Séries

O que Atypical, nova série Netflix sobre autismo, traz de melhor e pior

O empenho da Netflix em produzir séries e filmes que tratem de assuntos até então jogados debaixo de tapetes é admirável e, francamente, necessário. O sucesso de Os 13 Porquês, série e livro sobre depressão, veio seguido do sincero O Mínimo para Viver, filme sobre anorexia. Ambos têm suas falhas, porém fazem questão de expor de forma honesta não só as duas doenças, como também a vida de todos que estão ao redor de quem as sofre.

De forma alguma acho que não passam de tentativas de idealizar cada uma das doenças, ainda que algumas pessoas pudessem ter entendido assim. E também não acho que foi isso que a Netflix tentou fazer (ou fez) com Atypical, uma série que me deixou receosa até começar a assisti-la. Assuntos delicados precisam ser falados do jeito certo, da forma certa, e acredito que isso foi muito bem feito nos três casos.

Certo, Hannah deixar treze fitas para os “responsáveis” — essas aspas são muito importantes — pela sua escolha não é exatamente a melhor das abordagens, assim como a terapia proposta para Ellen não corresponde ao que de fato se faz. Tornar o autismo um distúrbio quase fofo também não é a melhor opção, e é isso que Atypical muitas vezes acaba fazendo.

A empatia vem na forma de Sam (Keir Gilchrist) ser totalmente franco e direto, falar sobre como pinguins escolhem um ao outro de forma que vão ficar juntos pra sempre — own! — e não entender as nuances da língua; mas nem por isso deixar de tentar viver a própria vida. Com a ajuda da psicóloga Julia (Amy Okuda), ele entende que pode ter uma vida similar a das outras pessoas: ir para a escola todos os dias, enfrentar um ou outro adolescente fazendo piada com o que não deve e até ter uma namorada.

Tudo contribui para uma atmosfera quase aconchegante, e os recursos narrativos são perfeitos para atingir um humor do qual fica difícil escapar, mas deveria ser possível. É uma parcela do que O que me faz pular e Passarinha — ambos livros que trabalham a mesma temática — detalham de forma brilhante, mas com mais seriedade.

De qualquer forma, acredito que a série foi construída para atingir esse tom e consigo o aceitar bem. Acho, inclusive, que ela demonstrou de forma satisfatória o que é a vida de quem tem essas características. E aí vale entrar nas personagens secundárias.


Apesar dos meus esforços, a partir daqui foi impossível não citar alguns spoilers. Não leia se não quiser saber.

Zahid (Nik Dodani) é amigo de Sam e é o centro da comédia em seu tom mais descarado; é ele que encontramos em cenas que nos fazem revirar os olhos enquanto estamos rindo, porque é exatamente essa a forma de descrevê-lo na maior parte do tempo. Acho importante, entretanto, como ele não julga ou classifica Sam, realmente estando disposto a ajudá-lo como qualquer amigo faz um com o outro. Não sabemos quase nada sobre ele além disso, mas, pelo menos nesta primeira temporada, isso não fez falta.

Casey (Brigette Lundy-Paine) é a irmã mais legal do mundo. Ela está lá para o Sam e, mesmo que o centro da história toda naturalmente seja ele, tem sua própria vida e suas próprias dificuldades. A simpatia por ela é instantânea, e como não torcer para que ela consiga o melhor na corrida e no relacionamento que constrói com Evan (Graham Rogers)?

Como não citar os pais de Sam, Elsa e Doug? Bom, minha maior decepção veio na forma como foi escolhido trabalhar o casal. Claro, sabemos que nenhum relacionamento é perfeito, mas tenho minhas dúvidas sobre como tem-se escolhido trabalhar as dificuldades na maior parte dos livros, séries e filmes da cultura pop — prefiro inocentemente acreditar que não é apenas um reflexo da realidade, mas aí é papo para outro momento.

Consigo compreender que Elsa (Jennifer Jason Leigh, de Os Oito Odiados) não é vista como mulher há muito tempo. Ela assumiu a função “mãe” e isso praticamente se tornou quem ela é. Ela vive para os filhos, especialmente Sam, e as frágeis tentativas de se reaproximar do marido acabam em discussões. Claro, eles são companheiros quando o assunto é Sam ou Casey, mas parece que o relacionamento deles se resumiu a isso.

Doug (Michael Rapaport) por sua vez também não parece fazer grandes esforços, ainda que proponha uma ou outra coisa diferente ao longo dos oito episódios. Foi estabelecida uma rotina que eles basicamente seguem e, querendo ou não, parecem só não se importar com qualquer outra coisa. Em determinado momento, Elsa tenta falar sobre uma das suas insatisfações e Doug só faz descaso e segue com a própria vida.

Atypical

A solução mais óbvia e madura seria que ambos sentassem e conversassem, mesmo que não de forma tão delicada e tranquila assim. Uma das poucas séries que consegue demonstrar isso bem é This is us, que trata relacionamentos de forma madura, mesmo quando tudo está indo por água abaixo. O recurso narrativo aqui não se baseia em companheirismo, em dois adultos tentando resolver um problema e continuarem juntos porque, afinal [e não encontrei (outros) motivos para duvidar disso], se amam.

Em vez disso, Doug escolhe ignorar e fingir que tudo está bem enquanto Elsa procura em outro o que sente falta no seu dia a dia. Com Nick ela não se resume a uma função, mas é mulher. Nem Doug nem Elsa falam qualquer coisa, bastando-se em aproveitar os poucos momentos de bom humor que encontram (geralmente porque ela acabou de transar com o outro). É frustrante e me deixa extremamente desapontada, talvez mais do que uma série deveria. Falta mais que fidelidade, já que claramente era esse o acordo que o casal tinha, falta lealdade, amizade e honestidade.

De outra ponta, a insegurança a respeito do assunto é tão grande que temos ninguém menos que a própria terapeuta de Sam estragando um relacionamento aparentemente saudável porque tem “provas” de que o namorado estava saindo com outra. Para ela, a certeza era tão grande que confiar não foi uma opção.

O namorado em questão não aparece, apenas através de uma conversa pelo telefone (a qual não sabemos suas respostas), um bilhete ou flores que ele enviou e Julia recebeu. Acompanhamos, com distanciamento, o relacionamento do casal enfraquecer e nos resta esperar por um final feliz. E acho que é isso que a primeira temporada deixa para a possível segunda: a esperança de que as coisas se ajeitem — não com Sam, mas com todas as pessoas que estão na sua vida.

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