Críticas,  Literatura

Resenha | Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro

Publicado pela primeira vez no Brasil em 2005 pela Companhia das Letras, lançado como filme em outubro de 2010 e relançado em livro em 2016 para uma segunda edição, Não me abandone jamais foi o grande vencedor do Nobel de literatura de 2017.

O que a história de três amigos (Kathy, Ruth e Tommy) que cresceram juntos em um internato inglês poderia ter de tão especial? Escrito em primeira pessoa, na voz de Kathy, essa é uma pergunta que fica sem resposta nos primeiros capítulos.

Dividido em três partes, o livro de Kazuo Ishiguro narra primeiramente o período em Hailsham. Na segunda parte, o foco volta-se para a vida pós-internato, levando até a terceira parte, que encerra e esclarece as eventuais dúvidas.

Isso porque este não é um livro que te dá todas as informações mastigadas – o que está acontecendo está ali, escrito, e você não percebe até isso ser jogado às claras. E faz isso tão bem que, se no início a narrativa parece lenta e as situações, desnecessárias, em determinado momento da leitura sabemos que será impossível parar de ler.

E de fato não paramos. A Kathy do presente é uma cuidadora. Ela sabe que seu tempo está se esgotando, e aceita o destino assim como todos os seus amigos fizeram. Assim como nascemos, crescemos e morremos – e pautamos nossa vida nessa verdade incontestável -, Kathy conhece o futuro que a aguarda, aceita-o e pauta sua vida nele.

Como cuidadora, seu papel é frente aos doadores, pessoas de todo país que, assim como ela, tiveram seus destinos traçados desde o dia em que nasceram e (pelo menos a maioria) aceitaram que suas vidas se limitariam a isso.

“Nós tentamos fazer o melhor possível para cada um dos doadores, mas no fim o serviço é exaustivo. Paciência e energia têm limite, e isso vale para todo mundo.”

Durante o tempo no internato, eles são quase tratados como qualquer um de nós. Há intrigas, fofocas, uma fase de descoberta, aulas a respeito de sexo e a forma de encará-lo, falando dos cuidados que precisam ser tomados, e muita arte.

Os melhores desenhos, poesias e pinturas vão para a Galeria, que nenhum deles sabe o que é, mas sobre a qual conjecturam muito, formando teorias reforçadas por frases soltas dos professores. Apesar de tudo aparentar ser bem claro, é interessante observar como as ideias de aceitação, destino e objetivo (ou, se você quiser chamar assim, vocação) são colocadas na cabeça de cada um dos alunos de forma que não permita questionamento.

O que acaba sendo mais brilhante ainda pelo fato de que Não me abandone jamais não é, portanto, um livro que traga nas personagens uma desconstrução. Ele fala claramente de privilégios, de ser humano e de avanços tecnológicos, e gera inúmeras linhas de pensamento no leitor. Não há ninguém querendo levantar a mão e planejar uma revolução.

Este é, naturalmente, um aspecto muito pouco explorado nas distopias. Provavelmente porque nós, leitores, gostamos de crer que seríamos os responsáveis pela luta por um mundo mais justo quando, diariamente, também aceitamos a realidade que nos é imposta desde que ela não atrapalhe nosso próximo passo.

E Kathy é exatamente o oposto disso. Tommy procura saídas, vê oportunidades, não de fugir do futuro, mas de prolongá-lo um pouco mais. Ruth, por sua vez, é uma sonhadora, perdida em seus pensamentos sobre um trabalho que nunca terá.

Ruth, aliás, é uma personagem muito particular. Nossa visão sobre ela não é exatamente positiva, e acredito que não seria nem mesmo se a história fosse narrada por ela, mas ela é muito menos passiva que Kathy. Após um tempo conseguimos entender que ela só está fazendo o que acredita ser melhor para ela, e para os demais também.

Desconfiada e com um problema de autoestima que lima um tanto sua personalidade, Ruth tenta ser o seu melhor na visão dos outros. Infelizmente, isso também significa ser egoísta, um pouco rancorosa e, se vamos ser francos, irredutível a ponto de achar justo passar por cima dos outros em nome de estar certa.

Mas algo se perdera para sempre […] e assim foi que aquele sentimento voltou outra vez, mesmo que eu tentasse mantê-lo à distância: o sentimento de que estávamos fazendo aquilo tudo tarde demais; que já tinha existido o momento certo, que nós deixamos passar.

Não me abandone jamais é muito bem escrito e uma distopia um tanto diferente do que estamos acostumados. Pé no chão, totalmente passível de acontecer, é um livro que mostra uma face da nossa sociedade que tendemos esconder: a que daríamos tudo por mais uns anos de vida.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!