Música

Paramore desmascara nossas personas, com seu novo hit Fake Happy

E aí? Já vestiu sua máscara da felicidade hoje?
Estamos tão habituados a fingir felicidade diariamente, que passamos a acreditar que a máscara que vestimos socialmente é de fato real. E não nos tornamos atores e atrizes tão talentosos por pura vocação, não. São anos de experiência e dedicação, desde que nascemos, que vão nos ajudando a construir uma persona cada vez mais eficaz e habilidosa.

Você TEM QUE ser leve! Você TEM QUE sorrir independente do caos interno que grita aí dentro! Você TEM QUE estar constantemente bem disposto e bem humorado independente do mundo externo e do que fizerem com você! São tantos “ TEM QUE” que existem por aí, que parece que a única solução que nos resta é acatá-los caso quisermos um espacinho pra nós no meio desse mundo “tão feliz”.

É claro que não tiro nossa própria responsabilidade pelo que acontece conosco. Ou melhor, pelo que a gente faz com o que fazem conosco. Sabe aquele papo de “os outros não são responsáveis pela forma que você escolheu reagir. Cabeça do outro, valores do outro X Sua cabeça, seus valores”?

Ok. Até concordo. Demorou anos e algumas experiências ruins para eu entender de fato que tem coisas que não tem sentido nenhum ficarmos remoendo, porque vamos apenas girar em círculos eternamente sem chegar a lugar nenhum e principalmente, sem conseguirmos realizar nosso sonho de fazer o outro mudar.

Contudo, acho que existe uma coisa que tem sido muito menosprezada hoje em dia. Uma coisa chamada responsabilidade emocional. Você certamente já ouviu aquela frase que ficou famosa por causa do Pequeno Príncipe, né? “Você é eternamente responsável por aquilo que cativas”!

Tudo bem. Sei que muitos dizem que o outro não tem culpa pelo fato da pessoa ter se sentido de determinada forma, pois cada um sente de um jeito e numa proporção diferente. Ou porque, se você foi cativado pelo outro foi porque você mesma permitiu isso. Enfim, são vários argumentos. Já ouvi dizerem até que o pequeno príncipe na verdade é um obsessivo doente, que precisa de terapia imediatamente.

Só que particularmente, não tiro nem um pouco a razão dele. Acho que assim fica tudo muito confortável. Todo mundo faz o que bem entender sem precisar ter o mínimo de preocupação com o sofrimento que causa no outro. Promete-se tudo, não cumpre-se nada. Fala-se mundos, mas tudo da boca pra fora, coisa de momento. E se o outro acreditou, problema é dele. Afinal, quem mandou levar a sério?

O problema da postura do “foda-se o outro” é que isso dá permissão para que não honremos nossa palavra e consequentemente, para que a honestidade seja completamente dispensada. Dessa forma, temos o aval para sermos cada vez mais egoístas e menos empáticos. Se colocar no lugar outro pra que, né!? “Fulano que é intenso e dramático demais…. Ai preguiça dessas pessoas sentimentais em excesso! Mas se fizer o mesmo comigo…. Aí vou querer cobrar”. Não é assim que a maioria pensa?

Pra não criar mais problema pro outro, é simples; Não prometa nada que não tem certeza se poderá cumprir. Não dê margem — por menor que seja — para que o outro crie qualquer tipo de expectativa se você ainda está em dúvida do que quer para si. E a regra mais importante de todas — Atenção! — Cuidado com absolutamente tudo que sai da sua boca! O que pra você pode ser só uma brincadeira irrelevante, pro outro pode significar tudo.

Por isso deixe claro quando estiver falando só por falar. Assim, evita que o outro passe mais tempo sendo obrigado a fingir felicidade falsa por aí.

Bom, mas voltando pra ela, essa tal de falsa felicidade; fico pensando o quanto somos condicionados a esconder o que sentimos mesmo em situações triviais do dia-a-dia. Em perguntas comuns como “Oi. Tudo bem?” ou “Como você tá?”, é considerado normal alguém responder “não!”?

Essa resposta só é aceita em grau de intimidade maior, mas ainda assim, com algumas ressalvas. Tudo pode estar desabando ao seu redor, porém a resposta de praxe — como manda a convenção social — é de que sim, está tudo maravilhoso! Na melhor felicidade do mundo! Mesmo que tudo não passe de uma farsa. E pra piorar ainda damos um sorrisinho de satisfação.

