Teatro

Espetáculo da falência e crueldade em “Agosto”, de Tracy Letts

O que leva em tempos de cóleras, intolerância, desesperança e desapontamento da raça humana, querermos assistir a um espetáculo que fala da falência, da crueldade do ser humano e, sobretudo, numa vida sem esperança e perspectivas?

Quase um sadomasoquismo, se entendemos que esse tipo de teatro naturalista/ realista é um uma tentativa de recorte da vida, logo, consequentemente, estamos vendo a hediondez de nós mesmos numa faceta carregada e pesada de conflitos familiares de tamanha desestabilização emocional.

A obra do americano Tracy Letts que é vencedora do Pultizer (maior prêmio de teatro americano) de melhor drama e o Tony de melhor texto americano, tem aquela pegada ou vem de uma escola de playwright de Tennessee Williams e Eugene O’neill (dramaturgos americanos) em que em suas teias dramáticas, parece que não há nada que possamos fazer para mudar o fluxo de nossas vidas devida a impotência diante do destino e da implacabilidade da vida.

Assim é o texto de Letss, intitulado “Agosto”, uma contundente e emocionante história sobre conflitos e tragédia familiar. Uma peça sobre o indizível, sobre o que nos é indigesto e sufoca e que também foi levado ao cinema com Meryl Strepp e Júlia Roberts. O drama de uma família desequilibrada, desfeita, cujos membros insistiram na união o quanto puderam, da forma que puderam, mas que chega ao ápice, ao limite da desistência.

Apesar de se tratar de um texto denso, a peça é um soco no estômago, onde um câncer de boca chega a ser talvez a coisa mais amena na peça. Um texto que apesar de tanta hostilidade consegue abrir uma lacuna para descontração no sentido que algumas das personagens não se levam demasiadamente a sério. De modo que o espectador recebe uma anestesia de comicidade justamente nos momentos em que o riso parece inviável.

Com adaptação e direção de André Paes Leme, elenco composto por Guida Vianna (vencedora do Prêmio Cesgranrio e indicada ao Prêmio APTR de atriz em papel protagonista), Letícia Isnard (indicada ao Prêmio APTR de atriz em papel coadjuvante), Alexandre Dantas, Claudia Ventura (indicada ao Prêmio APTR de atriz em papel coadjuvante), Claudio Mendes (indicado ao Prêmio APTR de ator em papel coadjuvante), Eliane Costa, Guilherme Siman, também tradutor do texto, Isaac Bernat, Paulo Giardini (revezando com Isaac), Julia Schaeffer, Marianna Mac Niven, Lorena Comparato e Isabelle Dionísio (revezando com Lorena).

O cenário, assinado por Carlos Alberto Nunes, é ditado pela decisão da direção de cenas simultâneas em cômodos distintos. O palco traz apenas tapetes em organização disforme e cadeiras de madeira em um fundo preto. Paredes e demais mobília são invocadas pela imaginação do espectador a partir de incitações da dramaturgia e da encenação, que se desprende do realismo nesse sentido. É um grande acerto da direção: em momento algum, ocorre confusão sobre quem fala para quem ou onde.

A iluminação de Renato Machado também é certeira nesse conceito, diminuindo ou ampliando o espaço cênico, de acordo com as necessidades de cada parte da história e trazendo a noite e o dia paro o entendimento das cenas.

Os figurinos, de Patrícia Muniz, representam a convenção do luto sem demérito das características de cada personagem. Os recursos cênicos da direção são extremamente teatrais, destaque para a cena do jantar e das cenas simultâneas.

A direção parece flertar com a técnica de treinamento com improvisação para atores chamada de Viewpoints, extremamente relevantes para o trabalho de ator. No contexto desta metodologia são aplicadas simultaneamente como estratégias de desenvolvimento da capacidade de improvisação de um grupo de atores-em-treinamento.

Entende-se que essas práticas contribuem, respectivamente, com a expressividade corporal e as habilidades narrativas dos atores envolvidos. Esse tipo de treinamento dos Viewpoints foi concebido por Anne Bogart e Tina Landau por Keith Johnstoneogar com o método de treinamento teatral para atores muito em voga.

A encenação é impregnada de signos. Os móveis, utensílios, livros empilhados trazem a presença do patriarca que suicidou- o tempo inteiro. Ele está lá naquele ambiente sórdido como um fantasma a suscitar as mazelas da família.

O vento do ventilador que sublinha esse verão escaldante de Oklahoma que é quase uma personagem da peça, superaquece os ânimos das mesmas e seus comportamentos arbitrários. O ventilador sopra e serve como diapasão para a atmosfera que se instaura na casa dessa família.

Agosto é um tipo de Apocalipse now, e tem como o tema o fracasso tão explorado pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett numa leitura naturalista e esgarçada por Tracy Letts, com o pessimismo de Schopenhauer e o peso da música de Chopin.

Ator e crítico, é Analista Técnico de Cultura no SESC Rio.

One Comment

  • Ney Motta

    Boa tarde! Sou assessor de imprensa e divulgo teatro no RJ e SP. Gostaria de saber para qual e-mails devo enviar release para sugestão de pauta de matéria e/ou crítica. Abs

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