Literatura e História

Genji Monogatari: o primeiro romance e os aspectos do período Heian

Se o clima é de romance, em pleno mês do “Dia dos Namorados” para os brasileiros, nada melhor do que descobrir mais sobre o primeiro romance que a humanidade tem conhecimento. Genji Monogatari, ou o O Conto de Genji, em tradução literal, é considerado o primeiro romance literário do mundo.

Foi escrito no Japão, durante o século XI, em um contexto muito positivo para o desenvolvimento cultural no país e demarcado pelo início da ascensão dos samurais.

A autoria da obra é atribuída a Murasaki Shikibu, uma mulher que integrava a corte da imperatriz. Entretanto, estudos históricos recentes indicam que a continuidade do texto recebeu a contribuição de outros escritores. Inicialmente, os escritores ficaram restritos à aristocracia japonesa, principalmente porque a leitura era uma atividade para poucos.

Com cinquenta e quatro capítulos, o livro não é uma ficção e baseia-se em eventos reais com evolução dos personagens ao longo do tempo, assim como em nossas vidas. A narração conta a história de Hikaru Genji, filho de um imperador japonês, que por fatores políticos não consegue suceder o pai e acaba se apaixonando por Fujitsubo, uma das mulheres do patriarca e muito parecida com a mãe de Genji, já falecida.

Sem o trono e sem o principal amor de sua vida, esses dois obstáculos o seguirão até a morte e estarão intimamente relacionados ao desenrolar de sua existência, principalmente pela incompletude no campo afetivo, que tentará ser preenchido com dezenas de casos amorosos.

Embora seja muito cultuado e tenha se tornado uma tradição na literatura oriental, a composição é bem complexa. Apresenta cerca de quatrocentos personagens e estes não recebem nomes. Isso porque nesse período, costumeiramente, não se fazia referência direta a uma pessoa pelo seu nome. No caso dos homens, os cargos e títulos os identificavam. Já as mulheres recebiam um designativo a partir de suas vestimentas.

A ambiguidade do vocabulário também se faz presente e dificulta a tradução e compreensão atuais principalmente devido aos caracteres estarem em kana, uma escrita utilizada pelas mulheres em detrimento ao kanji, utilizado para os homens. A presença de homófonos — palavras com significados diferentes, mas pronúncia igual — similarmente exige um nível de atenção à conjuntura trabalhada. Ainda assim, nem sempre é possível atingir um entendimento satisfatório.

Além disso, uma técnica narrativa apresentada ao longo da obra também intrinca o entendimento de alguns trechos. Esse procedimento consistia em utilizar partes de conhecidos poemas da época para que os leitores automaticamente os completassem em sua mente. Algo difícil de assimilar para os dias atuais.

Mesmo com as pequenas adversidades relatadas até aqui, ao se aprofundar nas emoções dos personagens, a obra entrelaça elementos psicológicos aos impulsos e motivações da vivência dos indivíduos, retratando de forma magistral o contexto da sociedade japonesa do período Heian.

À vista disso, todo o trabalho de Murasaki Shikibu e de outros coadjutores, nos garante uma grande oportunidade de mergulhar profundamente nos elementos mais obscuros das mentes e da sociedade japonesa, desvelando os véus de um cenário social repleto de certames entre imperadores e nobreza (embora seja demarcado como um tempo de paz) e de enfraquecimento econômico e exploração dos populares, sendo a beleza e a aparência elementos primordiais para aferição do valor e benignidade de um indivíduo.

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