Música

Liability coloca o amor próprio em pauta e é mais que uma discussão sobre relacionamentos rasos

Em tempos de superficialidade, é difícil segurar com força a bandeira de ser quem é sem reservas. Batemos de frente com padrões que vão muito além de ser magros e bonitos, com o cabelo perfeito, a pouca maquiagem que tira qualquer ruga, o corpo esculpido.

Rimos de piadas sobre Rivotril, falamos sobre o quanto estamos na bad e, de algum jeito, conseguimos fazer tanto depressão quanto ansiedade soar poético. Mas e se tirarmos os contornos, os enfeites, as palavras bonitas, o que nos resta?

Baby really hurt me
Crying in the taxi
He don’t wanna know me
Says he made the big mistake
Of dancing in my storm
Says it was poison

Nem sempre conseguimos explicar o quanto é difícil dançar nas nossas próprias tempestades. Não somos suaves — poucas pessoas verdadeiramente são. Temos dias melhores do que outros e não precisamos ser diagnosticados com alguma doença para reconhecermos que a vida, às vezes, simplesmente não flui.

Mais do que uma letra sobre um relacionamento que chega ao fim, Liability é sobre aceitar que vivência é ir além das coisas boas e bonitas. É mais do que um abraço apertado, um beijo bem dado e os momentos que nos pegamos gargalhando por motivos bobos. E quem quer ficar para ver a cena completa?

So I guess I’ll go home
Into the arms of the girl that I love
The only love I haven’t screwed up
She’s so hard to please
But she’s a forest fire
I do my best to meet her demands
Play it romance, we slow dance
In the living room, but all that a stranger would see
Is one girl swaying alone
Stroking her cheek

Falamos de amor próprio mesmo quando não necessariamente conseguimos colocá-lo em prática. É difícil se permitir aceitar que, às vezes, tudo que queremos é companhia. E quantas dessas vezes nos pegamos numa situação na qual só podemos contar conosco? Acreditando que nossos abraços são os mais calorosos, o que mais nos entendem e também o que mais nos confortam?

Somos nossos melhores amigos e também os piores inimigos. Conseguimos nos levar às alturas e ao fundo do poço de um jeito que não damos poder aos outros. Ou damos, ao acreditar que o que dizem pode ter um fundo de verdade.

They say: You’re a little much for me
You’re a liability
You’re a little much for me
So they pull back, make other plans
I understand, I’m a liability
Get you wild, make you leave
I’m a little much for
E-a-na-na-na, everyone

Quando ouvimos a mesma coisa repetidas vezes, é natural que comecemos a questionar se, talvez, não estão um pouquinho certos sobre nós. Colocamos um peso na nossa própria existência que, às vezes, nos faz querer fugir — dos outros ou de nós mesmos? Os dois?

Podemos melhorar? Podemos. Precisamos? Nem sempre. Caímos no erro de tentar ser perfeitos; não um conceito de perfeição que nos torna capazes de aceitar o que temos de melhor e pior (não dizia Clarice Lispector que não sabemos qual defeito nos sustenta?), mas um que não nos permite ser inteiros, apenas metades — aquelas que acreditamos que os outros querem ver.

Esquecemos que perfeição é estar com o assunto encerrado. Perfeição é um tipo de morte.

The truth is I am a toy
That people enjoy
’Til all of the tricks don’t work anymore
And then they are bored of me
I know that it’s exciting
Running through the night, but
Every perfect summer’s
Eating me alive until you’re gone
Better on my own

Então, reunimos forças e voltamos a nós mesmos, às nossas opiniões e tentamos lidar com o que temos em mãos. Aceitar-se é processo — longo e difícil — , mas também necessário quando entendemos que o poder não pode estar no outro, seja esse “outro” quem for.

E isso também não precisa nos fazer sozinhos. É assim que prefiro interpretar o final de Liability: um sopro de esperança que, em algum momento, alguém será capaz de nos ver por inteiro e gostar de nós como somos da mesma forma que precisamos aprender a aceitar e gostar da pessoa que encaramos no espelho.

Um amor sem jogos. Sem eu-me-entrego-apenas-quando-você-se-entregar. Um relacionamento honesto, que não é idealizado e é, sim, uma escolha.

They’re gonna watch me disappear into the sun
You’re all gonna watch me disappear into the sun


Este texto não teria sido escrito sem a ajuda de Tatiana Nais e Isabella Lupatini — obrigada por aceitarem discutir exaustivamente a música ❤

Confira a tradução da música através deste link.

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