Revista

Do que se trata o amor?

Acho que essa é uma das mais antigas e inexplicáveis perguntas já feitas pela civilização. Que sentimento é esse, tão sem forma, tão sem descrição? Quando foi divulgado a nós que escrevemos na revista que o desafio do mês seria o mais profundo dos sentimentos que o homem é capaz de viver, confesso que fiquei desnorteada, até porque passei recentemente por um fim de relacionamento triste e que ainda muito me machuca.

Mas resolvi então me inspirar nisso para escrever minha matéria desse mês e tentar, mesmo que de forma prepotente, entender ou delinear um jeito de transcrever minha perspectiva sobre o que é o amor. Digo prepotente porque sei que não chegarei nem perto de algum tipo de definição, pois o amor é incalculável, indefinido e tentar descrevê-lo é tentar limitá-lo.

Pois bem, em âmbitos práticos, temos inicialmente o amor de mãe, o primeiro que deveríamos sentir e ter acesso, pois acontece no momento do parto, você abre os olhos e ali está ela te proporcionando o primeiro sentido, a primeira sensação de sua existência.

Assim deveria ser para todos, infelizmente muitos não passam por essa conexão e até ouso dizer que temos muitos problemas sociais por conta disso; mas lá está ela, sua progenitora, orgulhosa de ter conseguido te colocar aqui, para experimentar o que é essa vida.

Aliás, diria eu que amor e vida são tão concomitantes que poderiam ser considerados parte integrante uma da outra: ninguém vive sem algo amar, não se vive sem amor e sem essa busca eterna por paixão. E dali você segue e, pela lógica das coisas, viriam seu pai, seus parentes, seus tios, avós, amigos de sua família, todos brincando e dando afeto a você aquele bebê fofo e de cara amassada. A primeira conexão de amor é sem dúvida familiar, ou ao menos deveria ser, consideraremos neste texto o seu porto seguro.

Logo na infância você é doutrinado a dois outros tipos de amor: o amor às coisas, que é, de certo modo, problemático e desvia muitas pessoas do caminho puro e descompromissado. Este amor nos ensina a querer ter a posse e o controle sobre aqueles que amamos o que é muito perigoso.

E o amor aos amigos, sejam eles humanos ou animais. São os amores mais brilhantes que podemos sentir, acho, pois eles vêm, ou pelo menos deveriam vir, de modo puro, do nada, sem laços de sangue, apenas uma faísca incessante de afinidade.

É triste ver que, na vida, nos afastamos e deixamos de dar valor àqueles que nos marcam tanto e tantas vezes ao longo de nossa trajetória, mas os amigos são como os diferentes mares, cada um com seus tipos de vegetação e espécies.

Os amigos são os parentes que escolhemos, são nossos apoiadores nos protegem e nos entendem de forma diferente de nossa família, nos proporcionam experiências que fazem parte do viver e que por preocupação os familiares não são capazes de produzir, como é bom ter amigos, como é bom viajar mar a fora, é a única forma de conhecer o mundo!

Logo então acessamos em nossa adolescência e a pressão social que nos molda para querer apenas uma coisa; amar alguém de forma nova e sublime. Ah se eu pudesse calar todos aqueles hormônios dentro de mim, mas não se pode controlar o movimento das ondas do mar!

Sim, vamos lá: nos apaixonamos pela primeira vez, pela segunda, terceira, quarta; a gente voa e cai e repete o processo infinitas vezes. Não preciso descrever o que os belos versos de amor já reproduziram com tanta destreza, o meu foco neste momento é descrever um pouco do caminho que acabamos percorrendo pelo resto de nossas vidas.

Mas afinal, o que definiria essas paixões latentes, essas ondas gigantescas que nos balançam e que passam com diferentes amores profundos e infinitos? Ah senhores! Essa é a parte mais confusa e duradoura de nossa vida, e amadurecer não é solucionar essa incógnita, amadurecer é aprender a ser um bom marinheiro e conviver com as turbulentas ondas que são o amor correspondido.

Ficou claro que a nossa família é a nossa bases, nosso porto seguro, onde embarcamos e desembarcamos quando precisamos nos preparar para os próximos desafios que virão, os nossos amigos são o mar, emoções novas, cores diferentes, peixes e criaturas, biodiversidade, mas o amor avassalador vem dos relacionamentos a dois.

Maremotos e tsunamis, você se vira do avesso, a força que te impulsiona quase biologicamente para a possibilidade da reprodução, mas — acima de tudo — para a formação de uma dupla, ou trio, imbatível, indestrutível, fundamental, é mesmo o amor.

Mas por quê? O que nessa analogia marítima estaria faltando que justificaria essa necessidade de se aventurar? Eu digo: está faltando o barco, esse barco é você. Por que existir um barco se ele não entrará em águas para o mundo enfrentar? Nascer é ser posto nas águas da vida.

E é preciso ser um bom barco! Ser capaz de suportar as turbulências da vida. Portos vão se deteriorar, pois nossos parentes infelizmente uma hora irão nos deixar. Os mares vão mudar, conhecemos amigos que combinam mais com nossos momentos, o que não necessariamente significa que esqueceremos aquelas belas águas pelas quais navegamos, mas precisamos desbravar novas paisagens que nos acalmem a alma. Bem e os mares? Eles se estremecem, e isso é amar alguém. Mas do que é feito seu barco, o que ele suporta aguentar, a que mares ele tem condições de ir?

Não estou aqui falando apenas de amor próprio, o que é um fato, quanto melhor for o material do seu barco mais resistente aos obstáculos marítimas você será, é preciso ser um barco do qual você se orgulhe, é preciso ser o melhor marinheiro por você mesmo, para não se deixar abater por nada, ou pelo mínimo de coisas possíveis, pois sofrer de amor todos vamos. Mas não apenas isso.

É preciso ser um barco que resista e esse é o meu ponto. Amor não tem forma feita, elaborada, definida. Na realidade, o amor tem várias formas, métodos e nuances, mas — acima de tudo — eu diria que não é fácil. Amar é sobre resistir no mar.

É manter seu barco de pé para aquilo que você acredita. Amar é aguentar os tsunamis, os terremotos, maremotos, as calmarias, amor é sobre continuar a bordo e suportar o balanço (que, às vezes, enjoa), porque, se você desiste, não é amor.

Se desiste não haviam motivos para lutar, não é um bom marujo. O mar é mar, amar é amar. E vejam não estou aqui falando de relacionamento, estou falando de amor acima de tudo. O coração sabe quando ama, não é algo que se ligue e desligue do dia para a noite.

Estou aqui, escrevendo esse texto e simultaneamente sofrendo de amor, as pessoas dizem que o tempo vai curar, mas a marca que fica quando o amor é verdadeiro não sai. Não desistimos assim de amar.

O meu barco é forte e aguenta maiores balanços.

Meu porto é seguro os mares por onde andei muitos, e meu medo da turbulência nenhum. Se houvesse alguma chance de me aventurar nas nuances dessas gigantescas ondas eu certamente remaria de volta, pois amor não seca nunca, amor me transborda.

27 anos, filósofa, tatuadora, empresária apreciadora das artes, esportes, viagens, natureza.

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