Literatura

Resenha | Homens Imprudentemente Poéticos, de Valter Hugo Mãe

Acho que a parte mais difícil em escrever sobre algum livro do escritor português Valter Hugo Mãe é justamente perceber a quão limitada é a minha escrita. Valter Hugo Mãe consegue transformar assuntos tristes em frases belas, beirando a poesia. Arrisco que pode chegar à poesia de tão belo uso das palavras ele faz. Não é sem merecimento que o autor é considerado um dos maiores escritores portugueses da contemporaneidade.

Lendo “Homens imprudentemente poéticos”, o leitor, que no caso desta humilde resenha foi eu, se encanta em cada capítulo, em cada pequeno detalhe principalmente sobre a menina cega Matsu, que significa pinheiro em japonês.

Devido sua condição, seus familiares viam-na como um fardo na vida, alguém limitada a conhecer a vida sem poder vê-la. Em muitos momentos, seu irmão e artesão Itaro compreende que Matsu vive em uma prisão dentro dela mesma, incapaz de conhecer o mundo por meio de todos os sentidos.

Valter Hugo Mãe passou um tempo no Japão para escrever essa obra e percebemos o quanto ele incorpora os seus conhecimentos sobre tal povo ao escolher o nome da menina cega. Além de Matsu significar pinheiro, como destacado, essa árvore é o símbolo da longevidade, o que para os japoneses significa sabedoria. Matsu é a metáfora da sabedoria na obra. Ignorada por seus familiares, ela era quem mais tinha sensibilidade de compreender cada sentido da vida. Sua limitação na verdade era seu grande potencial.

Em meio à questão de Matsu, vemos seu irmão Itaro ter como inimigo o oleiro Saburo, que vive um período de luto após o falecimento de sua esposa. Saburo buscava representar a presença da sua esposa por meio do kimono dela, pois não conseguir lidar com a ausência dela.

No Japão, como o próprio autor ressalta, a morte não é compreendida da mesma forma como nós no Ocidente. A morte é se entregar à natureza, único caminho possível para a vida do homem. Podemos dizer que há mais de um tipo de morte trabalhado na obra: a morte dos suicidas, a morte física e talvez a morte do espírito de Itaro.

Ao longo da história Itaro, tem seu emocional cada vez mais levado ao escuro a ponto de literalmente passar sete luas e sete sois dentro de um poço fundo, sem luz alguma. Nesse momento, Itaro tem que lidar com seus medos, com a morte e com a culpa pelo que fez com a irmã.

Itaro entregara a irmã a um comerciante para viver com ele e assim carregar menos fardo em sua casa. Na imersão da escuridão, Itaro compreende o que era valioso dentro de Matsu, a mais sábia, a que mais via e sentia a vida.

Muitas coisas podem ser discutidas em torno de tão belo livro. É uma obra que precisa ser relida e relida e apreciada. Valter Hugo Mãe nasceu em 1971 e é sem sombra de dúvida um autor incrível, com uma escrita encantadora. Termino esta breve resenha com o seguinte trecho:

Itaro pensou que a escuridão só se equivalia de verdade sem obstáculos. Como se fosse um céu infinito por onde os pássaros poderiam desimpedidamente voar.
(MÃE, 2016: 129)

Historiadora, feminista e dog lover que está aprendendo a se amar e aceitar quem é.

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