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De todos os amores que provei, o melhor

Todo ser que possui uma alma tem sentimentos, a alma é a parte de nós responsável por sentir, pensar, fazer escolhas. A partir do momento em que nossa existência é descoberta começamos a ser alvo de sentimentos, e quando tomamos consciência da nossa própria existência passamos a sentir. Os sentimentos permeiam a existência. Existo, logo sinto.

Vamos ser provocados e provocar diversos sentimentos nas pessoas, mas hoje quero falar daquele que é o mais nobre e o mais complicado dos sentimentos: o amor.

O amor é objeto de reflexão, de estudos, de esperança dos seres humanos desde à antiguidade. Os gregos tinham 4 palavras para explicar o amor.

Eros

A primeira palavra grega para o amor é EROS. O tipo de amor representado pelo eros é o amor físico, sexual, totalmente humano. Aparece diversas vezes na literatura grega, daí vem a palavra: erótico. É também o nome do deus grego do amor, por coincidência ou não, também conhecido como o deus do caos. Esse tipo de amor pode incluir o sentimento verdadeiro de amor, mas sempre está relacionado à busca da satisfação pessoal e sexual. Esse tipo de amor pode acabar, assim que a satisfação não é mais alcançada.

Philia

A segunda palavra grega para o amor é PHILIA. Representa o amor mais relacionado ao gostar, inclui também um lado físico, porque philein pode significar beijar ou acariciar. A palavra philia é comumente traduzida por amizade. Esse tipo de amor é o amor de troca, dado e recebido, a alegria de amar. Aristóteles disse: “Amar é regozijar-se”. Mas esse tipo de amor também pode acabar, assim que a relação de troca não existe mais.

Storge

A terceira palavra grega para o amor é STORGE. Storge é o amor familiar, afeto natural que sentimos pelos nossos pais, irmãos, filhos e a família em geral. É um tipo de amor que também exige reciprocidade, porque as relações familiares são extremamente complexas e dinâmicas. Por isso amar (storge) é uma escolha diária e um desafio, porque os laços afetivos familiares vão além de laços sanguíneos. É possível que esse amor acabe, caso os laços de afeição acabem.

Ágape

A quarta palavra grega para o amor é ÁGAPE. A literatura grega comum pouco faz referência a esse amor, ele é apresentado e amplamente difundido na literatura grega bíblica. Representa o amor perfeito, o amor incondicional, amor vindo diretamente de Deus. O maior defensor desse amor foi Jesus, que disse aos seus seguidores: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Esse amor, diferentemente dos outros, é um amor eterno, jamais acaba, não exige reciprocidade e por isso é o mais difícil e desafiador de viver.

Na minha peregrinação pela vida, já amei buscando unicamente a minha satisfação física, já fui amada dessa forma também, mas muitas vezes, apesar de se dizer amor, o eros pode ferir, assim como o deus homônimo, provoca o caos. Caos físico, caos emocional e se recuperar dos danos causados por ser alvo de alguém, que busca apenas sua própria satisfação em detrimento dos outros, é um caminho árduo, doloroso.

Também já vivi e vivo o amor philia. Esse amor é ótimo, traz uma sensação maravilhosa de ser cuidado e cuidar. Mas, assim como o eros, ele pode ferir também. As relações humanas estão em constante alteração, alteração de tempos, espaços, interesses.

Quando esses fatores entram em ação, podem e geralmente abalam, o philia. Aí de repente o gostar chega ao fim, a reciprocidade acaba e o cuidado não se sustenta. É terrível ver o fim de uma amizade e viver isso então, dói demais, por experiência própria. Somos deixados para lidar com os questionamentos do porquê isso aconteceu, onde foi que erramos, o que poderíamos ter feito para essa pessoa ficar, continuar gostando de nós. algumas vezes essas respostas são claras, algumas outras jamais saberemos.

Tenho provado do storge desde que me entendo por gente. Acho praticamente impossível determinar quando comecei a amar meus pais, meu irmão, meus avós, parece que já iniciei a existência os amando. Mas sei que muitas pessoas não vivem a mesma experiência que eu, não provam do amor familiar, muitas sofrem os maiores tipos de atrocidades vindo daqueles que deveriam cuidá-las.

A beleza do storge, é que apesar de estar relacionado à família, a existência dele não depende de laços sanguíneos. Existem pessoas que amamos como parte da família, mesmo que não possuam nenhum grau de parentesco.

Existem famílias que se amam e não fazem parte da configuração que a sociedade tradicionalmente nos impõe como família, ainda bem. Esse amor também pode nos ferir, infelizmente.

Quando vivemos o storge, naturalmente espera-se que sejamos amados de volta, mas quando isso não acontece, é uma das maiores dores que podemos viver. O storge exige cuidado, cultivo, é desafiador. Muitas pessoas não conseguem assumir esse desafio, então o storge acaba, ou simplesmente nunca tem a chance de realmente existir.

Mas, de todos os amores que provei, existe um que é o melhor. É insuperável em sua beleza, em seu cuidado. O eros, philia, storge podem acabar e te deixar em pedaços quando isso acontece, mas o ágape jamais acaba, e não só isso, ele pode curar e te deixar inteiro novamente.

Eu fico praticamente sem palavras que consigam descrever suficientemente bem o quanto é maravilhoso viver um amor altruísta. Um amor que está sempre pronto a cuidar, não coloca sobre o outro expectativas irreais, não toma nada, está sempre pronto a pensar o bem e não acaba jamais.

Esse amor liberta. Ama, antes mesmo de receber a reciprocidade, e se por algum motivo a reciprocidade acabar, ele permanece vivo, esperando pelo retorno do ser amado.

Eu recebi esse amor do Criador e com isso recebi o desafio de amar como Ele. É difícil amar assim, mas é possível, porque o Autor desse amor foi generoso em compartilhar os ensinamentos sobre como faze-lo.
O ágape é escolha, é completo, envolve todos os aspectos de nós: alma, corpo e espírito, sua fonte é inesgotável.

Todo ser humano possui a capacidade de viver todas as formas de amor, a melhor delas é aquela que te mantém sempre vivo, sempre cuidado e sempre pronto a cuidar.

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