Revista

Foi Darci

— E quanto isso vai custar, somando tudo?

— Dezoito mil seiscentos e noventa e dois, contando com os juros.

— Caramba! É muito.

— Mas esse parcelamento o senhor pode pagar, né?

— É, mas esses juros…

O “senhor” era um garoto de dezenove anos que com um ano de trabalho assalariado conseguira estourar o limite de crédito de modo que as parcelas ficassem maiores que seu pagamento mensal. O eficiente e parcimonioso Darci tinha vontade de lhe dizer que aceitasse as consequências, que não era responsável por amenizar os efeitos da imprudência de um pirralho imaturo. A impaciência lhe fez ferver o peito. Esteve a um segundo de despejar aquelas palavras na mesa, mas engoliu—as e disse respeitosamente:

— Posso reduzir o total, mas as parcelas vão ficar mais altas…

— Você é meu gerente, não é? Porque não dá pra reduzir esses juros?

“Porque não sou o presidente do banco, seu imbecil.”

— Porque essa é a política do banco, senhor, não posso fazer mais que isso. A não ser que o senhor, em vez de parcelar, retire um novo crédito.

O olhos do garoto brilharam.

No fim, saiu com um empréstimo de trinta mil, quitaria a dívida e compraria seu tão ansiado carro. Darci normalmente gastaria uns cinco minutos para lhe dizer “retire somente o que vai cobrir o total de suas parcelas, dez mil é o bastante”, mas eram quase seis horas da noite, sua esposa já ligara nove vezes e contavam uns trinta minutos que estava louco por um mictório.

Darci tinha um código de honestidade que o acompanhava durante seus sete anos de gerente: sempre daria prioridade ao bem estar dos clientes leigos que eram suscetíveis a más escolhas. Entretanto, naquele singular instante em que percebera que molharia as calças em um minuto, permitira que o garoto imprudente fizesse sua escolha ruim; e fora uma permissão curiosamente deliciosa.

Ponderava sobre esta sensação engraçada enquanto se aliviava. Quando foi lavar as mãos, viu no espelho um sorriso involuntário. Sentia pela primeira vez o prazer de quebrar as regras. Secou as mãos e jogou o papel na lixeira, mas o papel bateu na borda e caiu no chão. Chegara a se encurvar para apanhar o lixo, mas no mesmo ato decidira deixa—lo lá. Ainda sorrindo, saiu do banheiro.

Não exatamente quebrar regras, não era uma regra do banco impedir que clientes impulsivos se endividassem mais, era sobre atender àquela voz abafada dentro de si. Sobre fazer o que tinha vontade.

Voltando à sala de atendimento, por trás do balcão percebeu que haviam ainda três pessoas para atender, cada uma com uma hora de problemas no mínimo. Somente ele e mais um gerente atendiam até tarde naquele dia. No primeiro passo conformado que deu em direção à sua cadeira, sentiu o celular tocar no bolso. Era ela de novo.

— O que você quer, hein? — murmurou consigo pegando o aparelho no bolso, agora tinha tempo para atender. Aquele sorriso involuntário e sagaz surgiu—lhe pela metade. — Eu atendo depois que terminar com esses clientes. — quando voltou—se novamente para a sala, um quarto cliente saía do banheiro e se juntava aos outros a esperar. — Quer saber…

Meteu—se no vestiário do pessoal da limpeza do prédio, esgueirando—se por entre escaninhos amassados, cercado de vozes cansadas e cheiro de toalha molhada, e sumiu pela portinha no final. Atravessou um corredor escuro que era usado como depósito de vassouras e baldes e saiu direto no estacionamento.
E aquele sorriso sapeca no rosto acompanhado por uma excitação peralta no peito.

Quando alcançou seu tão amado sedã de vidros escuros, quis ver o céu dali. O estacionamento era um pátio cercado por outros cinco prédios que lhe voltavam suas traseiras feias e estriadas, chovia dos ares—condicionados. Tinha o aspecto do fundo de um poço imenso ou de um abismo de alvenaria cinzento e manchado. Lá na boca do poço, o céu quadrado escurecia em degradé.

— Já tá muito tarde.

Dirigiu com calma, sorrindo, com um dos braços na janela mesmo sabendo que era proibido. Não estava no momento de pensar se era prejudicial aquele surto de despreocupação, não estava preocupado em se preocupar agora. Sabia, contudo, que aquele velho e irrepreensível sentimento de disciplina apenas esperava para entrar em campo.

