Literatura e História

Literatura Ficcional e a Posição Política

Quando falamos em literatura ficcional e política, estamos falando necessariamente do quê? Sem dúvida, um tema vasto, onde diversos pontos poderiam ser abordados e aprofundados, dependendo da intencionalidade de quem escreve.

Mais do que simplesmente citar um evento político ocorrido durante o período em que a história é narrada ou criar personagens com determinada posição política, o ponto mais interessante, a meu ver, seria a posição política do escritor, como ela aparece ao longo de suas obras e o quanto isso pode contribuir para nossa formação e opinião política.

Ainda assim, é um assunto que renderia teses e mais teses. Embora exista a impossibilidade de me estender neste espaço, gostaria de lançar algumas fagulhas a esse respeito.

No entanto, não gostaria de questionar se defender uma posição política através de obras ficcionais é certo ou errado, muito menos julgar a posição política de algum autor, mas sim entender, embora exija muito mais do que este simples texto, o que leva um escritor a defender arduamente uma idéia em seus livros, seja denunciando, criticando ou elogiando, ainda que muitas vezes de forma panfletária. Seria a questão do engajamento político? A ação e compromisso do intelectual?

Parece simples responder e muitos responderiam que é natural que as pessoas defendam suas idéias políticas com a sua ferramenta mais valiosa, assim como outros profissionais as defendam no seu ambiente de trabalho ou lazer, em conversas de bar ou redes sociais, por exemplo.

Mas, é muito mais que isso, principalmente quando analisamos que as obras ficcionais dão certa vazão e liberdade aos seus escritos, ainda que exija um certo ajustamento com a realidade vivida para que nos sirva de fonte para nossa formação de opinião, posição política ou estudos.

Um importante exemplo são os poemas e textos do realismo socialista, entre as décadas de 1930 e 1960, onde as obras corroboravam com uma imagem do comunismo como algo ideal, muitas vezes de forma exagerada e até maquiada para “pintar” o comunismo como o melhor meio de atingir um mundo melhor, sem nos esquecer da exaltação das lutas revolucionárias em detrimento dos chamados “reacionários”.

Era uma forma de retratar a realidade e expressão política, embora de forma hiperbólica. O ponto-chave a se pensar seria o contexto envolvido, levando a toda essa exaltação. Além dos questionamentos colocados acima neste parágrafo.

Assim como em qualquer outro meio que se possa analisar, há escritores diversos, com pensamentos diferentes, inclusive do que seria politicamente correto ou não, principalmente no que tange o uso de seu destaque e prestigio na sociedade para influenciar outras opiniões. Essa diversidade enriquece o campo literário, político, e pode se tornar mais um caminho para desenvolver opiniões dos leitores, ainda que estejamos falando de obras ficcionais.

O tema “denúncias” também é muito trabalhado em livros de escritores com um maior engajamento político, como é o caso do peruano Mario Vargas Llosa (que também se candidatou a presidente do Peru em 1990) ao longo de sua carreira, salientando a grandiosa obra “Conversa na Catedral” onde, embora não seja uma obra simplesmente de denúncia, ao narrar as histórias, o cotidiano da população, estudantes e pessoas ligadas a eles, além de personagens com cargos políticos, denuncia e recria a opressão, corrupção e hipocrisia que imperam durante a ditadura de Ódria nos ambientes estudantis no Peru.

O assunto “dá muito pano pra manga”, as questões lançadas aqui não podem ser completamente respondidas com poucas palavras, mas é importante pensarmos no assunto, como leitores ou autores. Precisam ser estudadas e discutidas exaustivamente, mas este pequeno texto nos ajuda a refletir sobre essa relação entre literatura de ficção e política, principalmente aos jovens escritores e se estes desejam seguir o mesmo caminho ou não.

Todavia, uma coisa é certa a respeito da ficção, como o próprio Vargas Llosa escreveu no prólogo do livro citado acima, na reedição de 1998, “o clima de cinismo, apatia, resignação e podridão moral no Peru naqueles tempos foi a matéria-prima deste romance livro, que recria com as liberdades que são privilégio da ficção, a história política e social daqueles anos sombrios”.

28 anos, professor universitário e historiador. Apaixonado por futebol, comida, viajar e rock 'and' roll.

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