E isso fica visível não só nas atitudes do outro, mas também na nossa. Afinal, quantas vezes perguntamos se os outros estão bem por um verdadeiro interesse ao invés de por pura educação? E quando a resposta é negativa, quantos de nós ficamos sem reação? Tudo aquilo que foge do esperado nos assusta porque não sabemos como lidar.

O homem nasce tábula rasa e vai formando sua personalidade conforme for crescendo, de acordo com o meio no qual convive. A infância é a única época da vida que somos realmente livres, pois da adolescência em diante vamos sendo moldados por tudo aquilo que nos cerca. Quando chegamos na fase adulta, só tende a piorar. Nos tornamos reprodutores de pensamentos, ações e vozes alheias. Daí, nos questionamos: onde fica nossa individualidade e real felicidade?

Esquecermos de nós mesmos para agradar aos outros será que vale a pena? Por que é tão importante passamos por cima de tudo aquilo que estamos sentindo apenas para sermos visto como pessoas agradáveis ou por questão de falso status? Entupir nossas redes sociais de fotos e mensagens positivas quando o que realmente queremos naquele momento é se enfiar num buraco longe do universo, não é frustrante? Queremos enganar a quem? aos outros ou a nós mesmos?

Tem gente que diz que não se importa se aquilo que estão propagando aos ventos é verdadeiro ou não. O que interessa é a imagem que passam aos olhos dos outros e claro, o fator competição. Seres humanos sentem um prazer extraordinário em vencer uma competição mesmo que a vitória seja conquistada à base de mentiras. Entretanto, quem realmente ganha algo com isso não são os “fakes happily” das redes sociais. São as próprias redes e seus criadores que se alimentam dessa saga pela felicidade para lucrar mais e mais às custas de nós, meros peões nas mãos dos lobos.

Por um lado, o objetivo é nos autoconvencer de que estamos vivendo numa espécie de condado dos hobbits, rodeado por calmaria e leveza. Precisamos embarcar no personagem para criarmos uma ilusão que nos seja crível. Para quando sentirmos as primeiras pontadas de desânimo, tristeza ou desesperança, a saída de emergência seja entrar naquela história cor de rosa que nos contamos para não lidarmos com o que está acontecendo com a gente. Contudo, não se enganem, mascarar a dor seja lá com o que for, não passa de uma desculpa para não nos encararmos de frente.

Por outro lado, o fator ego e aprovação dos outros grita tão forte quanto. Queremos ser aplaudidos e aceitos por meio de likes e compartilhamentos e, mais do que isso, queremos que os outros nos invejem como nós os invejamos. Mas será que aquele que você inveja não está tão ou até mais infeliz do que você? Quem te garante que estão vivendo todo esse conto de fadas digno de um Grimm ou de um Hans Christian Andersen, mesmo? Você sabe como realmente se sentem por trás das telas?

Será que vale a pena seguirmos sorrindo, rindo de memes e fazendo piadas enquanto olhamos nossas redes sociais, mesmo quando estamos achando tudo uma bosta e o mundo superficial? Só porque é o que manda a regra de bom convívio social? Sei que temos muito medo da rejeição, não só dos outros como nossa também, já que não gostamos muito de nós mesmos quando estamos na merda. Passamos a nos ver como chatos, mal humorados, mal amados, amargos e aquilo que ninguém ousa assumir na nossa sociedade que enaltece tanto o “ser leve”: Pessoas “pesadas”.

Porém, o que mais pesa é como os outros vão reagir a essa nossa postura avessa a felicidade obrigatória. Pensamos que se nós mesmos não somos capazes de nos aceitar nessas condições, os outros muito menos. Diz a regra que ninguém quer alguém reclamando do lado. Pessoas assim são imediatamente isoladas do resto da população.

Portanto, é uma mistura de temores que não nos permitem ser verdadeiramente honestos com o que sentimos, pois isso equivale mexer não só com nossa autoimagem, mas também com a nossa imagem social.

Então, diante desse dilema, o que faremos?

Bem, pra mim, na dúvida seja sempre o mais honesto consigo mesmo.

S-E-M-P-R-E!

No final das contas, o que adianta ser “leve” se você sabe que lá dentro as coisas não são bem assim? E no fundo a gente sempre sabe. Sempre sabe.

Confira aqui a tradução da letra: https://www.vagalume.com.br/paramore/fake-happy-traducao.html

Estudante de Letras metida a astróloga graças (ou não) ao seu escorpião com ascendente em peixes e lua em aquário. Viciada em séries a ponto de se recusar a aceitar a "morte" de Lost até hoje. Precisa de injeções diárias de realidade pra não ser abduzida pela Terra do Nunca.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.