Literatura

Resenha | As Brigadas Fantasma, de John Scalzi

Conhecidas como as forças especiais da Força de Defesa das Colônias (FDC), As Brigadas Fantasma são a raça mais avançada dentro da espécie de seres humanos. Seus componentes foram criados do zero para serem rápidos e fortes, mas principalmente eficientes.

Seu BrainPal é ainda mais avançado: dispensa a comunicação falada e a substitui pelo ritmo acelerado de pensamentos. Como são criados a partir do cérebro de pessoas que de fato existiram, mas não traz consigo a consciência e lembranças de uma vida passada, eles não perdem tempo com sutilezas e palavras gentis.

Diretos, aprendem sobre si mesmo em questão de dias e formam uma personalidade de forma tão rápida quanto são criados. Se entram em uma guerra, não é para perder. Se são chamados, é porque a espécie humana está pedindo socorro.

E de fato está, conforme Jane Sagan descobre ao sequestrar um cientista de outra espécie que, optando por viver, conta o plano militar que une de três raças alienígenas em expansão para acabar com a humanidade. A situação toda se torna ainda mais difícil quando descobrem que Charles Boutin, um dos maiores conhecedores da tecnologia desenvolvida pela FDC, alia-se ao inimigo.

“Real-natos passam anos sem a menor ideia do que vão fazer. […] Simplesmente perambulam pela vida, confusos, e caem no túmulo quando ela acaba. Triste. E ineficiente.”

A solução? Criar um novo membro para a equipe. Jared Dirac, criado a partir do DNA de Boutin, pode ser o único capaz de girar a chave que desvenda as intenções e motivações do traidor. Mas criar um ser humano do zero com as lembranças de outro não é tão perigoso quanto lidar com o traidor?

Se em Guerra do Velho lidamos o tempo inteiro com a consciência, a experiência de uma vida inteira sendo aplicada em uma realidade improvável, em As Brigadas Fantasma lidamos com algo muito mais complexo — e colocamos em pauta muitos outros debates.

A história, ao contrário do que eu esperava, gira em torno de Dirac e a possibilidade de que a consciência de Boutin desperte nele. O que isso significaria? A personalidade de Dirac seria deixada de lado em nome do seu DNA clonado?

Se estivéssemos falando de um ser humano como eu ou você aprimorado, poderíamos apostar nossas fichas que não. Afinal, se estivéssemos na FDC, teríamos mais de setenta anos de experiência. Teríamos lembranças, histórias, motivos para sentir nostalgia e lutar para manter quem realmente somos intactos.

Todavia estamos falando de um ser humano criado do zero, que com algumas horas de idade já conquistou o que o restante da raça demora anos para conquistar. Ele fala, pensa, tem opiniões; ainda não sabe como tudo funciona, mas em questão de um ou dois dias, saberá.

Principalmente, ele não questiona. Segue ordens, é quase mecânico. Entendem o problema? Não à toa logo nos primeiros capítulos faz-se uma comparação com Frankenstein, ou o Prometeu Moderno e deixa a pergunta: por quem você sentiria compaixão? Pelo monstro ou pelo cientista?

John Scalzi criou uma narrativa um pouco menos cômica, mas mais impactante se comparada ao primeiro volume. As Brigadas Fantasma não é necessariamente uma continuação de Guerra do Velho, pois não vemos Perry ou as demais personagens aqui.

Funciona muito mais como uma segunda história que se passa no mesmo universo, contada, é claro, sob outro ponto de vista, com pautas bem diferentes e a mesma escrita sensacional. Scalzi certamente é um autor para acompanhar, e este é um livro para guardar na estante.


NOTA — ★★★★★♥

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.