Literatura

Resenha | A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown: a arte de aceitar a própria vulnerabilidade

Quando Brené Brown escreve um livro, é preciso parar para ler. Pesquisadora contadora de histórias, ela explora sentimentos dos quais fugimos sem pensar duas vezes e traz uma nova leitura para cada um deles. Mais que isso, ela propõe que não fujamos, mas que abracemos e possamos entender seus gatinhos e funcionamento em nome de uma vida mais plena.

Soa clichê, não soa? Mas Brené já palestrou em alguns TEDs, e em cada um deles ela conquista as pessoas com histórias que simplesmente não tem como não se identificar. Todo mundo, independentemente da cor e orientação sexual, sabe o que é sentir vergonha. Sabe o que é não se sentir bom o suficiente.

“Vulnerabilidade não é fraqueza; e a incerteza, os riscos e a exposição emocional que enfrentamos todos os dias não são opcionais.”

Alguns sabem o quanto isso pode entrar em um ciclo de vulnerabilidade que nos fecha para toda e qualquer experiência em nome de ser forte e firme. Só que… E se for vulnerável não for algo ruim? Em A Coragem de Ser Imperfeito, ela mostra uma nova visão que pode ser (muito) resumida em: quando você vê outra pessoa em um momento de vulnerabilidade, você a julga corajosa ou fraca?

A resposta é a primeira. Fora quem nos julga por nos expor demais, falar demais e sentir demais, estão pessoas que olham e entendem que não é fácil se expor. Não é fácil assumir alguma coisa que nos faz sentir menores e menos preparados.

Não é fácil nos colocar numa posição que dá liberdade para outras pessoas rirem, apontarem, sentirem pena ou darem qualquer resposta tão apavorante quanto essas. Essas pessoas são corajosas, e esse é um tipo de coragem para poucos.

“Nossa rejeição da vulnerabilidade deriva com frequência da associação que fazemos entre ela e as emoções sombrias como o medo, a vergonha, o sofrimento, a tristeza e a decepção […] Quando estamos vulneráveis é que nascem o amor, a aceitação, a alegria, a coragem, a empatia, a criatividade, a confiança e a autenticidade.”

Ao longo do livro, Brené fala sobre como a gente precisa confiar nas pessoas e demonstrar o que estamos passando. Não é, obviamente, para você sair falando tudo com absolutamente todo mundo, não é essa a questão, é apenas deixar o medo de lado e não tentar ser à prova de balas, porque ninguém é. Nem eu, nem você, nem ela.

Quando a gente entende que estamos todos no mesmo barco, com medos e inseguranças similares, nos permitimos ser mais autênticos, verdadeiros — conosco e com os outros. É estar inteiro numa situação, sem pensar no que ela pode gerar. E isso, para mim pelo menos, é uma missão tão difícil que precisei largar o livro algumas vezes antes de conseguir terminar.

“Nós gostamos de ver a vulnerabilidade e a verdade transparecerem nas outras pessoas, mas temos medo de deixar que as vejam em nós. Isso porque tememos que a nossa verdade não seja suficiente — que o que temos para oferecer não seja o bastante sem os artifícios e a maquiagem, sem uma edição pronta para exibição.”

Tive crises de ansiedade, tive muito medo e encerrei com muitas certezas. Não daquele tipo que a gente sabe tudo, apenas mais confiante de quem eu sou e que posso me aceitar exatamente assim. É engraçado pensar isso num mundo que estamos sempre tão cheios de camadas que não nos permitimos ser vistos. E, quando permitimos, estamos dando a chance de ser magoados.

Aceitar a dor e as situações não é simples quando você tem planos para tudo e quer as coisas do seu jeito, porque acredita nele. Às vezes, Brené me ensinou, é exatamente isso que precisamos fazer. Claro que, no fundo, você tem uma escolha a fazer: se deixar ser visto e viver de forma mais plena, satisfeito e feliz consigo mesmo, ou se fechar no medo e deixar de lado muitas coisas que poderiam mudar sua vida (para melhor) a qualquer momento.

“Arte é a categoria que mais lembra um ser humano. Esta é a nossa natureza: ser imperfeito. Ter sentimentos e emoções não classificáveis. Fazer coisas que necessariamente não precisam fazer sentido. Uma vez que a palavra arte entra na descrição do que você faz, é quase como ter um salvo-conduto para a imperfeição. Arte é tudo aquilo que é perfeitamente imperfeito.”

Minha escolha já estava feita na primeira página do livro. Agora, só acho que estou de fato um pouco mais corajosa para ser imperfeita.

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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