Revista

Horário de visita

Pior que esperar, apenas estar cercado de conversas alegres e emocionadas enquanto era obrigado a se contentar com o próprio silêncio. Sentava-se numa cadeira branca de plástico, as pernas relaxadas para fora, as mãos descansadas entre elas, a grande barriga escorrendo por sobre o elástico da calça sem cadarço. Parecia um balão murcho em fim de festa.

Olhos, contudo, ocupavam-se da tensão em lugar do corpo inteiro. Saltavam da portinha para o relógio de ponteiros acima dela e de volta para a portinha. Mantinham-se atentos e fiéis, a despeito dos ouvidos traidores que continuavam a captar os sons das conversas em redor. Já contavam dois minutos. Dois minutos e dezessete longuíssimos segundos desde que o fluxo de pessoas pela portinha cessara. E ela ainda não aparecera.

Por tamanha atenção e vigilância, os olhos lhe permitiram absorver e experimentar cada instante de sua aparição. Primeiro um ombro nu surgiu, alinhado com um busto coberto por um vestido branco pontilhado de pequenas rosas vermelhas, ao mesmo tempo em que a panturrilha punha para frente um formoso pé calçado de sandálias de dedo. Percebeu que eram novas, não sem algum desgosto. Em seguida, o corpo inteiro preencheu e atravessou a portinha. Martim, sem sair da cadeira, se inflou e deleitou-se da visão, aquela harmonia de formas e curvas que lhe agradava desde que tinha vinte e três, e o belo rosto emoldurado por cascatas de cachos castanhos claros. A cor também era nova, percebeu com o mesmo desconforto.

Ela entrou, vasculhou o ambiente, localizou e seguiu prontamente até ele. Parou e o encarou de cima, com seriedade por trás de amplos óculos escuros.

– Vanessa! – disse ele exclamando toda a satisfação que tinha por sua presença, por sua inteira existência.

– Oi, Martim. – mas ela falou de modo cordial e olhou em volta – Tem problema se eu quiser pegar uma cadeira?

– Ah, não, claro, deixa eu…

– Eu faço isso. – e antes que ele conseguisse se pôr de pé, ela já tinha se afastado em direção às pilhas de cadeiras brancas.

Enquanto percebia que mesmo aqueles segundos longe dela lhe eram dolorosos, notou que seus gestos resolutos e confiantes traziam novidade mais desagradável que os chinelos novos e a tintura do cabelo.

Com a mesma atitude firme com que chegara ali, posicionou a cadeira diante dele e se sentou. Apesar das tantas novidades que aqueles dois meses de separação tinham gerado, o modo como ela arrumou o vestido quando se sentou e jogou os cabelos para trás era similar ao primeiro encontro; era a mesma Vanessa que conhecia, afinal.

Os dois se encararam por um segundo pesado, ele tentando perscrutar por trás de seus óculos, ela se enrijecendo para manter o rosto impassível.

– E aí, Martim, como você tá?

Ele observou como ela, aos trinta e dois, se mantinha perfeitamente linda, a mesma beleza que tinha aos vinte e um, a mesma beleza que o transformara num escravo de sua presença; tinha se esquecido do quão agudo era o contraste com sua feiura.

– Eu to bem, na medida do possível. – e riu, mas ela permaneceu séria. – Como estão as crianças?

– Estão indo bem na escola, mesmo que eu não explique matemática pro Enzo tão bem quanto você. – isso o fez sorrir com prazer por lembrar dos filhos – Eles têm saudade de você, mas nada que não possa ser resolvido com uma ida a Caxias, eles adoram meus pais.

– E sua mãe, Vanessa? Operou?

– Operou, sim, graças a Deus agora tá tudo bem.

– Imagino como deve ter sido difícil pra você, tudo acontecendo ao mesmo tempo.

– É, mas to aprendendo a me virar, já consegui desentupir a pia sem chamar ninguém.

– Ah, bom…

Martim, porém, não achava isso bom. Era imensa a satisfação que tinha de aquela mulher linda precisar dele. E agora que estava afastado, ela se adaptaria à sua ausência. Mais terrível que ver que esses dois meses a faziam mudar, era imaginar o quanto dela ele já perdera. Tentava evitar imagina-la trocando lâmpadas sozinha, carregando sozinha as compras do mês. Será que já teria aprendido a fazer o carro pegar? Será que já conseguia sozinha fazer as crianças pararem de gritar? Já teria encontrado outro homem?

