Saúde Mental

O dia em que morri

Desisti, eu vou pular. Antes, porém, gostaria de falar sobre o dia em que morri. Não, não é sobre hoje. Hoje eu só concretizo a minha morte, mas eu já morri, bem antes. Serei breve no meu relato, mas sinta-se à vontade para se sentar e ficar mais confortável. Vou começar…

Eu sempre fui uma pessoa normal. É, bem normalzinha. Fazia as coisas, tinha amigos, vida social, estudava, trabalhava. Normal, igual a todo mundo. Um dia, fiquei insegura com uma coisinha. Uma coisinha de nada, mas fiquei muito insegura.

A solução mais simples foi não fazer a coisa. Estava insegura, né? Não insisti e não fiz. E vi que podia deixar de fazer as coisas. Coisinhas de nada, de pouca importância. E comecei a não fazer as coisas que me traziam insegurança. Um dia, uma dessas coisas era importante (não me lembro se para mim ou para alguém, mas era importante) e eu não consegui fazê-la. E me senti pressionada.

Primeiro por mim. Depois, pelos outros. E sofri com a pressão. Não sabia exatamente o que fazer, pois não conseguia fazer o que tinha que fazer. Também ninguém chegou perto de mim e me ajudou a fazer. Ouvi muitos “vá lá e faça”, “cadê aquilo?”, “estou aguardando”, “a responsabilidade é sua”. Eu simplesmente não conseguia fazer. E não fiz. E sofri.

Aos poucos, outras coisas foram me incomodando e eu fui ficando cada vez mais insegura. As pessoas ao meu lado me diziam para não ficar insegura, para fazer as coisas. “Só depende de você”, elas me diziam, mas eu não dava conta. Era justamente por depender de mim que as coisas não aconteciam e eu ficava cada vez mais ansiosa. Sentia meu coração bater mais rápido e a respiração ficar insuficiente.

Minha família e meus amigos diziam que eu estava exagerando e que devia levantar a cabeça e encarar a vida. Encarar a vida… Eu quase não conseguia encarar o espelho pela manhã! O espelho sempre quis me mostrar quem eu sou: frágil, incompetente, feia, sem encantos, sem talentos, sem coragem. E se nem conseguia encarar o espelho, como iria encarar as outras pessoas? Como iria encarar a vida?

A rua passou a me aterrorizar. Muitas pessoas, muitos carros, muitos barulhos. Todos parecem me olhar. Todos querem me cobrar. Querem me bater, me assaltar, me perseguir. Querem saber por que eu não fiz as coisas. Não fiz, não faço, tenho medo da rua. Saio em passos rápidos por trajetos que já conheço bem. Não olho nos olhos das pessoas. Se alguém tentar falar comigo, eu fujo.

“Você não pode ser assim”, “isto só é pior para você”, “só você pode fazer você sair desta”. Eles insistem sempre nisso de que só eu posso me fazer sair desse estado. Se eu pudesse, você acha mesmo que eu já não teria saído? Desculpe-me por chorar, mas tentei de tudo e não consegui sair desta. As pessoas me olham ou com reprovação ou com pena, e eu não preciso de nenhuma das duas.

Ajuda? Nunca tive. Somente “seja forte”, “acredite em você”, “tenha fé”, “acredite em Deus” e a tradicional “só você pode fazer você sair desta”. Me ouvir, fazer as coisas comigo, me acompanhar, me orientar, me levar a um médico, isto ninguém fez. Sobre o médico, diziam que era só uma fase e que eu não precisava de médico.

“Você não está louca, só insegura, não precisa de médico”. Insegura… Insegura eu estive no primeiro momento, agora é muito pior, mas as pessoas têm muito medo de ter uma louca na família, mesmo eu não sendo louca, e evitam ao máximo que se chegue a esta conclusão. “Minha terapia é na praia, você precisa relaxar”, uns diziam.

“Sinceramente, isto é falta de coisa para fazer. Vá lavar umas roupas, arrumar uma casa, trabalhar pesado”, outros diziam. Eu sempre trabalhei pesado, até que comecei a ficar insegura. E não é questão de trabalhar pesado, é uma condição minha que não me deixa fazer as coisas. Mas como ninguém se prontificou a me acompanhar, me ajudar no dia a dia, me ouvir, me entender, ninguém sabe o que se passa na minha cabeça.

Com tudo isso, aos poucos, fui cansando. Cansando de mim, cansando da vida. Acordar é um pesadelo e eu tenho dormido cada vez menos. Cansei de viver no pesadelo. Não é hoje que eu vou morrer, eu já morri.

Morri nas primeiras inseguranças. Morri a cada palavra de estímulo que não me estimulava. Morri quando ninguém se aproximou de mim e me entendeu. Morri várias vezes ao longo dos anos, esta será só a confirmação de todas as outras mortes.

Por favor, diga à minha família e aos meus amigos que eu tentei, mas não consegui. Diga que eu amo todos eles, mas não dá mais. Da próxima vez que você me vir, será lá embaixo. Espero que eu não esteja com uma aparência tão ruim. Não suportaria ser criticada no meu funeral. Tchau.

Pai de duas meninas. Antes disso, não era lá grande coisa. Não resiste a um olhar pidão das filhas, principalmente se for acompanhado de um cafuné ou de um sorriso rasgado, mas tem certeza de que está no controle.

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