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Crítica | Todo Dia: o filme teen mais filosófico que já foi feito

Já imaginou como seria se você pudesse acordar todo dia num corpo diferente sem se encaixar em nenhum gênero e sem ter uma aparência ou família determinada? Como você se sentiria? Mais livre ou talvez mais preso?

Todo Dia, baseado no livro de David Levithan, levanta essa questão ao nos apresentar a história de A, uma alma que acorda todo dia num corpo diferente, sempre da mesma idade e nunca distante da anterior, sem ter nenhum controle sobre qual pessoa irá habitar no dia seguinte.

Até que num certo dia, amanhece no corpo de Justin, um garoto popular e egoísta de uma escola americana, que namora Rhiannon (quase Rihanna, como a própria diz), uma adolescente tão sensível a ponto de ser a única pessoa que de fato se apaixona por A e não pela “casca” que ela ocupa.

O filme não aprofunda muito o passado de A. Só mostra que tal fardo acontece desde seu nascimento sem que houvesse uma explicação. Ela simplesmente percebeu, assim que teve idade suficiente pra ter consciência das coisas, que a cada dia era uma nova pessoa e que não podia falar pra ninguém ao redor porque sabia que não entenderiam e achariam que se passava de algum problema psiquiátrico, talvez.

É claro que isso traz uma enorme solidão, pois não ter uma identidade e origem definida nem alguém que realmente possa chamar de família ou amigos dá uma certa falta de sentido na vida. Afinal, qual seria o motivo de viver uma espécie de “reencarnação” diária ao invés de ter um corpo físico propriamente seu no qual possa se ancorar?

Por outro lado, A explica pra Rhiannon que justamente por sua estranha condição, ela consegue enxergar o que torna todo mundo igual e o que torna cada um diferente do resto, ou seja, o que nos aproxima e é universalmente humano independente de cor, raça, orientação sexual, religião ou meio social e, o que é específico de cada indivíduo tornando-o único perante os outros.

A tenta interferir o mínimo possível na vida das pessoas que habita para não deixar vestígios de sua existência e correr o risco de ser descoberta. Ela apenas vivia o dia por aquela pessoa, da melhor forma que podia e antes de conhecer Rhiannon, nunca tinha contado pra ninguém a respeito de si.

Apesar de um ser um filme teen tem um roteiro diferente dos habituais. Não é aquela história clichê de high school e não se restringe apenas ao público mais jovem. Os personagens são adolescentes e vivem dilemas próprios da idade, porém não é sobre isso que se trata o longa. A mensagem do filme é para todos, sem distinção de idade.

Dessa forma, acredito que atinja o público de todas as faixas etárias.
É uma história, acima de tudo, sobre respeito. Respeito que só pode ser dado a partir do entendimento do outro por meio do desenvolvimento da empatia. E qual melhor forma de nos dispormos a compreender o que o outro sente se não através do amor?

Foi essa justamente a maior lição que A deixou pra Rhiannon; aprender que amar de verdade significa abstrair o externo para dar valor apenas ao interno, à alma, à essência da pessoa, pois afinal de contas, Rhi não se apaixonou por uma pessoa de carne e osso. Ela se apaixonou por uma alma.

Talvez a princípio, pareça um argumento meio hipócrita ou idealista demais, para a maioria das pessoas. Contudo, o filme consegue cumprir bem seu objetivo e diria até, que dá um “tapa na cara” em todas nossas inúmeras convicções, princípios e regras sociais. Tudo aquilo que a gente dita como certo e errado para nós mesmos é posto de lado nos fazendo refletir sobre nossas “preferências”.

Quais origens daquilo que a gente estabelece como sendo de nosso gosto e no que é pautado nossas escolhas (se é que de fato são escolhas)? Já parou pra pensar que muitas delas são fundamentadas em cima de superficialidades ou banalidades sociais?

Se você esquecer de todas suas restrições, tanto aquelas que são impostas socialmente como aquelas impostas por si mesmo, o que te sobra? O que de fato importa pra você?

Preciso dizer que o longa te instiga a querer ler o livro pra saber mais detalhes sobre A e como tudo começou. Eu, pelo menos, fiquei muito curiosa em conhecer essa história mais a fundo. O filme só dá uma pincelada em como era a vida de A antes de Rhiannon entrar nela, mas com certeza o livro deve aprofundar melhor.

Super recomendo!

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