Teatro

O convite imagético do sertão de Rosa

A Diretora teatral Bia Lessa dá vida à saga do jagunço Riobaldo pelo sertão, que abre uma discussão de caráter universal sobre a relação do ser humano com o mundo e a natureza. O enredo é uma espécie de labirinto, que faz analogia aos acasos da vida, como as descobertas, perdas, medos e amores.

Guimarães Rosa mostra, em sua narrativa exaltada por originalidade, como viver – e sobreviver- é desafiador.

Bia Lessa investe na criação de um universo que não tem apenas a palavra, o discurso como desafio, mais imagens, memórias, descrições. Lessa usufrui do teatro com o que ele tem de extraordinário, as suas teatralidades, parece óbvio, mas não é. Criar imagens com o nada é pra poucos.

A diretora, ao criar imagens e as oferecer aos espectadores, não empobrece a obra, receio esse da artista. Nesse enfrentamento com a construção do trabalho e, depois, com relação à plateia, se confirma nesse momento que o mundo parece retroceder de maneira avassaladora.

O resultado, o público pode conferir no CCCB Rio de Janeiro até 31 de março na forma de uma instalação/espetáculo, onde a ideia de um tempo contínuo se faz presente. Não há separação entre espetáculo e instalação.

É tudo junto e misturado, inclusive a disposição da plateia que se acomodam numa escultura no hall do Centro Cultural Banco do Brasil. No seu interior, encena o genial clássico Grande Sertão Veredas do nosso Guimarães Rosa.

A proposta de encenação da artista é muita delicada com Rosa. Lessa começa primeiramente a interagir com os espectadores de forma sensorial. Ela prepara o ambiente cênico e espacial pela visão, depois audição, olfato e até mesmo o paladar, ainda que a plateia não deguste nada concretamente. De maneira que aos poucos, vamos concebendo o sertão proposto por Bia através dos sentidos.

A audição, talvez seja de todos os sentidos, o que mais faz a ponte para as imagens produzidas desse sertão de Rosa, pela perspectiva de transposição para cena por Lessa. E devagarzinho vamos reconhecendo os sons dos pássaros, das águas dos rios, dos transeuntes da população ribeirinha, seus costumes e cultura.

Bia Lessa é uma esteta, seus trabalhas primam por uma estética arrojada e provocadora e com Veredas não é diferente. Existem os jagunços de carne e osso personagens do romance, mas existem os jagunços que preenchem a ambientação que é escultura de bonecos feitos de cobertores que se tornam personagens com uma força estética surpreendente, bem como os corpos dos atores que se transformam em várias espécies de peixes, de pássaros, plantas, seus corpos são cenários e adereços na construção desse sertão. Seus corpos são a ecologia do local.

São os sons onomatopeicos de Rosa, os seres animados e inanimados, são seus tipos regionais, são as materializações de uma narrativa.

O convite imagético do Grande Sertão Veredas de Rosa
foto por Roberto Pontes

A identidade de gênero como recurso cênico

A manutenção das palavras e da poesia de Rosa se mantém intactas na transposição para o teatro, até porque o diálogo entre Bia Lessa e Rosa vem de longa data.

Artisticamente Bia Lessa fez uma exposição sobre o escritor em 2006 no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo e agora, ao que parece, a diretora e a artista plástica se complementam nessa montagem através dessa instalação/teatro.

O tema do amor “impossível”, “proibido”, sem dúvida nenhuma é o ingrediente mais instigante e provocador do romance e que está diretamente ligado as demais tramas e demais paixões humanas que enriquecem o romance que faz da obra atemporal.

Um jagunço que se vê apaixonado por um outro jagunço; paixão proibida essa que precisa ser escondida num habitat hostil, machista, na medida em que ser rude e violento são características comum a todos daquele bando.

O que Riobaldo não sabe é que seu amigo Reinaldo, na verdade não se trata de um homem e sim de uma linda mulher de olhos verdes, travestida de um homem para poder se engajar-se na guerra ao meio da jagunçada.

Amor recíproco, mas que ambos precisam esconder de si próprios para continuar. Continuar suas guerrilhas pelo sertão e ser alimentado para batalha, pelo amor que sentem um pelo outro, e, descoberto somente com a morte de Diadorim. Esse era seu verdadeiro nome, uma mulher que ao ser despida depois de morta é revelada pra Riobaldo o que ou quem era o seu grande amor…

A dicotomia de Deus e o Diabo são elementos dramáticos no jogo maniqueísta que Riobaldo se depara, até fazer um pacto com o Diabo, se é que esse “desafiamento”, para usar uma linguagem guimaranesca é feito por Riobaldo.

Rosa bebe da fonte de Fausto de Goethe, poema trágico do século 19, onde Mefistófeles ou agora Riobaldo, faz uma aposta com Deus: diz que poderá conquistar a alma de Fausto – um favorito de Deus -, um sábio que tenta aprender tudo que pode ser conhecido.

A próxima cena ocorre no estúdio de Fausto, onde o erudito reflete sobre as limitações do conhecimento científico, humanista e religioso, e sobre suas tentativas de usar a magia para chegar ao conhecimento ilimitado. Frente ao fracasso, considera o suicídio, mas muda de ideia ao escutar as celebrações de Páscoa na rua. Decide então sair a passear com seu assistente, Wagner, e ambos são seguidos por um cão vagabundo no caminho de volta a casa.

Bia Lessa utiliza-se do masculino e feminino no espetáculo, ou seja, o ator e atriz que trocam de personagem; uma forma dos pensamentos de Riobaldo sendo materializados com trocas de papeis. Ora Riobaldo é fracionando nas suas divagações por uma atriz fazendo ele próprio Riobaldo, Luiza Arraes, que faz o Riobaldo com falas sobreposta, Caio Blat e Luiza Arraes fazem uma leitura singular dos seus Riobaldo (s) ao mesmo tempo que sublinham e fazem alusão a ideia de uma um jagunço que na verdade é uma jagunça, a bela Diadorim na figura de Luiza Lemmertz.

A concepção de Bia Lessa é muito afinada com o elenco que abraçou a proposta com vigor e competência. Todos imbuídos da máxima de Rosa: “ O Sertão está dentro da gente”.

O elenco requer um fôlego de atleta para sustentar às duas horas de espetáculos com um trabalho de fisicalidade latente e explosiva, no que faz brilhantemente.

Um elenco entregue ao projeto e uma ficha técnica que também é um primor e leva a grife musical do gênio Egberto Gismonti, luz de Binho Schaefer que trabalha um sertão de dia e de noite com uma passagem de tempo interessantíssima, colaboração dos intelectuais Silviano Santiago e Flora Sussekind e um time enorme de primeira qualidade. E o Caio Blat, apresenta uma das maiores performances de sua carreira se não a maior.

Que todos possam mergulhar no sertão de Rosa pelo viés de Bia Lessa. Sem comprometer o sertão que cada um carrega tem dentro de si na leitura dessa obra extraordinária.

Ator e crítico, é Analista Técnico de Cultura no SESC Rio.

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