Críticas,  Literatura,  Trending

Resenha | O conto da aia, de Margaret Atwood

“Eu gostaria que esta história fosse diferente. […] Gostaria que fosse sobre o amor, ou sobre súbitas tomadas de consciência importantes para a vida da gente, ou mesmo sobre pores do sol, passarinhos, temporais ou neve.”

Imagina que a cidade que você conhece hoje não existe mais. Nela, mulheres foram divididas em Esposas, Tias, Aias, Marthas e Não-Mulheres, cada uma desempenhando uma função nesse novo conceito de sociedade. Não-Mulheres é exatamente o que não se quer ser, ninguém sabe exatamente o que acontece com elas, apenas que nunca mais são vistas.

Marthas assumem o papel de governantas: elas lavam, cozinham e gerenciam toda a casa na qual vivem os Comandantes, suas Esposas e as Aias. Estas, por sua vez, têm o papel mais importante: por serem férteis, passíveis de terem tantos filhos quanto necessário, recebem todo o cuidado para que seus corpos continuem a ser úteis. E, enquanto forem úteis, serão repassadas de família em família com a única função de engravidar do Comandante. Caso não consigam, são declaradas Não-Mulheres.

Claro que as aias não aprenderam as regras desse novo estilo de vida sozinhas. É aqui que entram as Tias, que são mais ou menos professoras, e o Centro Vermelho é um tipo de escola. Por fim, Esposas têm controle dentro de suas casas — mas apenas dentro delas. Passam seus dias fazendo crochê, ressentindo-se da incapacidade de ter filhos e se revezam para ficarem “doentes” e receberem a atenção das demais Esposas.

O conto da Aia
CHRISTOPHER MINESES / MASHABLE

“Tento não pensar demais. Como outras coisas agora, os pensamentos têm que ser racionados. Há muita coisa em que não é produtivo pensar.”

Quem narra esta história é Offred, uma mulher que representa, no livro, a vida de todas as demais Aias. Ela foi separada do marido, e vive sem saber se ele está morto ou se conseguiu fugir, e da filha, de quem nunca mais teve notícia. Ela não pode fumar ou beber, faz compras (apenas de alimentos) com uma companheira, Offglen, sobre quem não sabe nada, e, todo mês, durante seu período fértil, vai para a Cerimônia.

A Cerimônia é quando o Comandante a fode — e ela própria diz que essa é a expressão adequada: aquilo não é fazer amor, mas também “não é” estupro, já que ela consentiu — , na companhia da Esposa. Exatamente isso que você leu. A aia faz visitas constantes ao ginecologista, uma checagem para ver se ainda pode ser utilizada, e seu quarto é desprovido de qualquer coisa que ela possa usar para tentar suicídio. Ela usa vermelho e, se fizer qualquer coisa que não seja permitida, será severamente punida. O tecido que cobre seu rosto serve exatamente para que não possa observar muito do que há ao seu redor.

Os Olhos estão atentos a tudo, então não há possibilidade de ser discreta na hora de cometer uma infração. Anjos é o nome do exército que todos temem. E o muro é onde corpos enforcados ficam expostos, ressaltando quem realmente manda ali. A vida é pautada no que dizem que está escrito na Bíblia, e o fato de terem chegado àquele ponto é culpa da vida anterior: a infertilidade é o castigo.

“A humanidade é tão adaptável, diria minha mãe. É verdadeiramente espantoso as coisas com que as pessoas conseguem se habituar, desde que existam algumas compensações.”

Como a situação chegou a esse ponto? Bem, as mudanças começaram aos poucos, o poder sendo conquistado pedaço por pedaço. Claro que houve mais de uma manifestação, todas foram reprimidas com o aviso de que, se repetidas, o exército teria permissão para atirar em todos os presentes. É para o bem maior, diziam. Como é parte do ser humano, a esperança fez com que a população acreditasse até o último minuto que tudo era temporário.

As Tias dizem: para vocês, mulheres, ainda é difícil conquistar a verdadeira disciplina. Vocês têm um passado impuro para lembrar. Para as futuras gerações, entretanto, tudo será mais fácil. Sem conhecimento de como as coisas já foram um dia, esta realidade não será questionada.

De fato, a narrativa do livro não permite muita esperança. E, ao contrário do que acontece na série, Offred está muito mais conformada do que parece. A vida de antes quase soa errada diante de tudo que ela foi forçada a ouvir e repetir. Um luxo que Moira, sua melhor amiga, que acabou também no Centro Vermelho e sobre a qual ela não tem mais nenhuma notícia, não se deu. Moira era o fogo que ainda repetia o quanto aquilo estava errado, o quanto viviam um absurdo.

