Críticas,  Literatura

Resenha | O céu está em todo lugar, de Jandy Nelson

O Céu Está em Todo Lugar já havia me chamado atenção pelo tipo de capa, o design dela e a surpresa enorme ao abri-lo e ver que sua letra era azul, além de ter páginas totalmente diferentes com letras diferentes e imagens. Visualmente, a Novo Conceito novamente caprichou no livro em si e com certeza deixou todos com vontade de pegar o livro para ler.

A leitura é outra surpresa. O livro fala de Lennie, é narrado por ela, falando sobre a vida “pós” Bailey, sua irmã mais velha. O livro passa por sentimentos de perda, amor, saudade, e fala sobre como a vida acaba se ajustando à nova situação. Bailey não está lá, mas Big e Vovó estão, e eles continuam os mesmos.

A escola ainda está lá. A Mãe Pela Metade sempre esteve no mesmo lugar. Certamente a imagem de Santo Antônio não esteve sempre ali, mas, após a morte, ela também continua no lugar onde foi deixada. O tempo, entretanto, não para e seguir a vida não é uma opção.

Lennie é levada a isso, e a novos sentimentos. Agora, por algum motivo, ela se sente viva, não como se estivesse dormindo — e às vezes se culpa por isso. Ela está se apaixonando, cometendo erros e tentando acertar em meio a uma confusão de sentimentos que ela até pode tentar, mas não consegue explicar.

Jandy Nelson fez do seu livro de estreia um sucesso sem igual contando uma estória simples, porém mágica por nos prender do início ao fim aos personagens — mesmo aos que já se foram, mas nas falas continuam ali.

São nas frases soltas deixadas em uma árvore, num copo jogado no chão, debaixo de alguma planta da vovó, perto do rio, dentro do armário e basicamente em qualquer lugar que conhecemos um pouco mais do que Lennie está sentindo, e entendemos que coisas bonitas também surgem de sentimentos ruins.

Jandy mostra os dois lados da vida com perfeição, se preocupando com sentimentos e não tanto com ações, um diferencial que dá um gosto diferente à leitura. E absolutamente tudo no livro, inclusive a escrita, nos leva a viver um pouco a vida de Lennie. O céu está em todo lugar, basta olhar e apreciar.

Vamos refletir um pouco?

O Céu Está em Todo Lugar tem um conteúdo semelhante a outros livros pelo simples fato de falar sobre a morte. Resumidamente, Bailey morreu.

No “plano terrestre” ficaram Lennie — sua irmã -, Toby — seu (ex?) namorado -, Vovó e Big. O livro me gerou uma reflexão porque eu (dentre muitas outras pessoas, claro) já sofri por ficar aqui enquanto outra pessoa não estava mais.

Acho engraçado como a morte soa estranho. Quando se trata de um parente próximo, você a sente de uma determinada forma. No meu caso, custei a começar a pensar que não encontraria mais meu tio na casa dele quando passasse por lá.

É estranho pensar que não existe mais a pessoa que eu conheci, que ela não está juntando pecinhas e criando uma máquina nova — quase como os hackers de antigamente que o livro “Os Heróis da Revolução” (da Editora Évora) fala; e que não está inventando mais piadas, nem indo trabalhar todos os dias.

Lennie demorou a juntar as coisas de Bailey e guardá-las no sótão. Afinal, como se desfazer das coisas de alguém que, por mais que você saiba que está morto, ainda sente que está ali?

E que você ainda quer que esteja ali? Para irmãs, que dormiam no mesmo quarto, a dificuldade de se ajustar a nova realidade, um quarto só seu, pode ser muito mais difícil do que aparenta. E é.

Lembrar de um livro que estava guardado e não poder mais devolver, porque também não interessa à família, que provavelmente jogaria fora, também é mais difícil do que parece.

O tempo não cura tudo. Ele faz com que nos acostumemos com a nova realidade à nossa volta. Lennie fala, já no final: “entendi que Bailey vai morrer todo dia para mim”, e é mais ou menos assim.

Porque estamos fazendo alguma coisa e lembra que a outra pessoa também gostava daquilo, ou então faria completamente diferente, quem sabe acrescentaria algo ou mudaria completamente tudo. E nos lembramos que ela não vai fazer nada daquilo. E então ela morre novamente. Diariamente.

Lennie comete alguns erros enquanto está de luto. Como se permitir ser feliz sem ter aquela pessoa — no meu caso, e no dela também — tão cheia de felicidade? Parece obrigatório sentir dor, chorar, ficar triste porque ela não está mais ali. Não é, é claro.

Temos que ser feliz apesar de tudo, principalmente porque pessoas que nos querem bem — como uma irmã, e um tio — não iam querer algo diferente disso. Entretanto, às vezes, damos de cara com a culpa de estar feliz enquanto deveríamos estar de luto.

Às vezes a culpa de continuar aqui enquanto a outra pessoa não está mais. A culpa de não ter dito mais, feito mais, brincado mais, procurado mais, entendido mais. E lidar com a saudade. A morte é, para mim, um novo recomeço.

Lennie não pensa assim, nem como um fim. Lennie nem sempre aceita a morte da irmã. Lennie teve tempo e reaprendeu a ser feliz, mesmo que a irmã morresse todo dia. Porque a lembrança se torna presencial, importante, e lembrar e imaginar o que a pessoa diria pode também arrancar sorrisos.

O livro é ficção, mas completamente realista. Bailey deixou sua marca, meu tio deixou sua marca, meu professor que se foi recentemente deixou sua marca. O que eles tinham em comum?

Viver com intensidade, e ser feliz.

2 Comments

  • Milena

    Cheguei aqui pela resenha de “textos cruéis demais para serem lidos rapidamente” e meu Deus!!! Já sai querendo comprar mais quatro ou cinco livros que eu não teria ideia da existência se não fosse as suas resenhas. Primeiro site que eu realmente me apego e quero ler tudo o que tem a oferecer sobre esse mundo literário. Parabéns pelo trabalho, e continue por favor kkkkkk
    Títulos adquiridos (em questão de dois dias kkkkkk):
    -Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente;
    – O céu está em todo lugar;
    – A filha perdida;
    – Biblioteca do senhor Lemoncello;
    – O fazedor de velhos.
    E tenho certeza que a lista tende a aumentar. Bjos…

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