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Crítica | Eu, Tonya versus o conto da mulher perfeita

Tonya Harding atuou como patinadora profissional de 1985 a 1994, quando o incidente com Nancy Kerrigan a levou a julgamento, encerrado sob pena de nunca mais poder participar de uma competição. O caso chamou a atenção de todo Estados Unidos e Eu, Tonya foi a oportunidade de contar o outro lado da história.

E ele não é bonito. De uma mãe que a levou ao limite desde os três anos em nome do sucesso a um marido que apostava em demonstrações de amor no mínimo deturpadas, Tonya se viu posta à prova em todos os aspectos da sua vida pública e particular, carregando o peso de uma rotina de abusos psicológicos e físicos pelos quais ninguém deveria passar.

Impaciente e estourada, era o tipo de profissional que exigia que tudo fosse do seu jeito. Como seu melhor nunca parecia suficiente, a cobrança sobre si mesma acaba em discursos defensivos que tendem a livrá-la da responsabilidade de qualquer defeito menor, conforme ela repete ao longo de todo filme: “isso deu errado, mas, bem, a culpa não é minha”.

E, talvez o mais importante para este texto, Tonya nunca serviu aos moldes. Além da postura exaustiva para os outros, ela não queria dançar o tipo de música que suas competidoras dançavam. Não queria vestir o mesmo tipo de roupa. Se lhe era exigido ter a família perfeita (como foi, porque ela representaria o país quando fosse às Olimpíadas), a sua era o total oposto.

Tonya foi boneca da mãe, que acreditava piamente que a filha lhe devia gratidão pelo sucesso que caminhava, e foi capaz de insinuar um sorriso – em uma brilhante atuação de Allison Janney – apenas em uma das apresentações. Tonya foi também peão na mão do namorado e, depois, marido Jeff Gillooly.

Enquanto sua maior preocupação era poder voltar para as Olimpíadas, com um treino todo direcionado para este objetivo, Jeff bolava um plano junto a Shawn Eckhardt, dito guarda costas, para abalar Nancy Kerrigan psicologicamente e aumentar as chances de Tonya ser escolhida para representar os Estados Unidos.

Disse ele, essa seria sua maior prova de amor. O plano deu tão errado que todos acabaram indo a julgamento. Enquanto Jeff foi condenado a dois anos de prisão, solto após oito meses, sem despertar mais o interesse da mídia; Tonya perdeu aquilo que a definiu como pessoa e profissional por toda a sua vida até então. Confira mais sobre o caso nesta matéria da BBC.

Eu, Tonya

Sem meias palavras e sem a postura de princesa que era esperada, Tonya perdeu espaço. Talento, dedicação e persistência não eram as palavras escolhidas para de alguma forma defini-la. Longe dos moldes da mulher perfeita, encerramos o filme com a certeza de que ela deu a volta por cima e reconstruiu sua vida da forma que podia.

Parece que a felicidade também chega para os que estão fora do padrão; infelizmente não sem muita luta e sem uma mídia feita para apontar todos os baixos.


Eu, Tonya estreou no Brasil dia 15 de fevereiro e as duas horas de filme renderam a indicação ao Oscar de Margot Robbie, como melhor atriz, e o prêmio de melhor atriz coadjuvante a Allison Janney.

One Comment

  • Simone Mires

    Acho que o roteiro de Steven Rogers, que até então tinha como maior atrativo no currículo a série Friday Night Lights, não tem medo de brincar com coisa séria. Quando leio que um filme será baseado em fatos reais, automaticamente chama a minha atenção, adoro ver como os adaptam para a tela grande. Tambem recomendo assistir Dunkirk, adorei este filme, é um dos melhores filmes baseadas em fatos reais 2017.A história é impactante, sempre falei que a realidade supera a ficção. É interessante ver um filme que está baseado em fatos reais, acho que são as melhores historias, porque não necessita da ficção para fazer uma boa produção.

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