Literatura

Resenha | A Fala e a Fúria: livro indispensável na cabeceira dos aficionados por psicopatas cinematográficos

Prô, me indica um livro?

Essa é a frase típica que eu ouço todo começo e meio de ano. Como co-orientadora (informal) de TCC em uma universidade na cidade de São Paulo, costumo ser a escolhida quando a temática é o “fascinante mundo dos psicopatas’’. Sempre que algum aluno me faz essa pergunta, eu imediatamente respondo: A Fala e a Fúria de Ana Lúcia Modesto.

Este é aquele livro que desatará os nós de qualquer dúvida sobre a imagem do psicopata no cinema. Desconheço quem não tenha um pingo de amor por Hannibal “the cannibal” Lecter e, por este motivo, a obra de Modesto se torna graciosamente deliciosa de ser devorada a cada página, a cada capítulo.

Estamos falando de um livro que nada mais é do que a dissecação deste icônico personagem de Thomas Harris que criou vida (e morte) na interpretação do excelente ator Sir Anthony Hopkins. Modesto destrincha a psicopatia no meio cinematográfico de forma completa e direta, tornando possível seu entendimento mesmo se o leitor for leigo em Psicologia.

A Fala e a Fúria
Monnyka Haddad, 2012
Traz a essência “lecteriana” extraída após um longo estudo sobre a personagem.

Harris criou Hannibal a partir da história de um serial killer real (Andrei Chikatilo) que aterrorizou a Rússia no período pós Segunda Guerra Mundial. Foi feliz nas escolhas de características para moldar Hannibal e transforma-lo em um nobre trajado à rigor, dissolvido em apatia, tão diferente daquele à quem foi inspirado. A pergunta que ressoa quando falamos sobre psicopatas do cinema é: “o que torna Hannibal Lecter tão passível de amor e fascinação?

O chamado “horror real” caracteriza personagens humanos que possuem características psicopáticas e homicidas. Seus atos insanos são cometidos como parte de uma vingança ou como meio de conseguir justiça (self made).

As estórias de vida destes são o combustível do amor e da piedade do telespectador que se sente atraído e próximo de sua realidade, de seus “sentimentos“. Lecter não é “mais um”, ele é único. O brilhantismo, os requintes, a polidez, o charme, não são somente atrativos.

São apaixonantes. Cada pequeno detalhe se torna grandioso aos olhos de quem se apaixonar por ele.

O cinema, com todo o romantismo beirando a insanidade na caracterização de psicopatas, acaba por alienar quem não possui real conhecimento sobre tal patologia. Quantos de nós já nos deparamos com aqueles que adorariam jantar em companhia do canibal mais querido de todos os tempos? Ou seríamos nós estes a querer fazê-lo?

A simbologia por trás da criação de Thomas Harris é surpreendente e fascinante. Tão inteligente quanto o próprio canibal. Se você acha que conhece tão bem Hannibal Lecter por ter lido a sequência de livros ou ter visto a sequência de filmes, melhor repensar após devorar A Fala e a Fúria, pois Modesto consegue tirar a venda dos olhos dos apaixonados por Lecter ao despi-lo até a alma…

E essa nudez nunca esteve presente em nenhuma sequência.

Psicóloga Criminal, pós graduanda em Perícia Criminal e Toxicologia Forense, quase especialista em Serial Killers. Escritora por amor.

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