Entrevistas

Entrevista | Carlos Herculano Lopes

Começou a escrever ainda criança, e, aos 11 anos, mudou-se para Belo Horizonte, onde se formou em Comunicação Social. Trabalhou em vários jornais e, hoje, é repórter do Em Cultura, caderno do jornal O Estado de Minas. Em 1987, conquistou o Prêmio Lei Sarney, como autor-revelação.

Dois de seus romances, Sombras de Julho e O vestido foram levados ao cinema pelos diretores Marco Altberg e Paulo Thiago, respectivamente. Carlos Herculano Lopes é incrível e simpático, além de, claro, ser nosso entrevistado da semana.

Ainda há uma discussão muito grande quanto aos livros digitais que alguns julgam que irá acabar com os impressos. Qual sua opinião sobre o assunto?
Acho que é um grande avanço, inevitável, que só irá contribuir para difundir ainda mais a literatura. Não creio que os livros digitais irão acabar com os impressos: disseram o mesmo quando surgiu a televisão, que esta iria acabar com o rádio. E ele continua aí, mais forte do que nunca. Creio que são mídias complementares, que estão chegando para somar. Fico imaginando como será isto daqui há 50 anos. Meu romance, O vestido, lançado pela Geração Editorial, já está disponibilizado em e-book, e estou achando ótimo, muito instigante.

A literatura estrangeira ainda é a mais marcante entre os leitores brasileiros. Acha que esse preconceito com a nossa própria literatura se deve a que? O que você acredita que é capaz de mudar essa visão?
Na realidade, quem dita as regras do mercado editorial, de maneira geral, são os norte americanos. O que eles editam, sendo bom ou ruim, logo se espalha pelo mundo. E o Brasil não foge à regra, como grande mercado consumidor. Afinal de contas estamos chegando a 200 milhões de habitantes. Mas a literatura brasileira, a meu ver, está mais forte do que nunca: muita gente editando, gente nova surgindo, um bom público leitor, excelentes editoras. Tenho percebido isto, cada vez mais, em minhas andanças pelo país afora, e também aqui em Minas.

A escrita começou a fazer parte da sua vida desde cedo, quando era apenas criança. Como foi essa entrada dela na sua vida? Nessa época, escrevia sobre o que e baseava-se em que?
Nasci numa pequena cidade mineira, Coluna, atualmente com pouco mais de cinco mil habitantes. Ali comecei, incentivado pela minha mãe, não só a tomar gosto com a leitura, como também a escrever. Aos 11 anos comecei a escrever o meu primeiro livro, O estilingue. Obviamente que era um texto ingênuo, de um garoto. Não chegou a ser lançado. Com a vinda para Belo Horizonte, em dezembro de 1968, continuei a exercitar a escrita, a ler mais, até que consegui publicar meu primeiro livro, O sol nas paredes, em 1980, aos 24 anos. Daí para frente não parei mais, e até hoje já lancei 13 livros, entre contos, romances e crônicas. Os últimos dois são A mulher dos Sapatos Vermelhos, de crônicas, que acaba de sair pela Geração Editorial, e o romance Poltrona 27, que será lançado ainda este mês pela Editora Record.

Tem alguma obra brasileira pela qual você se identifica mais? Algum autor ou livro preferido? E estrangeiros?
Falar de preferências literárias é muito difícil, pois são tantos os grandes autores, e grandes obras, que corremos o sério risco de deixar muita coisa boa para trás. Vou citar apenas três livros, que acho fundamentais: Dom Quixote, de Miguel de Cervantes; Grande Sertão: Veredas, do mineiro Guimarães Rosa, e Uma viagem à Índia, do jovem escritor português Gonçalo Tavares, que acaba de ser lançado no Brasil, pela Editora Caminho.

Dois de seus livros (“O Vestido” e “Sombras de Julho”) foram traduzidos e publicados também na Itália. Recebeu muitas respostas positivas dos seus leitores de lá?
O Vestido sair na Itália pela Editora Cavallo di Ferro, graças a Luis Fernando Emediato, da Geração Editorial, que conduziu as negociações. A tradução para o italiano foi feita pela professora Mariagrazia Russo, da Universidade de Viterbo. Foi por iniciativa dela, algum tempo depois, que Sombras de Julho, também traduzido por ela, foi lançado lá. Tive um ótimo retorno, sobretudo do público universitário, que teve acesso às obras graças à professora Mariagrazia, que é uma pessoa incrível. E também através da mídia, sobretudo a eletrônica, que deu boa cobertura aos lançamentos.

