Revista

O que eu deixei de crescer quando fui

Quando criança, eu quis ser muitas coisas quando crescesse. Veterinário é a minha primeira lembrança, anterior até mesmo a de ser jogador de futebol. Provavelmente porque eu jogava futebol de salão (ainda não haviam gourmetizado para futsal) em clube e aquilo fazia parte do meu cotidiano. Mas eu gostava de animais, queria saber sobre eles e achava que podia ser feliz como veterinário.

Depois, veio uma vontade de ser astronauta. Sabe aquela coisa de viajar no espaço? Pois é. Também tive vontade de ser cantor, mas, para a sorte do mundo, durou pouco. Pensei em ser engenheiro, muito influenciado pelos blocos de montar (o Lego viria depois, mais ou menos com a chegada da era moderna).

Quis ser dono de supermercado, porque foi a brincadeira mais legal com a minha irmã por três meses. Professor de educação física também foi cogitado, assim como químico (depois de fazer muito “sangue do diabo” no laboratório químico juvenil). Por um breve momento, quis ser humorista ou motorista de ônibus. Sim, eu sei, nada a ver uma coisa com a outra, mas eu achava tudo muito legal.

Quis ser explorador de várias maneiras. Me imaginava na selva, descobrindo coisas, ou no fundo do mar, descobrindo outras coisas. Influenciado pelo Túnel do Tempo, queria viajar no tempo (sentadinho num DeLorean é para viagens nutellas, a viagem raiz era no túnel, caindo de mau jeito em algum lugar, sem sequer saber o ano). De tanto ir e vir (na minha imaginação) para épocas tão distintas, quis ser historiador. E devo estar me esquecendo de alguma coisa.

Na verdade, o tempo todo, aquele negócio de ser alguma coisa quando eu crescesse tinha ares de aventura. Não era exatamente eu, mas um personagem diferente em cada profissão escolhida. Tudo era fantasticamente fascinante e divertido. Assim, num determinado dia que eu não lembro qual foi, resolvi fazer uma história disso.

Eu era um veterinário e curava um leão que estava ferido.

Mas não era simples assim: o leão era um leão raro, que comandava todos os leões do mundo e que vivia num lugar muito difícil de se chegar. O caminho para lá era cheio de perigos e, depois, ainda tinha que convencer os outros leões a salvar o tal leão raro doente.

Contava a história para mim, enquanto usava os bichos de um zoológico de plástico para encenar o “roteiro”. Fui caprichando na história e, um dia, resolvi colocá-la no papel. Ficou um meio termo entre livro ilustrado e história em quadrinhos. Talvez tenha ficado um quarto de termo, porque eu não escrevia e nem desenhava bem. Mas foi a minha experiência com a escrita. E eu gostei. E passei a escrever (e desenhar, coitado) mais. E as histórias foram saindo, as aventuras vividas, as profissões realizadas.

Durante muitas décadas, não tive coragem de mostrar os meus textos. Alguns foram elogiados e até premiados na escola, quando foi inevitável apresentá-los. Tentava variar estilos, encontrar outras formas de contar as histórias, experimentar estruturas. Apenas uma coisa era (e ainda é) sempre do mesmo jeito: eu vivia (e ainda vivo) as aventuras e as emoções dos personagens.

Durante muito tempo, vivi tudo isto só para mim. No tranco e na terapia, passei a compartilhar as minhas outras vidas com os outros. No início, com receio da rejeição. Como a rejeição não foi tão forte, perdi o receio, o medo, a inibição. E passei a viver mais aventuras.

Hoje, quando olham para mim e dizem que não tenho astral de quem tem cinquenta e um anos, eu sei por que isto acontece. Descobri um jeito de ser atemporal. Os meus personagens podem ter qualquer idade, do mesmo modo que podem ter qualquer aparência ou podem viver em qualquer lugar ou tempo.

Posso ser o que eu quiser, quem eu quiser, onde eu quiser, quando eu quiser, fazendo o que eu quiser. Posso rir ou chorar, morrer ou dar a vida, sério ou divertido, pequeno ou grande. Posso ser o veterinário ou o leão. Até posso ser os dois. Arrumei um jeito de ser tudo o que eu queria (e ainda quero) ser quando crescesse.

Na verdade, fui e continuo sendo tudo o que quero ser através dos meus personagens. E, vivendo as suas histórias, o tempo não é mais linear. Parei de crescer quando fui (e continuo sendo) tudo o que quis. E as aventuras continuam.

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