Filmes

Crítica | A Maldição da casa Winchester: um filme sobre uma mulher com depressão profunda atormentada pelos fantasmas da culpa.

“Lucrar às custas do sofrimento, violência, desgraça, dor e morte alheia, não é um presente. É uma maldição.” (Sarah Winchester)

Pare tudo que estiver fazendo e olhe ao redor. Olhe bem. Quantos exemplos podemos citar de pessoas que enriqueceram através do empobrecimento do outro? E quando falo de “empobrecimento” não me refiro apenas ao material, mas também, ao empobrecimento espiritual, da alma, psicológico e emocional sobretudo.

Pensou? Agora pense em quantos desses você considera que são realmente felizes? Esquece as aparências ilusórias e foca no verdadeiro conceito de felicidade; a felicidade da consciência. Quantos desses você ainda encaixaria nesse grupo? Quantos? Ficou mais difícil agora, não foi?

É justamente essa série de questionamentos que precisamos fazer se quisermos entender um pouco a mente de Sarah Winchester (Helen Mirren, de A Rainha, longa de 2006); proprietária da empresa de rifles Winchester, herança de seu falecido marido, William Wirt Winchester.

Sarah poderia ter tido uma trajetória diferente se as coisas tivessem sido diferentes. Porém, a vida se recusou a lhe dar uma trégua e a consequência foi a transformação de uma jovem completamente apaixonada pela família e pela vida, em uma mulher afundada em desgraças, lutando para sobreviver em meio aos seus fantasmas. Sendo que o pior deles é o fardo da culpa que é obrigada a arrastar pelos corredores de sua mansão.

Talvez você esteja confuso. Adivinhei? Afinal, você estava esperando ler uma crítica sobre um filme de terror, certo? Então, onde se encontra o terror por aqui? A resposta é simples; não se encontra. Ou melhor, se encontra muito além daqui.

O filme tem aquelas cenas típicas do gênero que tem como objetivo provocar susto no público? Tem. Tem aparições aleatórias no meio do nada? Também tem. Ambiente macabro com uma atmosfera escura e pesada ao redor? Mais uma vez sim. Elementos surpresas que surgem de forma inesperada? Claro que sim. Tudo o que manda o protocolo dos clássicos de terror nos é servido de bandeja. Se você quer clichê, relaxa, seu pedido já foi realizado.

Só que não se enganem. Se estão esperando por mais um filme de terror, como outro qualquer, esse filme não é pra você.

Esse filme é para aqueles que se interessam pelas causas e não apenas pelas consequências. Para os que buscam o que gera o terror, as motivações anteriores a todo pânico que este estilo provoca. E principalmente, este é um filme para os que amam o drama, a psique humana e não, o terror em si.

Para entender melhor do que estou falando, é preciso antes de tudo entender o drama desta mulher, nossa enigmática protagonista; Sarah Winchester.

Sarah perdeu tudo que amava, com exceção de sua sobrinha e do filho desta. Pouco depois do prematuro falecimento de sua filha que ainda era uma recém-nascida, seu marido também a deixou, vítima de tuberculose.

Com a morte deles ela passou a questionar se o peso de serem responsáveis indiretamente pelo assassinato de tantas pessoas, através do instrumento de morte que carregava o sobrenome de sua família, teve influência no destino deles.

Diante disso, ela procura médiuns espiritualistas que lhe confirmam a maldição que os cerca e a orientam a construir uma casa para abrigar os espíritos que perderam suas vidas por meio de rifles Winchester. Caso ela parasse a construção da casa, morreria. Não teria escapatória.

E assim foi feito. Dia pós dia e noite pós noite a casa foi alargando sua estrutura baseando-se na planta que os espíritos instruíam à Sarah mediante às sessões na qual eles a guiavam.

Já dá para imaginar que pra sociedade em sua maioria cética em relação a questões dessa ordem, não precisou de muito para que Sarah Winchester fosse dada como louca. Correndo risco de perder o controle de sua empresa, a viúva recorre ao psiquiatra Eric Price (Jason Clark), para que ele ateste sua sanidade mental e capacidade de tomar as rédeas de sua herança familiar. À princípio descrente das convicções de sua paciente, aos poucos o doutor vai percebendo o quanto ela estava certa. Sobre tudo.

Eric assim como Sarah, também vive permeado por angústias e acima de tudo, pelo peso da culpa. Não foi escolhido à toa para se juntar à mansão Winchester, mas sim pela conexão que tem com a anfitriã. Afinal, por 3 minutos ele também esteve incluso entre as almas daqueles que foram atingidos por uma arma produzida pela empresa do marido de Sarah, mas felizmente sobreviveu.

E da mesma forma que a senhora Winchester, ele também conhece bem como é a dor de perder alguém que tanto ama, pois tentou impedir, em vão, o suicídio de sua mulher. Por isso se castiga por não ter sido capaz de salvá-la de seu fim, abusando de medicamentos como forma de aliviar seu trauma.

O filme, que é baseado em fatos reais, levanta uma discussão importante sobre o armamento. Numa determinada cena, ao ser questionada pelo Dr.Price se o mau uso dos rifles Winchester a preocupa, Sarah responde que se a arma for utilizada com o propósito pelo qual foi criada, sempre será um mau uso. Não tem como ser diferente. No que sua sobrinha rebate dizendo que depende de quem a usa.

Seguindo o raciocínio de Marion Winchester (Sarah Snooker), sobrinha de Sarah, a arma pode ser benéfica em situações de legítima defesa, por exemplo. Concordo que se a arma é tudo que você tem em mãos para te proteger naquele momento e se REALMENTE não tem outra maneira de sobreviver sem fazer uso desta ela pode sim, diante das circunstâncias, ser um instrumento necessário.

Contudo, independente das motivações de quem a usa, uma arma sempre vai ser um objeto perigoso e símbolo da morte. Sempre.

A Maldição da casa Winchester é primordialmente sobre uma mulher no auge de sua depressão — na história real Sarah entrou em depressão profunda após a perda da filha e nunca mais conseguiu engravidar— envolta pela falta daqueles a quem ama e pela presença daqueles que a atormentam sendo obrigada a conviver com o pior sentimento existente: a culpa.

Quero terminar essa crítica com uma reflexão. Será que quem produz as armas é tão assassino quanto quem puxou o gatilho? E quem vende drogas? É responsável pelas consequências futuras daqueles que compram e a consomem?

E a família de traficantes, ladrões, assassinos, policiais e políticos corruptos, criminosos em geral? São tão culpados quanto eles? Também merecem punição por usufruírem de dinheiro sujo e até enriquecerem às custas disso? Ou eles são inocentes isentos de qualquer tipo de culpa?

Fica a reflexão.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!