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Crítica com spoilers | Alias Grace, série Netflix baseada no romance de Margaret Atwood

O assassinato de Thomas Kinnear e Nancy Montgomery em pleno século século XIX foi motivo de muitas especulações no Canadá. Diz a história que Kinnear voltava para cada após dois dias de viagem, e estranhou a ausência de Nancy, a governanta da casa. Com um tiro, Kinnear morreu horas depois de Nancy ter recebido uma machadada na nuca seguida de estrangulamento. Kinnear foi encontrado desmembrado em uma banheira; já Nancy, no porão.

Encontrado ainda no corpo da governanta, o lenço pertencia a Grace Marks, que já se encontrava em fuga para os Estados Unidos junto a James McDermott. Ambos foram encontrados carregando todos os pertences de valor da casa onde haviam trabalhado e foram a julgamento. McDermott não teve muito para onde correr: foi considerado culpado e seu destino foi enforcamento. Nos segundos antes de sua morte, gritou que a ideia havia sido de Grace, e que ela era a verdadeira culpada.

Marks foi julgada mais tarde, e respondeu apenas ao assassinato de Kinnear. O que a livrou da sentença de morte foi o fato de ser mulher: em uma sociedade absolutamente machista, como acreditar que logo ela seria a responsável pela ideia e execução? Alegando não se lembrar de nada, seu caso se estendeu por 30 anos antes de ser perdoada. O questionamento, entretanto, permanece: seria Grace culpada?

Alias Grace

Alias Grace

A série da Netflix lançada em novembro de 2017 pauta-se no romance de Margaret Atwood (autora de O conto da aia) para tentar responder essa pergunta e, já nos primeiros frames, expõe aquilo que permeará toda a narrativa. Grace (Sarah Gadon) é uma mulher jovem, com pouco mais de 16 anos, sobre a qual todos falam.

Assassina, inocente, burra, estúpida, manipuladora, inteligente, sofrida são palavras que descrevem o que pensam sobre ela. Palavras que ditam sua feição, sua fala e suas atitudes. Seria ela uma injustiçada, cuja vida trágica não poderia se encerrar com um final feliz? Ou, na verdade, Marks sabia como manipular todas as pessoas ao seu redor para que tivessem todos em suas mãos, fazendo aquilo que ela queria que fizessem?

Com apenas 16 anos, já tinha aprendido que, como mulher, seu corpo e sua vida não lhe pertenciam por inteiro. O emprego sempre estaria sob vistas e julgamentos de outras mulheres, enquanto seu corpo seria disputado por homens que, por sua classe social, jamais pensariam em casamento, mas em sexo, sim.

Foi este, aliás, o destino de Mary, sua melhor (e talvez única) amiga, apaixonada e destinada à morte por um amor não correspondido (e um filho não desejado). Se algo permanece ao longo de toda a narrativa, é a solidão de Grace.

A narrativa

Assim como no livro, a história é contada pela própria Grace. Na série, sua conversa com Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft) é permeada por seus pensamentos, deixando claro que há verdade em tudo aquilo que se conta, porém não temos como dizer o quanto.

Conhecemos sua história sob sua ótica, que tanto é inocente quanto dura. Seus momentos de raiva transparecem em algumas falas; o jogo de palavras inteligente dá diversos sentidos às suas respostas. As memórias estão intrínsecas ao longo dos capítulos, contando mais de uma versão do ocorrido, deixando-nos escolher com qual delas queremos seguir.

A verdade jamais é exposta, porque ela não existe. Todavia, o último capítulo nos dá uma sugestão. Simon Jordan era, nas nossas palavras, um psicólogo. Naturalmente, algumas palavras se destacavam em seus escritos, dentre elas: sussurros. A terceira alternativa não foca única e exclusivamente, portanto, em Grace Marks ser ou não culpada; e seria este o primeiro passo para um debate inusitado para a época.

Alias Grace

Os problemas psicológicos

Apesar de não ser citado em nenhum momento, as estrelinhas nos dão um diagnóstico: transtorno dissociativo de identidade. Isso porque a hipnose deixa a entender que existem duas pessoas vivendo em Grace. Ao contrário do que uma personagem fala, não acredito que a cena tenha explorado um lado sobrenatural. Para mim, Marks nunca esteve possuída.

Os sussurros e as vozes, citadas tantas vezes ao longo dos episódios anteriores, também não me direcionaram para um quadro mais conhecido atualmente, o da esquizofrenia, porque o que Grace enfrenta é outra coisa. E se sua memória do ocorrido tivesse realmente sumido? E se Grace fosse culpada, mas não de forma tão consciente?

Diz-se que o fenômeno da dissociação pouco ocorre como transtorno primário, sendo mais um sintoma de outras doenças mentais, e é caracterizado como uma resposta a um trauma ou estresse emocional externo. Neste período, é como se a personalidade primária desse oportunidade à outra de surgir e lidar com a situação/problema, poupando o “eu verdadeiro” (ou ego, como falam).

Vamos analisar rapidamente alguns fatos: Mary foi a única mulher que Grace realmente pôde considerar como amiga. Grace viveu uma vida seguida de traumas: a morte da mãe, os abusos do pai, os abusos de todos os homens para quem trabalhou, a morte da melhor amiga por conta de um aborto, a constante mudança do tratamento de Nancy, o fato de McDermott estar longe de ser alguém decente com quem se divide as tarefas.

Em um eterno limiar, ouvindo vozes, confusa sobre o que era verdade ou não em momentos de maior estresse, seria tão surreal pensar que ela fosse vítima de si mesma, e definitivamente culpada, junto a McDermott, da morte de seus patrões? Acredito que não.

O fim

Apesar do fim quase poético que Alias Grace deu à Grace Marks, o relato mais acertado é de que, após receber o perdão, ela conseguiu chegar aos Estados Unidos, e então sumiu de vista.

Como nos é difícil não sentir certa empatia, nos resta escolher que fim seria este: o da série, no qual uma brincadeira entre duas amigas se torna uma realidade bastante satisfatória e uma versão de “e viveram felizes para sempre”, ou crer que sua vida foi tranquila até o final de seus dias, sem nenhum chão a respeito do que lhe aconteceu. Por mim, fico com o final feliz.

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