Literatura

Resenha | Ikigai, de Héctor García e Francesc Miralles

Ikigai significa, em poucas palavras, “razão de ser”. Desmembrando a escrita japonesa, parte da palavra significa “vida” e, outra, “valer a pena”. E são esses dois conceitos que Héctor García e Francesc Miralles exploram para contar os segredos japoneses para uma vida longa e feliz.

Parece um pouco como uma utopia, né? Viver uma vida longa e feliz soa como um sonho inatingível, porque estamos ocupados demais passando nossos dias lidando com problemas e tendo que ser resilientes para dar a volta por cima e sair inteiro. Todo mundo tem problemas, e a verdade é que alguns de nós não sabemos lidar bem com eles.

Desenvolvido por dois autores (Miralles é autor de Queria Que Você Estivesse Aqui, que li quando ainda estava descobrindo os gêneros que eu gostava e que até hoje não consigo tirar da estante), Ikigai aborda, mas não foca, na parte científica da longevidade.

Em outras palavras, este livro não traz uma escrita pouco acessível, com termos técnicos ou estudos mirabolantes. A linguagem é, portanto, muito acessível e a leitura, leve. Intrigados pelo assunto, os dois autores foram até Okinawa, no Japão, para entender o que faz desta região uma das cinco zonas azuis (com muitos casos de longevidade).

“No Ocidente, costumamos aceitar que o que vivemos influi na forma como nos sentimos e, consequentemente, em nossas ações. A terapia Morita, por sua vez, concentra-se em ensinar os pacientes a aceitar seus sentimentos sem tentar controlá-los, já que eles mudarão por meio das ações.”

Exercícios constantes, alimentação saudável e senso de comunidade e pertencimento são os três pontos-chave para uma vida longa e satisfatória. Talvez você, como eu, não tenha ficado muito surpreso com os dois primeiros. Talvez você, como eu, já tenha ouvido falar da tríade do bem-estar: dormir cedo (e dormir cedo), comer bem e praticar exercícios.

E é basicamente isso. Só que, para eles, exercícios constantes não é o mesmo que levar seu corpo ao limite em exercícios de rápida execução feitos no crossfit duas vezes por semana. É praticar jardinagem, yoga ou tai chi chuan.

Assim como comer bem não é ir à um restaurante gourmet vegetariano, é só escolher sempre o que for mais natural possível. Não há um julgamento do que é feito aqui diferente do que é feito lá; García e Miralles partem do princípio de que são, de fato, duas culturas diferentes; e falam de forma bem tranquila do que encontraram no tempo que passaram em Okinawa.

E, exatamente por essa diferença, também encontramos formas de pensamento diferentes. Crenças diferentes. Estruturas de pensamento diferentes. Por exemplo, na terapia cognitiva-comportamental, pensamos que a forma como pensamos influi diretamente na forma como nos sentimos que dita as nossas ações.

“A terapia de Morita não tenta eliminar os sintomas de forma direta, mas nos ensina a aceitar com naturalidade os desejos, ansiedades, medos e preocupações. […] “Em tempos de sentimentos, é melhor ser rico e generoso”, no sentido de aceitá-los e deixá-los partir” [se negativos].

Para eles, no que chamam de terapia Morita, entende-se que pensamentos existem e precisamos deixá-los partir em vez de nos culparmos por eles e nos forçarmos a mudá-lo. Isso porque o que conta mesmo são nossas ações e, então, é a partir delas que mudamos nossa forma de pensar.

Independentemente do que você prefira levar para a sua vida (e que pode até mesmo ser uma mistura dessas duas formas de trabalhar), o importante é, segundo os moradores mais velhos, não perder a vontade, não parar de trabalhar*, não deixar de se divertir e seguir os três pontos que já discutimos acima.

É importante parar um pouco para pensar nesse “não parar de trabalhar”. Segundo García e Miralles, isso se dá porque, para eles, esse nosso conceito de aposentadoria não existe. Achar seu Ikigai significa achar sua motivação, o “porque você veio à vida”.

Ikigai

E, quando se trabalha sem a nossa pressão para ganhar dinheiro, conseguir sustento e todas essas preocupações que tomam todos os nossos dias, bem, sobra fazer aquilo que se gosta, pelo qual vivemos e acreditamos. É um misto de missão, paixão, vocação e profissão que, você deve ter percebido, não é fácil de encontrar.

Explorar essa diversidade de assuntos faz do livro ótimo para quem está precisando de paz e conforto. Para pessoas que, como eu, estão cansadas de ciclos infinitos de pensamentos negativos, ciclos dos quais é extremamente difícil sair.

Apesar de superficial, como se propõe a ser, Ikigai – Os segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz tem tudo para ser o ponto de partida para um novo entendimento da nossa realidade, do que nos faz mais forte, e do que nos enfraquece.


NOTA ★★★

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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