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Crítica | Baseado em Fato Reais, o novo filme de Roman Polanski

Baseado no romance escrito pela autora francesa Delphine de Vigan, o novo filme do diretor Roman Polanski, Baseado em Fatos Reais, traz sua esposa (Emmanuelle Seigner) no papel da própria Delphine e Eva Green na pele de Elle, uma admiradora de seu trabalho, que apesar de também ser escritora, diferente de sua ídola, escreve biografia de celebridades enquanto ela mesma permanece no anonimato.

Após lançar um livro mais pessoal no qual fala do relacionamento com sua mãe e com isso, suscitar uma imensa euforia do público que se sentiu muito tocado com sua obra por causa da identificação que esta causa no leitor – ou pelo menos, foi isso que deu a entender – Delphine entra em um colapso mental seguido de um bloqueio criativo.A Partir daí que se faz presente a participação de Elle em sua vida e a trama começa de fato.

A personagem de Eva Green é uma mulher aparentemente decidida, apesar de carente e, segura e confiante, mesmo sendo claramente perturbada e adepta a rompantes. No fundo também é uma escritora solitária assim como Delphine. Ela inveja a famosa e reconhecida autora de best selllers e quer ser como ela, se aproveitando da aproximação e abertura que a outra lhe dá para enlouquecer sua cabeça e assim, conseguir destruir sua carreira aos pouquinhos, de forma sutil, amigável e despretensiosa.

Baseado em Fato Reais, o novo filme de Roman Polanski

Contudo, não é pelo talento que ela inveja a colega de profissão, até porque, essa é uma qualidade que também reconhece em si. Sua inveja se dá pela glória que envolve a outra, mesmo que todo sucesso não traga um pingo de felicidade para vida desta. Afinal, qual profissional – seja artista ou não – não quer ter seu trabalho valorizado e aplaudido por todos?

Elle trabalha como ghost writer, – que, por acaso, também é o nome de outro filme do Polansky, lançado em 2010, que aborda o lado negativo e perigoso dessa profissão – ou seja, uma profissional que não recebe os créditos por seu trabalho como escritora, pois sua autoria fica oculta enquanto aqueles que contratam seus serviços ficam com ela. Sabendo disso, fica claro que a amizade dela por Delphine não é tão inocente como ela se esforça para transparecer.

Tudo levava a crer que a necessidade absurda que Elle tinha de obrigar, passando de todos os limites, Delphine a escrever um novo livro revelando seus segredos mais íntimos e desconhecidos para seus leitores era uma maneira dela expor e destruir a carreira da “amiga” ou ao menos, uma forma de exercer controle e poder sobre a outra, como se ela fosse dona dela e de sua carreira, a fim de se apropriar cada vez mais da vida de sua ídola.

Entretanto, o enredo e o próprio trailer enganam. As coisas são mais complexas do que parecem numa primeira interpretação.

O filme do mesmo diretor de O Bebê de Rosemary, não termina com um final que parecia caminhar para o óbvio, surpreendendo e ao mesmo tempo confundindo o espectador. Baseado em Fatos Reais abre um leque para variadas interpretações dependendo de como cada um enxerga a trama. Tem várias leituras para o fim do longa, basta descobrir qual a sua.

Vamos conhecer algumas?

Uma delas é que a Elle, na verdade, é a própria Delphine. Como se fosse um alterego criado por ela com o objetivo de fazê-la conseguir escrever a nova obra. Uma forma de tirá-la do bloqueio criativo e lhe trazer inspiração.

Talvez, não seja apenas uma mera invenção desconectada de si. Talvez as histórias de Elle sejam realmente reais, só que não são de Elle, mas sim de Delphine. Talvez Delphine tenha perdido a mãe, o pai e o marido de forma trágica e duvidosa como Elle narrou, só que não tinha coragem de expor isso aos leitores.

E esse seria o tal livro escondido que era tão cobrado de si (ou ela mesma que a cobrava?), mas que lhe faltava coragem para leva-lo a público. Pode ser que o passado dela seja tão doloroso que ela tenha apagado de sua memória e transferido para outra pessoa para não precisar assumir para o mundo e pra si mesma sua possível culpa e até mesmo, crueldade velada. Afinal, é bem mais fácil lidar com um fardo quando se transfere para alguém, não é?

Ou a influência de Elle sobre si tenha sido tão forte que ela apenas foi se transformando nela ao longo do filme, até culminar no inesperado desfecho.

Acredito que a segunda hipótese seja a mais correta, se é que existe certo ou errado na interpretação desse filme. Afinal, nenhum outro personagem interage ou sequer aparece na mesma cena que Elle. Apenas Delphine contracena com a perturbada personagem de Green. O que torna a possibilidade dela não existir mais coerente ainda.

Não importa qual seja sua análise do filme. De qualquer forma, você vai sair do cinema se sentindo perturbado, pois o objetivo dele, como um bom thriller psicológico deve ser, é justamente te deixar desorientado, sem saber no que (e em quem) realmente deve acreditar.

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