Críticas,  Literatura

Resenha | Extraordinárias — Mulheres que revolucionaram o Brasil, de Duda Porto e Aryane Cararo

Pedimos um momento de sua atenção para falarmos sobre mulheres. Grandiosas, fortes, decididas, conhecidas, desconhecidas. Mulheres que não desistiram de seus objetivos, que fizeram parte de nossa história e, mesmo quando dentro de contextos históricos questionáveis, foram as que tomaram decisões que alteraram o rumo do Brasil.

Mulheres que nem sempre têm seus dias reconhecidos (ou você sabia que dia 6 de fevereiro é Dia de Dandara e da Consciência da Mulher Negra?), mas que existiram para não se conformar com as injustiças da época na qual viviam.

Permitam meu ar poético, mas de fato nós, mulheres, temos o costume de nos espelhar em grandes símbolos. Mulher Maravilha é um retrato de como queremos ser vistas — lutadoras, humanas, justas e nem um pouco frágeis; ignoramos a conexão da Arlequina com o Coringa e sua natureza instável para nos inspirar na imagem ousada e de quem faz o que quer sem se deixar moldar pela sociedade na qual vive.

Se estamos dispostas a sair da ficção e pousar na realidade, temos Joana D’arc e Frida Kahlo. E, às vezes, pensamos também nos textos de Clarice Lispector, nos identificando com os textos iniciados com três pontos, mas sem pensar muito sobre seu papel dentro de um contexto de escritores brasileiros.

Extraordinárias - Maria Firmina dos Reis

Extraordinárias chega para que possamos falar sobre quem conhecemos apenas de nome (às vezes nem isso), e possamos nos identificar com personagens reais da nossa cultura. Talvez você se espelhe em Bárbara de Alencar, uma das primeiras prisioneiras políticas no Brasil por lutar contra o domínio da Coroa portuguesa; ou talvez em Maria Quintéria, que se vestiu de homem para conseguir se alistar e lutar na Guerra da Independência.

Os dotes como enfermeira de Ana Néri, que entrou no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátrica; Maria Firmina dos Reis, na literatura e música; Chiquinha Gonzaga, cuja vida pode ser resumida em “um escândalo”, mas daqueles que nos dá orgulho de conhecer. Talvez você, como eu, inspire-se no humor da cartunista Nair de Teffé, que o manteve afiado até os 90 anos, e no feminismo pioneiro de Bertha Lutz, que se conecta ao movimento sufragista brasileiro:

Para ela, as mulheres não só precisavam ter direito ao voto e aos cargos políticos, mas também ao trabalho e à educação, para se livrar da dependência dos homens.

Dentre estes, tantos nomes sobre os quais temos tão pouca informação que é até impressionante perceber o quanto nossa história ainda se conecta aos deles: Pagu, Maria Lenk, Dorina Nowill, Cacilda Becker (que inclusive é personagem de poema de Carlos Drummond de Andrade), Zuzu Angel, Leila Diniz, Maria da Penha.

Com uma escrita leve e direta na medida certa, as jornalistas Duda Porto de Souza e Aryane Cararo contam com apoio de diversas ilustradoras (citadas abaixo) para contar sobre quem foram esses símbolos, sem deixar de lado seus desafios e fracassos, assim como narrando suas conquistas e parte de uma história que apagou a participação feminina tanto quanto pôde.

Extraordinárias - Bertha Lutz

Adriana Komura, Bárbara Malagoli, Bruna Assis Brasil, Joana Lira, Helena Cintra, Laura Athayde, Lole, Veridiana Scarpelli e Yara Kono são as responsáveis pelas ilustrações. A variedade de nomes é interessante pois permite uma diversidade no estilo de desenhos e representação que acrescenta ainda mais ao livro e nos deixa particularmente curiosos para conhecer mais sobre seus trabalhos.

Não tem como falar do livro em si sem citar a diagramação. Perfeito para adolescentes e adultos — há um glossário ao final que pode esclarecer dúvidas que venham a surgir sobre período histórico, por exemplo — o cuidado com as cores, posicionamento dos fatos e curiosidades e a óbvia preocupação de tornar a leitura estimulante dá pontos extras ao livro, que, por si só, já é extremamente completo.

Essa é, sem dúvida, a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre as nossas mulheres e nos inspirar nelas para seguir com uma luta que, sabemos, ainda tem muito o que caminhar.

Se quiser saber mais sobre feminismo, você pode conferir a resenha de A Mãe de Todas as Perguntas, livro também lançado pela Companhia das Letras.


NOTA — ★★★★★❤

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