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Crítica | Mãe!, uma visão da bestialidade humana e do egocentrismo divino

Qual o papel da humanidade na Criação?

Mother! (Mãe! em português) é aquele tipo de filme que te deixa de ressaca e exige que você tire um tempinho para se recuperar após assisti-lo. Confesso que estou há quase um mês com ressaca pós Mother!, e por isso resolvi compartilhar meu ponto de vista sobre o filme.

PREMISSA

A sinopse do filme, além de não dizer muito sobre o mesmo, pode soar desinteressante a alguns: Um casal vivendo em uma casa isolada começa a receber convidados inesperados e inconvenientes. Ela, uma pacata restauradora, ele um egocêntrico escritor com bloqueio criativo.

CONSTRUÇÃO

Muito além da história, Mother! é uma junção de diversos elementos que cativam e prendem o espectador com efeito. Enquadrado na categoria de suspense e terror psicológico, o filme passa o sentimento de indignação e agonia crescente. Ainda que não entenda todas as alegorias e metáforas, você sem dúvida se solidarizará pela doce restauradora que tem sua casa invadida.

Começo pelo fato de o filme não possuir trilha sonora. Você leu certo, caro leitor: o filme não possui trilha sonora. Já ouviu falar na sala mais silenciosa do mundo e seus efeitos no ser humano? Se não, aconselho a pesquisa. Se sim, sabe o quanto pode ser torturante.

Esta escolha extremamente audaciosa por parte de Darren Aronofsky, pode passar totalmente despercebida por um espectador menos atento justamente porque o filme não necessita de trilha sonora. A sonorização do filme se dá apenas através dos sons oriundos da casa, portas se abrindo e fechando, coisas quebrando, passos e afins, o que contribui para o crescente desespero que o filme inspira.

Mãe!

Outro ponto extremamente importante é o enquadramento das cenas. Darren procura o máximo possível focar no rosto da personagem de Jennifer Lawrence — captando e transferindo toda sua angustia para o público. A fotografia também acompanha a evolução do sentimento de desespero, sendo no início leve e clara, e a medida que o filme avança se torna escura, sombria e profunda.

Quanto a atuação, Jennifer Lawrence se mostrou uma escolha assertiva. A atriz consegue passar inocência e ingenuidade quando devido, e angustia e desespero quando necessário, evoluindo muito bem durante o filme. Javier Bardem tem um papel mais linear, sem significativas alterações e também cumpre com o esperado, assim como Ed Harris que possui um papel menor. O espetáculo da vez fica por conta de Michelle Pfeiffer que dá vida à uma visitante misteriosa, provocadora, desconcertante e, por vezes abusada.

Não posso deixar de mencionar um fato intrigante que já deixa pistas de que o filme não é tão simples assim: nenhum personagem possui nome. Isso, é claro, abre margem para que interpretamos as cenas assistidas como algo maior — e este é o caminho certo.

DESENVOLVIMENTO (CONTÉM SPOILERS)

O filme começa com uma mulher ensanguentada e em chamas. Corta. Uma mão masculina posiciona cuidadosamente um cristal em um suporte. A partir disso literalmente faz-se a luz e gradativamente podemos ver uma casa saindo da escuridão. É assim que somos apresentados à Criação.

O ponto de partida para entender Mother! é ter em mente que a casa e a personagem de Jennifer Lawrence são uma só: A Mãe Natureza, ou a Criação de Deus, e que o personagem de Javier Bardem — referido apenas como “Ele” nos créditos finais é o Deus do Cristianismo. Desta forma o filme é a representação alegórica da Bíblia.

Os primeiros minutos do filme mostram a vida dEle e da Mãe Natureza. Tudo era simples e pacato, até que surge o primeiro visitante. Um homem (Ed Harris) que diz ser um grande fã do escritor pede abrigo na casa e Deus o recebe calorosamente, a contragosto da Mãe Natureza. No dia seguinte a esposa do visitante (Michelle Pfeiffer) também chega à casa, após o mesmo apresentar uma ferida aberta na altura da costela. Eles são Adão e Eva.

À certo ponto, o casal entra no escritório de Deus, e Eva quebra o precioso cristal que deu início à criação. Temos aqui a representação do pecado inicial. Pouco depois chegam os dois filhos do casal, Caim e Abel (Domhnall Gleeson e Brian Gleeson respectivamente), que discutem de forma enérgica, culminando no assassinato de Abel por Caim.

Filme Mãe!

Se você já assistiu ao filme e não entendeu todas essas referências e alegorias, deve estar sentindo sua mente se expandir. Mas calma, tem muito mais.

Após a morte de Abel, Deus oferece sua casa para Adão e Eva velarem seu filho. Uma verdadeira multidão não convidada age como se a casa lhe pertencesse, destratando, e depredando a Criação. Até que num determinado momento acontece o diluvio e, num acesso de fúria, Mãe Natureza expulsa todos os presentes.

Com a casa vazia novamente, Deus e Mãe Natureza resolvem recomeçar e ela engravida. A gravidez de Mãe faz a inspiração de Deus retornar e Ele escreve sua grande obra prima: O novo testamento. Após publicado, o Novo Testamento arrebata uma legião de pessoas que vão até a casa do Poeta para conhecê-lo e adorá-lo, reiniciando o ciclo de destruição na casa.

As cenas que se seguem são extremamente pesadas, com direito a depredação da casa, culto exagerado ao Poeta, assassinatos, conflitos e guerras. No meio disso tudo nasce Jesus, o filho de Deus com a Mãe Natureza. Logo os invasores também passam a adorá-lo e arbitrariamente causam sua morte. Ao correr de encontro ao seu filho, Mãe percebe que os fiéis haviam comido seu bebê e agora cultuavam seu cadáver sobre um altar.

Deus então lhe diz que apesar de todo o sofrimento que aquele povo lhes causou, eles devem ter compaixão e a perdoá-los, afinal eles estavam seguindo a Sua palavra. Entretanto, extremamente furiosa e revoltada, Mãe incendeia a casa. Eis a representação o Apocalipse.

Toda a casa é consumida pelas chamas, restando, ao final, somente Deus e Mãe Natureza — que assim como a casa, está completamente destruída e carbonizada.

É neste ponto que Deus pede à Mãe um último sacrifício. Ela que já havia perdido sua casa, filho, e vida, o entrega seu coração que instantaneamente se transforma em um cristal. Voltamos então ao início do filme: uma mão masculina posiciona um cristal em um suporte e a casa se refaz.

INTERPRETAÇÕES

Para além de um filme que retrata a bíblia de forma alegórica, Mother! nos induz à reflexão do que temos feito com a Mãe Natureza. Em tempos de guerras, fome, morte, poluição, depredação e desrespeito, a destruição do planeta como nosso lar é iminente.

A humanidade está representada no filme, mas é a vilã. Quando, em nossos mais loucos sonhos, nos imaginaríamos desta forma?

Além disso, o filme mostra também o egocentrismo de um Deus que faz tudo o que pode para ser idolatrado. Recebe convidados que depredam sua criação e maltratam sua esposa, perdoa todas as faltas dos mesmos — inclusive o assassinato de seu próprio filho, desde que por eles seja adorado.

Esse egocentrismo, e principalmente a idolatria a esse egocentrismo, contribui significativamente para a ruina da humanidade e da Mãe Natureza.

Em resumo o filme sugere a reflexão: Qual nosso papel na Criação? Onde a idolatria a um Deus egoísta e complacente — assim como ao nosso próprio ego — nos levará e a que custo?

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