Um dos seus maiores desafios foi escrever o livro “O Vestido”, baseado em um poema de Carlos Drummond de Andrade (“Caso do Vestido”). Como surgiu essa idéia? Quais foram as dificuldades encontradas na escrita do livro?
A primeira dificuldade, a maior de todas, foi o “atrevimento” de pegar um poema de Carlos Drummond de Andrade, como Caso do vestido, e criar uma história a partir dele. Quando resolvi topar este desafio, a convite do cineasta Paulo Thiago, que foi o diretor do filme, O Vestido, sabia que não seria fácil. Trabalhei muito, escrevi e reescrevi diversas vezes o meu texto, até que vi que estava na dose certa. As respostas que tenho tido desde então, em relação ao romance, são as melhores: O vestido foi um dos finalistas do Prêmio Jabuti, foi lançado na Itália, entrou na lista do PNBE, é muito adotado em escolas, foi um dos escolhidos para o vestibular da PUC/MG e, sobretudo, caiu no gosto dos leitores. É um dos livros meus que mais me deram alegria, e a certeza de que os desafios, na vida, devem ser encarados. Não podemos fugir deles. Depois de O Vestido, literariamente, virei um outro escritor.

Esse mesmo livro foi adaptado para o cinema em 2007. Como foi essa experiência?
Antes de O Vestido, que foi lançado nos cinemas em 2004, tendo no elenco atores como Gabriela Duarte e Ana Beatriz Nogueira, Sombras de Julho, outro romance meu, com o qual ganhei a Quinta Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, em 1990, também já havia sido filmado, pelo diretor carioca Marco Altberg. Numa primeira experiência, como minissérie, para a TV Cultura de São Paulo, e depois — sem muitas alterações — para o cinema. Ambas as versões ficaram muito boas. Mas não dei palpite durante às filmagens, nem de Sombras de Julho, nem de O Vestido, pelo simples fato de achar que a visão do autor do livro é uma, e a do diretor é outra, completamente diferente. Não dá para misturar as coisas. Apenas li os roteiros, para agradecer a gentileza que eles tiveram em enviá-los para mim. Os resultados dos dois filmes, no entanto, me agradaram muito, e ajudam a divulgar demais o meu trabalho.

“A Mulher dos Sapatos Vermelhos” é seu quinto livro de crônicas. Por que esse foi o nome escolhido para o livro que contém quarenta e uma histórias sobre a vida cotidiana?
Antes de A mulher dos sapatos vermelhos, lancei quatro livros de crônicas: Entre BH e Texas, O pescador de latinhas, e A ostra e o bode, pela Editora Record, além de O chapéu do seu Aguiar, pela Editora Leitura. A crônica, no meu entender, é um olhar: sobre a vida, sobre as coisas que fazemos, ouvimos, falamos, imaginamos. Depois que me tornei cronista: desde 2002 publico uma história todas as semanas no Jornal Estado de Minas, onde também sou repórter, minha vida de certa forma mudou, pois me tornei uma pessoa mais sensível, mais observadora às coisas e às pessoas que me rodeiam. Tudo pode dar uma boa crônica. Quanto ao título, A mulher dos sapatos vermelhos, ele foi inspirado numa colega de trabalho, que um dia chegou na redação do Estado de Minas calçada com o lindo par de sapatos vermelhos. Como estava sem assunto para uma crônica, disse a ela: “Você acabou de me dar uma história”. Daí em diante foi só dar asas à imaginação.

Há alguma dica que você gostaria de dar para jovens escritores?
Não desanimar nunca. Escrever e reescrever um texto quantas vezes forem necessárias. Se uma editora recusar seu livro, numa primeira investida, procure outra, pois é assim mesmo.Também é necessário ler muito. E, como uma vez me disse Lygia Fagundes Telles em uma carta: “Descobrir a beleza da palavra, a magia da palavra. Pois gênio, é paciência”.

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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