O conto da aia
BRETT VALLS em Dribble

“Você não pode controlar o que sente, disse Moira, certa ocasião, mas pode controlar como se comporta.”

O Conto da Aia não é um livro gentil com o leitor. A narrativa é carregada e o que se narra é (muito) pesado, porque não poderia ser de outra forma. Escrito em 1985 pela canadense Margaret Atwood, ele é um retrato de uma possibilidade em tempos de extremismo religioso, tornando qualquer relato ainda mais assustador — não no sentido exato de medo, ainda que pegue os maiores temores das mulheres e os coloque de uma forma que abre pouco espaço para qualquer reação. Como lutar por seus direitos quando cobrem todas as brechas?

A escrita introspectiva, que relembra o passado como se fosse outra vida, questiona o mundo no qual vivemos hoje — como é fator comum nas distopias. Somos assim tão passíveis de nos conformar com qualquer coisa que nos é imposta?

Seríamos capazes de levantar e exigir nossos direitos ou nos acomodaríamos diante do machismo que ainda existe na nossa sociedade? Se nossas contas bancárias fossem fechadas e nosso dinheiro repassado aos maridos, ficaríamos chateadas, porém apenas diríamos o quão atrasado isso soa? Pensando, em silêncio, se nossos maridos não estariam, na verdade, um pouco satisfeitos com a situação?

“É provável que você pensasse nessas ocasiões: E se ele não me amar?”

O Conto da Aia mostra uma sociedade na qual a mulher é explorada e reforçada diante de um falso moralismo (soa muito como a nossa, não?). Seu corpo não é seu, serve a um objetivo: procriar. Sexo é pecaminoso, porém necessário — exceto nos bordéis, nos quais todas as mulheres são niveladas como objetos de prazer com os quais quaisquer homens poderiam foder até que elas já não servissem para isso.

Aborto, jogo de poder, manipulações, insegurança e atitude estão presentes em cada capítulo, às vezes não de forma tão descarada, às vezes apenas na forma de uma lembrança, uma frase. É comum encontrarmos distopias com personagens principais como Moira, dispostas a tudo para mudar a realidade, e as observamos querendo acreditar que seríamos exatamente como elas. Mesmo Katniss Everdeen, de Jogos Vorazes, era uma personagem que partia para ação mesmo quando reafirmava que não queria estar nela.

Offred é o oposto disso, ainda que Nolite te bastardes carborundorum (“Não permita que os bastardos reduzam você a cinzas.”) prove que tal conformismo vai apenas até certo ponto. De qualquer forma, ela não é a exceção, e nem por isso é fraca. Não consigo imaginar qualquer uma dessas mulheres, mesmo Janine, uma aia que segue ao pé da letra tudo que a sociedade prega, como fracas.

Mesmo Serena Joy, a Esposa. Todas estão insatisfeitas com o sistema, ou alguém se engana ao pensar que Serena ficava feliz com as noites de Cerimônia? Seu poder também é fictício, limitado, falso. É como se lhe dessem algo para fazer apenas para que ela também não exigisse mais.

O conto da aia
REBEKKA DUNLAP em New Yorker

“Quero continuar vivendo, de qualquer forma que seja. […] Sinto, pela primeira vez, o verdadeiro poder deles. […] A fadiga está aqui, em meu corpo, em minhas pernas e olhos. Isso é o que derruba você no final. Fé é apenas uma palavra bordada.”

Enquanto isso, repetem o mesmo discurso o tempo todo, de todas as formas. Querem convencer que essa é a sociedade que mais se aproxima da ideal. E quanto tempo precisamos ouvindo as mesmas coisas para começar a acreditar que, talvez, eles estejam certos?

A contracorrente aqui é sutil, mas presente. Mayday. Uma lembrança de uma vida que já se encerrou, e para a qual não acreditam que poderiam voltar. Uma vida com seus problemas, na qual nem tudo era perfeito, mas que, no fim do dia, vivíamos com mais dignidade.

O último capítulo do livro é surpreendente, até para quem já assistiu a série. E, acredito, o encerramento perfeito para uma história como esta. Ele torna o relato todo ainda mais realista e pé no chão — tanto quanto uma literatura desse gênero pode ser.

“Havia lugares por onde não se queria andar, precauções que se tomava, que tinham a ver com trancas em janelas e portas, fechar as cortinas, deixas luzes acesas. Essas coisas que se fazia eram como orações; você as fazia e esperava que elas a salvassem. E na maioria das vezes salvavam. Ou alguma coisa salvava, você sabia pelo fato de ainda estar viva.”


NOTA ★★★★★ ❤

One Comment

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!