– Estão te tratando bem? Você emagreceu. Pelo menos uns sete quilos.

– Ah, é? – ele falou, dando uns tapas na barriga. – Queria que isso fizesse meu cabelo voltar a crescer. – riu, mas ela apenas o observou com aquela seriedade desagradável. – Bem, o trabalho deles é tratar a gente mal, não é?

– De repente você ficou compreensivo? É, acho que eles fazem um bom trabalho.

Ele não soube como responder àquilo. Aquele silêncio se abateu novamente. Havia algo entre os dois que os repelia como dois pólos iguais de um ímã, uma energia contrária que era quase impossível de subjugar. Sabia que ela também sentia isso, mas se estava ali, era porque queria vê-lo, não?

– É, menos os caras da cozinha, por isso emagreci. A comida aqui é horrível, pior que de quartel.

Ela finalmente riu, apesar de seus esforços, riu deliciosamente, e o magnetismo reverso enfraqueceu um pouco.

– Vanessa! – ele falou em tom quase encantado.

– Que foi?

– Seu sorriso está lindo!

– Ah… – e o sorriso desapareceu. – Foi teu pai que pagou, sabia?

– Ah, foi? – ele corou.

– É, acho que foi um jeito dele de pedir desculpas, sei lá.

– Legal, da parte dele… – nem conseguiu fingir um sorriso para amparar suas palavras.

Nesse momento, a energia que os afastava ressurgiu com mais força, de modo que pela primeira vez ele desejou que o tempo acabasse e ela fosse logo embora. Acovardou-se e olhou para o chão de concreto entre seus pés.

– Eu já pedi desculpa, não valeu?

Ela contraiu o rosto desgostosamente e revelou uma covinha na bochecha.

– Não.

– Como assim não? – e olhou para ela, tentando atravessar as lentes escuras.

Ela então os tirou.
– Todo mundo pede desculpa quando tá sendo algemado.

Uma mancha esverdeada rodeava o olho esquerdo de Vanessa. Os olhos de Martim, antes fiéis e subservientes, despencaram para as mãos entre as coxas. Não queria encarar aquelas mãos. Percebeu que os polegares se pressionavam inconscientemente um contra o outro com violência e os fez parar.

Sentiu a velha angústia fazendo um nó em sua garganta e quando falou, ainda observando aquelas mãos que começava a odiar, as palavras saíram num murmúrio.

– Me perdoa, Vanessa.

Ela suspirou, impacientada, como se diante de uma atitude recorrente e incômoda dele.

– Eu já te perdoei tantas vezes e por tanta coisa, Martim. Por que não perdoaria mais essa vez?

Ele, com notável esforço, ergueu para ela os olhos. Algo crescia dentro dele, algo que ele desejava mas lutava contra. Cresceu tanto e tão rápido que ele não conseguiu conter.

– Você me ama?

Ela com alguma pressa recolocou os óculos escuros, mas não a ponto de ocultar os olhos marejando, e ficou desviando o rosto para os lados.

– Sim, Martim, claro que eu te amo.

Ele sorriu como uma criança ingênua, mas não percebeu como era penoso para Vanessa dizer aquilo. Percebeu apenas o silêncio em que ela mergulhou.

– Você não vai perguntar se eu te amo?

Ela parou de olhar para os lados e o encarou, a rigidez da face começando a se quebrar, os lábios lutando contra uma expressão de sofrimento.

– Vanessa, você não quer saber se te amo? – mas ela lutou bravamente e ele se deu por vencido. – Eu acho muito bom, muito bom mesmo, que você me ame depois de tudo o que eu…

– Deus não nos ama? Somos pecadores e Deus nos ama mesmo assim, mas não deixa de detestar nossos pecados.

Em resposta, respirou fundo e fechou os punhos. Odiava quando ela falava de Deus.

– Sei. Isso explica como eu te amo tanto mesmo você me colocando nesse lugar de merda!

Vanessa se empertigou na cadeira, incrédula. Chegou a afastar os lábios para responder, para se defender, afinal não tinha sido ela a chamar a polícia. Aprendia aos poucos, sua mãe lhe ajudava a cada dia a superar aquela situação. Aprendia a viver sem Martim, aprendia a não depender dele e a ter orgulho de quem era.

– Você não tem jeito mesmo. – falou e se levantou da cadeira.

Com a mesma resolução com que viera até ali, caminhou em direção à portinha, deixando para trás os clamores de Martim, antes que terminasse o horário de visita.

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