Música,  Teatro

Bibi Ferreira — Uma vida em musical

Há muito que o Brasil está entre os maiores países do mundo em produções de musicais, perdendo somente para a Broadway em Nova York e West End em Londres.

O eixo Rio/São Paulo segue esse filão quase como uma certeza de “sucesso” ou retorno satisfatório de bilheteria, já que o mercado nacional, bem como os produtores, as grandes empresas, os editais de isenção fiscal, entendem que é o que dá um retorno de público.

Se não os musicais, as comédias de riso fáceis. Nada contra nenhum dos dois gêneros, apenas empobrece a cena contemporânea no que tange a tantas outras possibilidades que precisam também ser oferecido em proporções maiores.

O musical da vez é um tributo há uma das maiores atrizes do teatro brasileiro que solidificou sua carreira justamente através dos musicais. O espetáculo Bibi Ferreira — Uma vida em musical, que está em cartaz no teatro Oi Casa Grande, no Rio de Janeiro, de quinta a domingo, e fica em cartaz até 01 de abril de 2018.

A atriz Bibi Ferreira está com 95 anos e com 76 anos de carreira. Além de atriz é cantora, diretora e produtora, pois assim de descreve.

Nascida Abigail Izquierdo Ferreira, que logo virou Bibi, era filha de um dos maiores atores do teatro nacional. Procópio Ferreira com a bailarina argentina Ainda Izquierdo.

Essa biografia é contada no espetáculo durante 1.40 minutos com intervalo de 15 minutos entre o 1°. e 2° ato. As histórias familiares, profissionais e amorosas da atriz se enredam.

A formação em música, em dança e línguas estrangeiras foi estimulada pela mãe e a estreia profissional no teatro, aos 19 anos, foi pela mão do pai.

Assim o musical percorre todas as fases da vida de Bibi. Os espetáculos musicais como os inesquecíveis “Gota D’Água”, de Paulo Pontes e Chico Buarque, “My Fair Lady”, “Alo Doly”, “Piaf”, a vida de uma estrela da canção, seus casamentos, o nascimento de filha única, Tina Ferreira, as viagens internacionais e a homenagem da escola de samba Viradouro, até a sua chegada a um teatro da Broadway, aos 90 anos.

Bibi Ferreira — Uma vida em musical não resta dúvida que se trata de um espetáculo bem feito do ponto de vista técnico e artístico. Chega a causar um espanto, uma vez que o espetáculo foi levantado em apenas 5 semanas, ou seja, pouquíssimo tempo para apresentar um resultado com excelente acabamento e depuração técnica, com cenários e figurinos fabulosos, caracterização impecáveis e uma trilha sonora e direção musical cuidadosa, e, sobretudo, a competente direção geral de Tadeu Aguiar.

O texto do espetáculo é de Artur Xexéu e Luana Guimarães, música original de Thereza Tinoco, direção musical e arranjos de Tony Lucchesi, coreografia de Sueli Guerra. O primor dos figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal e a luz que é quase uma personagem da trupe são de Rogério Wiltgem.

Apesar de tantos profissionais talentosos e tarimbados num mesmo elenco e ficha técnica, atores que vemos quase sempre em todos os musicais dos últimos anos, esses espetáculos musicais ao que parece, estão sempre atrelados a um formato, a uma espécie de receita de bolo para manter a interlocução com a plateia, e com isso colher os aplausos, ou seja, uma formatação construída intencionalmente.

Esses musicais na sua quase totalidade possuem uma dramaturgia frágil no ponto de vista de teatro enquanto drama, neles se persegue efeitos cênicos em outros elementos para suprir uma deficiência dramatúrgica, que, dependendo de uma direção inteligente e repleta de teatralidades, essa fragilidade é superada, recurso esse que Tadeu Aguiar foi muito competente.

Bibi Ferreira — uma vida em musical se repete em sua concepção a exemplo de outros musicais brasileiros nos recursos adotados para se contar uma história, mas faz isso com o maior profissionalismo e requinte nesse tributo a Bibi.

Amanda Acosta é sem sombra de dúvidas a grande atração como protagonista do espetáculo. Sabe quando você faz uma cópia de algo que fica melhor que a original? É mais ou menos isso que acontece entre as Bibi(s) da ficção e da realidade.

Existem atuações céleres em que o ator quase suplanta alguém que existiu de verdade, tamanha composição curiosa apresentada. Sem cair no clichê e nem na caricatura. Um bom exemplo disso é a interpretação de Maryl Streep quando interpretou a 1° Ministra Britânica Margareth Thatcher no cinema. Amanda Acosta é um pouco isso.

Bibi Ferreira — Uma vida em musical é um espetáculo bonito, bem acabado, e com todos os “ingredientes” de apelo de um bom musical. Mas reitero que há bom teatro para além dos musicais também.

Ator e crítico, é Analista Técnico de Cultura no SESC Rio.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.