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Crítica | Guillermo Del Toro explora (mais uma vez) o realismo fantástico, em A Forma da Água

Posso conceber os outros como uma abstração, como uma instância da configuração psíquica de todo indivíduo, como o Outro, outro ou outrem em relação a mim. Ou então como um grupo social concreto ao qual nós não pertencemos. Este grupo, por sua vez, pode estar contido numa sociedade: as mulheres para os homens, os ricos para os pobres, os loucos para os ‘normais’. Ou pode ser exterior a ela, uma outra sociedade que, dependendo do caso, será próxima ou longínqua (Todorov, 210: 3).

O trecho acima foi retirado de um dos livros mais conhecidos do crítico literário Tzvetan Todorov, A conquista da América. O contato com novas sociedades, outros homens, outras culturas foi um momento marcante na história mundial. Porém, o encontro com o outro continua. E o novo filme de Guillermo Del Toro traz justamente essa questão: o outro e como nós lidamos com quem é diferente.

Do mesmo diretor do maravilhoso Labirinto do Fauno, Hellboy, Mama e Colina Escarlate, A Forma da água se configura como mais um típico filme do Guillermo Del Toro, só que um pouco superestimado. Como todos os longas do diretor mexicano, o visual bizarro e obscuro no qual a fantasia e a realidade se contrapõem o tempo todo é mantido, assim como o contraste entre o romantismo e magia inerentes à parte fantástica da narrativa com o clima de violência, frieza e guerra presentes no que condiz ao realismo do enredo.

Contudo, o roteiro não é grande coisa. Não é ruim, mas também não chega no nível de um Labirinto do Fauno, por exemplo, por mais que o tente. Tinha potencial pra ser, mas infelizmente não chegou nem perto disso.

Aliás, existem semelhanças entre o filme de Del toro lançado em 2006 e o atual. Só que mesmo que ambos façam paralelo com mitologias estudadas na literatura, por meio da figura do fauno e do mito amazônico de Ipupiara — no qual o homem-peixe da Forma da água foi derivado — o fantástico presente no Labirinto do Fauno está na própria história em si, ou seja, na lenda da princesa do subterrâneo que reencarnou na protagonista Ofélia e em todas as provas que ela tem que passar para provar ser de fato a tal princesa.

Já em A Forma da água, o fantástico se mostra de forma mais sutil através do amor que surge entre Elisa Esposito (Sally Hawkins) e a criatura (Doug Jones) que vivia em cativeiro no laboratório no qual ela trabalhava como faxineira.

Por mais que tal criatura fosse enaltecida como um Deus pelos nativos da Amazônia, se tratava apenas de um animal peculiar e perigoso para os americanos. Ao contrário do fauno que era uma figura visível apenas à protagonista e que, portanto, poderia ser apenas fruto da imaginação da mesma.

Esse tipo de gênero é comum na literatura de língua espanhola. Se chama Realismo Fantástico ou Realismo Maravilhoso, quando existe uma mistura entre o real e o surreal e os personagens envolvidos tratam a magia como algo convencional, natural ao cotidiano deles.

Além da própria estética intercalar elementos mágicos com elementos do mundo real, como Del Toro é especialista em fazer em seus filmes. Logo após uma cena na qual mostra um ambiente hostil permeado por conflitos e brutalidade excessiva, vem uma cena recheada de fantasia e até romantismo, como no caso de A forma da água.

Esse estilo também ficou conhecido por passar mensagens contra os regimes ditatoriais que se encontravam instaurados nos países da América Latina e Europa. Como no caso de Labirinto do Fauno, que se passa em 1944, um pouco depois do término da guerra civil espanhola, mas durante a permanência do Franquismo. E em A forma da água, que não mostra um período ditatorial, mas em contrapartida, o enredo se desenvolve nos anos 1960 enquanto o Estados Unidos enfrentava a Rússia na Guerra Fria.

Como mostram épocas conturbadas socialmente e marcadas por grandes conflitos bélicos e políticos, é de se esperar que os filmes de Del toro costumem ser pesados para um público desacostumado a ver tais realidades. A forma da água é bem mais leve em comparação com o Labirinto do Fauno, mas também tem algumas cenas fortes de violência.

A cena que o sádico chefe de segurança Strickland (Michael Shannon) coloca Zelda (Octavia Spencer), amiga e companheira de trabalho de Elisa (Sally Hawkins), contra a parede, citando a história de Sansão e Dalila como forma de amedronta-la, lembra um pouco pela sanguinolência, uma famosa cena de Labirinto do Fauno, na qual o temido capitão Vidal costura a própria boca. Aliás, existem semelhanças entre os dois personagens, Strickland e Vidal, da mesma forma que existe entre Elisa e Ofélia.

