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Crítica | “Carol” traz temática importante para os dias atuais

O filme aborda o relacionamento entre duas mulheres numa época que se envolver afetivamente com uma pessoa do mesmo sexo era considerado no mínimo um surto psicótico digno de ser estudado por psiquiatras. Aliás, foi essa a defesa que o advogado de Carol utilizou para justificar o vídeo no qual sua cliente aparece claramente praticando um ato sexual com uma outra mulher.

“Ela estava sobrecarregada emocionalmente e por isso, foi capaz de tal loucura. Mas com a ajuda da terapia e de um bom psiquiatra, ela recuperará sua sanidade e teremos resultados eficazes”, alegou seu advogado.

Tudo começou de forma despretensiosa. Carol vai numa loja de departamentos para comprar um presente de natal para sua filha e conhece a vendedora da seção de brinquedos, a jovem Therese Belivet. A atração entre as duas acontece de forma inevitável, como se não tivessem escolha. Desde o primeiro contato, elas sentem uma fixação incontrolável uma pela outra.

Carol é uma mulher forte, segura e decidida apesar da época machista na qual vivia. Estava se divorciando de um marido obsessivo, ciumento e controlador e lutando por seus direitos em relação a filha do casal que era apenas uma criança e merecia ser poupada das brigas dos pais.

Apesar das ameaças do pai da criança, Carol se mantinha certa de sua decisão de romper com seu casamento e tentar ser feliz sem abdicar de seus direitos de mãe. Ela era uma espécie de feminista sem perder sua fragilidade feminina, numa sociedade na qual nascer mulher era sinônimo de insignificância e falta de poder social.

Já Therese, era uma jovem apaixonada por fotografias apesar de não tê-las como profissão, visivelmente frágil e insegura e completamente indecisa em relação a própria vida. Não sabia direito quem era e nem o que sentia. Só tinha certeza de que era cheia de dúvidas.

Tinha um namorado, Richard, cujo verdadeiro interesse era apenas ele mesmo e não lhe causava nenhum sentimento forte a ponto de fazê-la perder seus sentidos enlouquecidamente, sentimento este que apenas Carol foi capaz de lhe causar.

Conforme as duas vão se aproximando, vão ficando mais íntimas e mesmo com os insultos do marido de Carol e as represálias do namorado de Therese, nada consegue abalar a afinidade e o desejo cada vez mais forte entre as duas. Elas se entendem apenas pelo olhar, nem precisam dizer nada uma pra outra, porque a reciprocidade é tão óbvia que dispensa explicações. Uma interpreta a outra só ao se observarem.

Carol mostra um novo mundo para Therese e esta por sua vez, traz uma nova magia e um conforto para a vida e sofrimentos de Carol. Uma proporciona maturidade e experiência de vida e a outra paz e uma sensação de juventude, porém ambas representam felicidade e a chance de um novo recomeço uma para a outra.

O filme demora até essa atração entre as duas se efetivar de fato, mas quando acontece não poupa detalhes. Orange is the new black, Sense8, Azul é a cor mais quente e a minissérie global Felizes para sempre? exibida no começo do ano passado, não ganham nada em quesito realismo da unica cena de sexo entre Carol e Therese. Esse é um filme pra quebrar preconceito mesmo.

Filme Carol

Quem se incomoda com cenas explícitas entre pessoas do mesmo sexo; ou se acostuma ou pula a cena, não tem jeito. É uma cena só e só acontece no meio pro final do filme, mas nem por isso perde sua intensidade. O filme busca ser realista e consegue cumprir bem a promessa. Desde o momento que elas se conhecem, passando pelas primeiras conversas, as incertezas de Therese e as convicções de Carol, até chegarem às vias de fato, a história não perde seu compromisso com a verossimilhança.

E o mais interessante é que acontece uma espécie de troca de personalidade entre as duas, quase no final do filme. Com medo de ser afastada da filha, o lado maternal de Carol grita mais alto e ela concorda em se submeter às ameaças do marido, se afastando de sua paixão proibida mesmo sofrendo com sua ausência.

E Therese, apesar de inconformada com a situação, se mantêm forte e segue sua vida na medida do possível; consegue trabalho como fotógrafa no New York Times, um respeitado jornal da cidade, e tenta mesmo em vão esquecer de seu amor por Carol.

Enquanto Carol mostra que também tem suas fraquezas, Therese prova que também pode ser uma mulher firme e independente. E isso ficou visível graças à interpretação das duas atrizes maravilhosas, Cate Blanchett e Rooney Mara que souberam transmitir a sintonia irresistível entre as duas apenas com uma troca de olhar, como pode ser visto na última cena do longa.

Cate com seu olhar penetrante e seu tom de voz grave e articulado, soube construir perfeitamente Carol; uma mulher, mãe, esposa, amiga, apaixonada, bissexual,forte e feminista. E Ronney com seu jeito doce e delicado e seu olhar esperto e curioso, nos faz sentir empatia imediata por Therese; uma jovem ainda em formação e em busca da própria essência.

Ambas são mulheres fortes em suas fragilidades e seguras de suas próprias inseguranças, tentando se auto descobrir através do contato com o outro.

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