Filmes

Crítica | O estado das coisas: drama que te faz questionar o que tem valor na vida

“Eu era apaixonado pela vida e ela era apaixonada por mim. Como foi que perdemos a paixão uma pela outra?”

Em algum momento você já sentiu como se sua vida não fizesse mais sentido, ou pior, como se ela nunca tivesse feito? Já teve a sensação de ter perdido o rumo e não sabe em qual ponto sua estrada começou a desandar? Quando você acorda todos os dias tem a impressão de que não está onde sempre planejou estar? Ao analisar sua vida em todos os aspectos reconhece o quanto distante está de quem você já foi um dia? Sente saudade de quem era antes de estar perdido?

Se respondeu sim para todas essas perguntas, facilmente sentirá empatia por Brad, personagem de Ben Stiller (que me surpreendeu fazendo um filme de drama, tão diferente das comédias pastelões que ele está acostumado a fazer) no longa “O Estado Das Coisas”.

Brad é um homem de classe média, casado e pai de Troy, um aspirante a músico em busca de seu sonho de entrar numa universidade de renome. Apesar de ser apaixonado por sua família e ter uma vida financeira razoavelmente confortável, não se sente satisfeito com o que o destino reservou para si. Se compara com seus antigos colegas de faculdade e se sente frustrado ao constatar a diferença entre a vida que eles levam e a sua própria vida.

Todos estão ricos, alguns famosos, com seus próprios jatinhos, empresas e ilhas particulares, aparecendo na mídia, vendendo milhares de cópias de livros sobre como se tornar alguém de sucesso, e com várias mulheres aos seus pés.

Isto é, eles realmente conseguiram conquistar tudo aquilo que almejavam durante a juventude. Todos eles podem dizer que de fato encontraram a felicidade, com exceção de Brad. Entretanto, será que ele também não a encontrou?

Conforme o público vai acompanhando a crise existencial de Brad e compartilhando de sua desilusão com o rumo que sua vida tomou, vai percebendo também que, talvez, ele esteja sendo um pouco ingrato com tudo que tem.

Afinal, ele tem uma esposa apaixonada por ele, um filho saudável, inteligente e talentoso, que o ama e, acima de tudo, tem uma vida. Quantos gostariam de ter mais tempo aqui na terra, mas por algum motivo vivem com seus dias contados, só esperando a morte chegar? Quantos fariam de tudo para estar na pele de Brad por pelo menos um dia?

O filme toca num ponto muito importante; o porquê do ser humano sempre achar que a vida do outro, independente de quem seja, é bem melhor do que a própria. Por que temos facilidade de enxergar a vida do outro sob uma ótica otimista e colorida, mas quando se trata de nossa vida temos a tendência a ver tudo embaçado ou acinzentado?

Tapamos os olhos para os dramas alheios e só focalizamos o que de mais belo há, aquilo que admiramos e gostaríamos que fosse nosso também. Enquanto que com a nossa vida invertemos esse olhar.

Em certo momento, Brad diz que pra algumas pessoas a vida nunca é um campo de batalhas, mas sim um eterno playground ou até um sonho. Contudo, isso não é possível, pois todos tem seus conflitos internos e tragédias pessoais. Mesmo que não seja algo externo como um problema físico ou algo relacionado a família, dinheiro, trabalho; pode ser algo interno, íntimo, psicológico.

É só pensar na quantidade de pessoas que sofrem de doenças como depressão ou outras desordens emocionais, mas não tem nada externo em suas vidas que as justifique, muitas vezes fazendo que com isso, sejam constantemente julgadas pela sociedade. Até mesmo aquelas pessoas que parecem viver num conto de fadas ou num típico comercial de margarina, às vezes, tem problemas químicos, neurológicos, que acabam desencadeando outros problemas.

Portanto, não tem jeito. A vida é um campo de batalhas para todos, sem exceção. Só muda a imagem deste e como cada um escolhe enfrentá-lo.

Brad começa a perceber isso a partir do momento que retorna o contato com seus colegas de faculdade e descobre que a vida deles não é tão perfeita como aparenta.

Um está sempre bêbado ou drogado como forma de aliviar a solidão e vazio que sente, outro é requisitado e venerado por todos, mas por trás é odiado por sua arrogância e, aquele que Brad achava ser o mais sortudo, além de estar com a filha internada por conta de uma doença grave, também está prestes a ser preso por causa das falcatruas feitas com o objetivo de enriquecer rapidamente. Enquanto Brad tem um filho saudável e a liberdade de ir e vir garantida.

Apesar de soar clichê em vários momentos, por retratar uma situação que não é original, o longa aborda um tema muito importante e que precisa ser constantemente debatido. Afinal, acredito que todo ser humano já passou, passa ou ainda passará em algum momento da vida pela mesma crise do protagonista.

Varia a idade e as circunstâncias que desencadeiam tal crise, mas ninguém está imune a ela. Talvez, seja necessário para evoluirmos e termos segurança do que realmente queremos pra nós. Ninguém se encontra sem antes se perder.

Poderia ser melhor, pelo menos tinha potencial para isso, porém valeu pela reflexão que causa no público. É impossível terminar de ver O estado das coisas sem fazer um paralelo, por menor que seja, com a nossa própria vida e, sair do cinema mais grato e principalmente, aliviado por tudo que temos e ainda somos capazes de conquistar.

Assim como o personagem de Stiller; todos temos uma vida. Cabe a nós darmos sentido a ela, para que assim, ao chegarmos ao final desta, termos a certeza de que apesar de todas as adversidades, fizemos com que valesse a pena ser vivida.

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