A forma da água se passa no século passado, no início dos anos 1970 nos Estados Unidos. Como dito, o pano de fundo é a Guerra Fria, trazendo referência a fatos como a corrida ao espaço entre as duas grandes potências. Os EUA capturaram esse Deus da Amazônia e o levaram a um laboratório a fim de estudá-lo para descobrir o porquê dele ser considerado tão importante pelos nativos. Apesar da fisionomia corporal ser parecida com a humana, o organismo dessa criatura está mais próxima de um anfíbio. Consegue respirar por algum tempo fora d’água.

Imagine como o contato com um ser desconhecido capturado das águas da América do Sul, mais especificamente da Amazônia, impactou o homem americano ideal do século XX. A criatura era considerada um Deus pelos povos, considerados “incivilizados”. A existência dessa criatura ia contra a existência do Deus cristão e, portanto, toda uma forma de pensar sobre a vida e sobre a própria existência humana.

O estranhamento do ser humano para com esse ser nos fez lembrar de uma das obras de Kafka, A Metamorfose. A história de Kafka obviamente é diferente. Um caixeiro viajante que se vê um dia sem sua forma humana, adquirindo o corpo de um inseto, bicho que nós humanos não somos simpáticos. A criatura de Guillermo Del Toro é mais atrativa, causando compaixão por grupos minoritários e que sofrem preconceito socialmente. Mulheres, negros, imigrantes e homossexuais foram quem o ajudaram e como agradecimento, a criatura retribuiu da sua forma. Em A Metamorfose, a transformação do homem num ser considerado repulsivo pelos outros leva o fotógrafo a morte:

– Queridos pais — disse a irmã, dando à maneira de introdução um forte soco sobre a mesa -, isto não pode continuar assim. Se vocês não compreendem, eu percebo isso. Diante deste monstro, não quero nem pronunciar o nome do meu irmão; e portanto apenas direi isto: é forçoso tentar livrar-nos dele. Fizemos o que era humanamente possível para cuidar dele e tolerá-lo e não creio que ninguém possa fazer-nos a menor censura. (Kafka, 2014: 54)

O destino da criatura de Guillermo Del Toro a princípio também é a morte, mas a ajuda que recebe de Elisa e seus amigos, além do cientista russo infiltrado, faz com que ele seja salvo. Em A forma da água, há esperança para o “desconhecido” e o “estranho”. É uma alegoria clara do que a humanidade faz com aqueles que não são considerados filhos de Deus. A História é repleta de casos como esses, assim como o presente contexto que vivemos.

Mas agora precisamos falar justamente sobre ela, a protagonista e a melhor personagem do filme; a zeladora muda de um laboratório experimental secreto do governo ou “princesa sem voz” como a chama o narrador no início do longa, a Elisa Esposito (Sally Hawkins).

Órfã, foi encontrada quando bebê dentro de um rio, abandonada, com marcas de ferida no pescoço. Ao crescer, segue uma rotina fixa diária sem grandes emoções. Suas únicas companhias são seu vizinho artista Giles (Richard Jenkins) e, sua carismática e sempre bem-humorada colega de turno, Zelda (Octavia Spencer).

Até que surge algo inesperado em sua vida monótona; um amor inconvencional, porém não improvável (explicaremos o porquê) entre ela e a criatura mantida em cativeiro no laboratório em que trabalha.

Ambos foram retirados do rio, apresentam marcas no corpo de maus tratos, não são capazes de emitir nenhum som sequer — a não ser grunhidos — se comunicam através de sinais e sabem bem o que é ser violentado e rejeitado. Mas mais do que tudo isso; são um retrato da solidão.

Ela sente que ele é o único que não irá julgá-la, pois se sente compreendida por ele. Ao contrário de um ser humano, ele não vê o quanto ela é diferente por ser muda. Ele a vê como igual. E isso é o mais lindo no filme.

A forma como nasce a relação entre eles, do primeiro contato e começo do encantamento de ambas as partes, até o desfecho da história dos dois, é tudo feito de forma bem sensível, mesmo que previsível. É uma história de amor bizarra? Exótica? Esquisita aos olhos do que nos é imposto como tradicional? Com certeza sim. Mas se não fosse, não seria um filme de Del Toro. É justamente sua peculiaridade que a torna tão especial.

Apesar de tanta dificuldade de nos conectarmos com o outro, A forma da água constrói uma narrativa em que a empatia é o meio pelo qual conseguimos destruir as barreiras que nos separam. Afinal, somos todos seres vivos, seres humanos. As diferenças deveriam servir apenas para construirmos uma identidade individual e não para provocar guerras entre sociedades e grupos.

“Quando ele olha pra mim, o modo como ele olha pra mim, ele não vê o que falta em mim ou o quanto sou incompleta. Ele vê o que sou e como sou.” (Elisa falando sobre o “Deus” amazônico.)

Crítica feita por Fabiana Zau e Laís Marcoje

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