Literatura e História

Literatura: leia qualquer coisa, mas leia

Há duas semanas, terminamos nosso texto comentando sobre estarmos em uma sociedade como a nossa, em que cada vez menos crianças e adultos se interessam por leitura ou livros, seja qual for o tipo de literatura.

E então, levantamos algumas indagações como até que ponto um livro fácil sobre um romance adolescente, sagas efêmeras ou new adults podem ser desprezados? Na verdade não podem. Não podem por uma série de circunstância e fatores em que estamos imersos e que atualmente são indissociáveis para se debater o “empobrecimento da literatura“.

O mercado consumidor está aí, as barreiras foram quebradas com a “nova ordem mundial” e não há fronteiras — físicas ou virtuais –, nem mesmo em países com regimes ditatoriais, que não se consiga penetrar. O processo de adaptação das editoras e, consequentemente, de livros e escritores aos negócios não tem mais volta.

Ainda que uma parcela pequena de brasileiros realmente se dedique à leitura constante dos mais diversos gêneros, há clientes ávidos e dispostos a pagar.

Por mais que se possa criticar livros que não instiguem seus leitores a pensar as mazelas de sua realidade social e agir, é comprovado que a leitura, desde gibis até enciclopédias é essencial para a formação de pessoas pensantes e questionadoras.

Ainda que isso efetivamente não resulte em uma ação direta nos problemas de suas comunidades, porque mesmo que se questione, passar do pensamento à ação é uma escolha e ela nem sempre acontece.

Além disso, há uma série de benefícios comprovados cientificamente como o enriquecimento de linguagem, raciocínio e até estímulo à áreas menos ativas do cérebro quando a ato de ler se volta para textos que exijam mais concentração e esforço de compreensão.

Voltando aos nossos questionamentos: antes ler determinados livros que, por menos políticos que sejam, ainda contribuem de certa forma para construir mentes questionadoras, criativas e perspicazes?

E, ainda, que mentes são essas que estamos ou podemos construir com uma literatura que talvez não tenha o compromisso de questionar os problemas sociais de nosso tempo?

O primeiro problema, e atinge a todos, é que a velocidade da internet em nossas vidas nos entrega uma quantidade esmagadora de informações de forma muita rápida e muitas vezes, sem a pausa necessária para a reflexão, fica extremamente difícil alimentar nossos questionamentos e novos pensamentos a respeito de algum assunto.

Mas essa rapidez não está apenas no ambiente virtual, o próprio mercado editorial — com o perdão da palavra — vomita constantemente livros e mais livros, sem contar na exigência sobre os escritores de publicar em grande quantidade e no menor tempo possível para aproveitar as “ondas mercadológicas da literatura”.

Por isso quando dizemos que Gonzalo Contreras não é um escritor profissional, está implícito que ele faz livros quando acredita ser necessário fazê-los e não porque um contrato o obriga a entregar os debuxos de suas futuras obras de seis em seis meses.

A falta de tempo para reflexão é um grande problema na literatura contemporânea (quando falamos sobre reflexão, queremos dizer, a opinião do escritor sobre determinado assunto e qual a nossa posição em relação a isso), embora a literatura acadêmica pareça não sofrer desse mal e não incluo aqui romances que possam ser analisados por estudiosos, até porque, qual não pode ser estudado?

O fato é que restringir nossas leituras a textos mais fáceis e que aparentemente não exigem muito esforço de compreensão nos impede de ter acesso a uma ampla gama de nuances que só podem ser alcançadas com livros mais complexos.

Seja pelas técnicas utilizadas pelo literato, pela trama e sua conexão com a política e os problemas sociais, ou pela “pesquisa” que precisamos desenvolver para entender determinadas temáticas dentro da trama ou personagens — reais ou fictícios — que necessitamos conhecer para alcançar uma compreensão maior de um enredo, por exemplo.

A literatura light, sagas efêmeras ou new adults tem seu valor, mas estabelecem um objetivo diferente e uma construção diferente de leitor que livros mais “políticos”. E isso não é segredo para ninguém.

Jamais será negado o direito de entretenimento dos mais diversos gêneros literários e quaisquer outras ponderações e sentimentos que deles advenham.

Mas cabe ao leitor entender é que preciso mergulhar e não permanecer na superfície, dando um sentido maior aos livros do que apenas diversão, entendendo assim que para pensar os grandes debates sociais e políticos de nosso tempo, precisamos da literatura e não usá-la como rota de fuga dos problemas atuais.

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