamente dê um final feliz que considero satisfatório¹), é interessante que se fale como gozar não é fácil para todas, e que existe muita expectativa para que aconteça e seja incrível todas as vezes. Envolve, naturalmente, a imagem que se tem sobre si mesma, o conseguir relaxar e é inocente pensar que não existe aquela vozinha machista que adora pregar o “mulher santa quando em público e uma puta dentro de quatro paredes”.

¹É dito que Jane nunca gozou na vida, nem mesmo enquanto se masturbava. Então ela conhece um cara (de quem gostei, por sinal) e na primeira vez que eles vão para a cama ela goza só com penetração, duas vezes? Desenvolve isso aí, galera.
Obs.: Achei muito relevante a imagem de uma sexóloga neste episódio e como foi sutilmente trabalhada a questão da própria mulher se explorar e descobrir o que gosta ou não.
Obs.2: Esse episódio gerou esta matéria (“Por que mulheres fingem orgasmo e será que nos importamos?”, em tradução livre), divulgada no site da série, e vale a leitura. (em inglês)


MUÇULMANA LÉSBICA COM ORGULHO

É com essas palavras que Adena El-Amin (Nikohl Boosheri) se apresenta na série. Fotógrafa, ela está nos Estados Unidos para uma exposição e é pauta de uma das matérias da Scarlet. Só que, com a edição prestes a ser lançada, ela decide tirar a autorização. Enquanto para todo mundo isso não passa de um contratempo menor, para Kat é algo relevante, e é ela quem vai atrás de Adena para convencê-la de que essa publicação merece ser autorizada.

À parte sobre como esse encontro faz com que Kat se conheça melhor e coloque em pauta até que ponto a Scarlet é de fato feminista (e é, a fim de esclarecimentos), também desenvolve alguns debates importantes sobre preconceitos, sem esconder a realidade do governo Trump. Uma cena específica, por exemplo, mostra que independentemente de quem está verdadeiramente certo em uma discussão, a culpa sempre será da minoria. Mulher muçulmana lésbica nos Estados Unidos não poderia ser mais minoria, poderia?

O SR. GREY IRÁ RECEBÊ-LA AGORA

Relacionamento com um superior, poderia ser mais clichê? Talvez não, mas a dinâmica e Richard é tão bem-feita que não tem muito como não torcer pelos dois. Primeiro que eles conhecem seus limites, então não existe nenhuma discussão dramática e exagerada a respeito disso: os dois não poderiam estar se relacionando devido a suas posições na Scarlet, então isso precisa ser mantido em segredo.

O que não significa que eles são perfeitos do início ao fim. Chamou a minha atenção, por exemplo, o momento no qual Richard conhece Jane e Kat — a diferença de idade que não pesa com Sutton pesa ali, e a imaturidade misturada com intensa determinação de Kat acaba trazendo consequências que poderiam ter sido facilmente evitadas.

Não vi nada além de Richard apoiar Sutton em seus objetivos, realmente ficar feliz com suas conquistas e compartilhar sua vida com ela. Eles se tratam de igual para igual, são companheiros e realmente gostam de e querem estar juntos.

The Bold Type

FRIENDSHIP GOALS

O aspecto que mais se destaca na série, e que permeia todos os outros tópicos, é exatamente como todas as mulheres se apoiam. Isso não quer dizer que elas não briguem, que não rolem desentendimentos e que elas não cometam erros. Só que não há, em momento algum, uma disputa de ego e competições não sadias e irrelevantes.

Estão juntas quando uma delas precisa fazer o teste para ver a probabilidade de desenvolver o câncer de mama. Estão juntas quando os relacionamentos não dão certo, e quando eles dão certo também. Estão juntas quando é preciso arriscar tudo para conseguir uma posição melhor no trabalho. E sabem dizer quando a outra errou, aceitam quando elas mesmas erram.

O apoio não é seletivo. Há uma imensa aceitação a respeito de quem elas são, das suas descobertas, dos aspectos positivos e negativos. E, ah, isso não se limita à Sutton, Jane e Kat não viu? É com todas as mulheres da série. Não tem conceito melhor explorado em The Bold Type que não seja o de “sororidade”.

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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