O celular tocou outra vez, sua esposa já somava onze ligações não atendidas.

— Desculpa, amor. To dirigindo.

Não dirigiu por muito tempo, pois adentrando a avenida, o trânsito aglutinou. Ficou parado por uns minutos, andou devagar por mais alguns, e quando o trânsito finalmente aliviou, o carro de Darci se tornou o primeiro do sinal vermelho.

Olhou alarmado para os lados, logo a avenida perpendicular despejaria seu fluxo de automóveis de todos os tamanhos e a faixa de pedestres ficaria tomada. Engatou a primeira e arrancou, deixando para trás o sinal vermelho, meia dúzia de sustos, alguns xingamentos e buzinas. Claro que nem ouviu, estava muito atento ao modo como seu coração se animara.

E aquele sorriso de renascido a rasgar—lhe a face rígida de gerente.

Perto de casa, decidiu parar para contemplar a noite. Estava quente e estrelada. Já se livrara da gravata havia tempo, coisa que antes só fazia com as portas do guarda—roupa abertas. A esposa ligara mais duas vezes e ele não atendera. Encostara no acostamento, abaixara o vidro e deixara o deslocamento de ar da rodovia acariciar seu rosto.

Ponderou, no meio de um relaxamento que beirou o sono, sobre a qualidade da própria vida. Fora sempre tão regrado, tão rígido consigo mesmo! Desde sempre abria mão da pelada com os amigos para estudar, abria mão de momentos com a namorada para revisar matérias da faculdade. E era tudo justificável, queria ser alguém. Tinha horror a se tornar um caixa de supermercado de meia idade. Gastara bons anos de sua juventude para alcançar uma boa vida, e para o que? Era um profissional respeitadíssimo, mas vivia? Chegava mesmo a dar o mínimo sopro de vida? Levantava exausto às manhãs, retornava exausto às noites, detestava a maior parte do dia, e se surpreendia agora que essa vida infeliz fora o que buscara! Por que exigiam tanto da gente nesses dias? Por que um bacharel nunca é suficiente? Gasta—se a vida toda em busca de vida boa para no fim não restar vida nenhuma!

— Sou um fracassado bem sucedido. — disse para a noite.

O telefone tocou. Talvez porque a reflexão acalmara seus ânimos, achou que já era hora de atender.

— Boa noite, amor…

— Darci, cadê você, porra! A Valentina tá dando crise direto e o remédio da bombinha tá acabando! To te ligando há duas horas e você não atende!

Sentiu o interior desmoronar.

— Tá bem, se acalma. Vou passar numa farmácia e eu só encosto o carro no estacionamento, você desce e a gente já vai pra UPA.

— Corre! — e desligou.

Enquanto dirigia correndo para casa, sentiu as faces corando. O peralta fora pego.

No dia seguinte, os colegas o olhavam de soslaio, não comentaram o resultado do jogo que perdera quando perguntou e, curiosamente, cada um deles lhe pediu para assumir uma tarefa extra por gentileza.

— Aí, quem foi o cara que deixou o João sozinho ontem com cinco clientes e foi pra casa? — chegou gritando uma funcionária que regressava de férias naquele dia.

— Foi Darci. — respondeu um, a despeito de sua presença.

— Darci? O robozinho? Sério mesmo?

Darci os ignorou, aquilo não o atingia. O que importava é que conseguira corrigir seu erro da noite anterior e sua filha passava bem. Voltou à rotina e os colegas esqueceram o deslize anterior. Entre um e outro cliente, repetia mentalmente discursos em que se justificava eloquentemente sobre o motivo da saída. Afinal, sua filha estava passando mal!

Mas ninguém perguntou. Em pouco tempo, deixou de lado tanto a preocupação com a reputação quanto a ideia de voltar a praticar a imprudência. Fora apenas um deslize, uma crise de gente estressada, não haveria uma recaída. De agora em diante, seria o homem correto que sempre fora e deixaria aquilo para trás.

Atendendo a um favor de um dos colegas, abriu seu e—mail pessoal e havia ali uma mensagem recebida naquela manhã. Fechou os olhos e deixou a cabeça cair na mesa. Tinha sido multado por avançar o sinal vermelho.

Vê a vida por um caleidoscópio de artes, podendo ser a literatura, a música, a fotografia e algo mais. Desde os nove anos de idade tentando abraçar o mundo.

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