Literatura

O falso feminismo de (alguns) romances

Chick lit é, em poucas palavras, um gênero literário voltado para mulheres livres, inteligentes e ousadas. É um gênero, à primeira vista, que explora o feminismo da primeira à última página. Seu objetivo maior é pura e simplesmente entreter, por isso mesmo a crítica costuma encarar esse gênero com um revirar de olhos cheio de julgamentos. Grandes exemplos de publicações do gênero são O diário de Bridget Jones e basicamente qualquer livro da Sophie Kinsella (Becky Bloom, Fiquei com o seu número, Lembra de mim?).

Bridget Jones

Para mim, entretanto, o problema do chick lit não mora no objetivo. Escrito por autoras, seus títulos retratam a vida da mulher moderna. Ela trabalha, estuda, ganha seu próprio dinheiro e, se já não for independente financeiramente, está a caminho de ser. Ela sai quando quer, bebe até cair se isso fizer da cena algo engraçado e tem um grupo fiel de amigas escudeiras.

Geralmente ela tem um passado traumático, que pode ser qualquer tipo de abuso (físico, psicológico, moral, sexual), e majoritariamente não está à procura de homens. E assim a vida dela segue da melhor forma possível: ela está dando o melhor de si, sendo forte, quebrando seus próprios tabus, até conhecer um cara.

De repente ela foi entrevistá-lo e tropeçou, caindo e perdendo a pose na frente dele. Talvez ela só estivesse comprando alguma coisa no mercado e, quando não encontra a carteira, o salvador da pátria está logo atrás (como ela quer devolver o dinheiro tanto quanto entes, eles trocam telefones e acabam saindo para jantar).

Talvez ela tenha batido o carro e não esteja conseguindo trocar o pneu no meio de uma baita chuva. Talvez eles tenham que trabalhar juntos e não saibam como fazer a dinâmica funcionar porque se odeiam com todas as forças — até que role o primeiro beijo, é claro. Na verdade, o jeito como se conhecem não importa, porque ele pode não ser rico, mas tem dinheiro para bancar tudo.

Aliás, é até bastante provável que o cara seja “só um cara comum”, que gosta mesmo é de colocar as mãos sensualmente calejadas na massa e seja o melhor mecânico da cidade, que tira uns dias de folga para dar um passeio por aí com seu barquinho simples e o cachorro babão.

No momento em que suas vidas se cruzam, eles casualmente se encontram em todo lugar. Se ela está meio reticente em aceitar o pedido de irem no barzinho tomar algumas cervejas, tudo bem, ele vai insistir até ela dizer sim — mas talvez seja bem sutil fazendo isso.

Talvez ele escute da amiga dela que ela já sofreu muito, então ele não pode fazê-la sofrer também. Determinado, o cara garante que nunca faria uma coisa dessas, porque sabe o que é melhor para ela, e o melhor com certeza é ele, independentemente dela concordar ou não.

No exato momento em que mocinha conhece mocinho, é bem comum que passemos a conhecê-la a partir da visão dele ou de algum amigo dele. A gente sabe que ela é linda porque ele ressalta isso todas as vezes, enquanto ela fala de si mesma como se fosse sem graça e não digna de amor ou atenção.

Inclusive, sabemos que ela é incrível porque como o amigo casado do cara poderia não dar um selinho na boca dela quando se vê diante de um “mulherão da porra” como aquele?

Ela é magra, de cabelos lisos e olhos marcantes, delicada até quando fala palavrão e seu jeito desastrado é tão fofo que claramente demonstra o quanto ela precisa dos cuidados dele. Ela pode ser a clássica cool girl, imagem tão bem apresentada em Garota Exemplar (Intrínseca, 2013). Essa mulher é tudo que nós fomos ensinadas a ser, e nos identificamos imediatamente com ela.

Mais que isso, cada elogio que o cara faz à ela é quase um elogio a nós mesmas. Nos faz crer que, solteiras ou não, somos especiais porque somos capazes de atrair a atenção de um cara que pode até pegar todas, mas vai nos ver como especiais. Nós vamos ser capazes de mudá-lo, com nosso jeito meio errado e tudo.

Essas mulheres são feministas. Ou melhor, elas “não são feministas, apenas justas”. Só que, quando estão sozinhas com o mocinho, reforçam que eles não precisam se preocupar: elas saíram com muitos, mas só foram pra cama com um, tá? E, quando os dois forem para cama, elas vão ficar sem graça porque não fazem sexo há muito tempo.

É até possível que falem o quanto acham difícil atingir o orgasmo, talvez até assumam que nunca conseguiram ter um. E é neste ponto que tudo se resolve em alguns segundos de uma masturbação que, bem, deve ser milagrosa.

E talvez nem precise dela, porque é senso comum o quanto uma boa penetrada pode solucionar o problema. O melhor sexo da vida dessas mulheres acaba em uma página que descreve mais uma rapidinha que uma boa cena de amor.

O livro se encerra com um e viveram felizes para sempre, podendo ser um casamento ou uma gravidez. Encerramos nossas leituras entre suspiros, acreditando que é exatamente isso que queremos para nós mesmas. Não falamos, mas nossa cabeça nos pergunta: teremos um dia um amor dessa magnitude?

O falso feminismo dos romances

Eu honestamente espero que não. O meu problema com o chick lit é que, depois de devorar tantos livros desse gênero, entendi o quanto ele explora uma imagem de falso feminismo. O protagonismo feminino está só na personagem principal ser mulher, pois suas opiniões, conceitos, vivências não pertencem a ela, mas à visão que um personagem masculino tem dela.

O companheirismo é tão falso quanto a história de amor: em algum momento da narrativa percebemos desculpas que impedem as protagonistas de andarem sozinhas para onde quer que forem. Pior, se elas eventualmente burlam essa regra, alguma coisa vai dar errado, comprovando que elas precisam o tempo inteiro da companhia masculina.

Elas não ganham tanto quanto os homens, seus trabalhos costumam ser mais artísticos porque exploram o lado das emoções, e, quando fortes e decididas, precisam pedir desculpas por serem quem são, acabando por serem moldadas naquela famosa versão de mulher a que a mídia ainda propaga como sendo a certa.

A versão que diz que somos dignas apenas se estivermos dentro do padrão, agindo de forma que não incomode ninguém, sendo frágeis e dóceis mesmo quando queremos ser fortes e lutar por nossos direitos, valores, rotinas. A versão que diz que somos dignas apenas se um homem for capaz de nos amar.

Os mesmos homens que, quando sabem que estes livros estão na lista dos mais vendidos, riem de quem os compra e minimizam. Os mesmos homens que, se as mulheres forem bem diferentes do que está descrito, julgam e classificam como boas para ir pra cama — e só.

Ainda hoje, estamos escrevendo, divulgando, publicando e lendo livros que propagam o machismo. Livros que reforçam um hierarquia de gênero que não deveria existir. E, se fica uma lição de anos de leitura, é para sermos um pouco mais críticas com o que estamos lendo (e escrevendo e publicando). Porque feminismo é uma luta e estamos, aos poucos e sempre, conquistando espaço.

Chick lit, dentre outros gêneros com situações similares, é uma ótima pedida para leituras descompromissadas, quando só precisamos de uma história de amor para relaxar, ficar bem, rir um pouco. E, mesmo dentro dele, é preciso escrever sobre mulheres reais e verdadeiramente livres, inteligentes e ousadas; que não se anulem frente a imagem de um homem, independentemente do quão perfeito ele aparente ser.

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