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Pela não romantização das Psicopatologias

Quando eu ainda era uma estudante do curso de Psicologia, notava o quanto era recorrente em redes sociais o uso de psicopatologias em ”memes”. Me perguntava se as pessoas que compartilhavam aquilo realmente sabiam do que se tratava. Era uma época estranha nos territórios virtuais onde ser “bipolar” era motivo de “orgulho”.

Tamanha ignorância ainda consegue me espantar mesmo após tantos anos…

Creio não ser a única profissional da área que não enxerga esses “memes” como uma romantização das psicopatologias mas sim como uma grande imaturidade e com ela, a grande necessidade de atenção tão típica nesses ambientes.

O que nos preocupa in extremis é como esse tipo de conduta pode afetar os indivíduos mais “influenciáveis”. Não é de hoje que a Psicologia atenta para os possíveis males causados pela influência midiática e hoje mais do que nunca, precisamos estar atentos não somente com o compartilhamento dos tais “memes” mas também com o que nós mesmos produzimos e publicamos.

A Internet não é terra de ninguém. Não deixamos de ser responsáveis por atos errôneos, atitudes ilícitas ou código verbal inapropriado. Desde o momento em que sou “ser virtual no virtual” não deixo de ser um ser social no social. Portanto, as regras continuam valendo – bem como as leis.

Não estou querendo dizer que postagens sobre a própria experiência deveriam ser proibidas mas que os autores precisam ter cautela com a maneira com que as expõem. “As palavras têm poder” como eu disse em outra publicação.

A falta de interpretação ou a má interpretação no ambiente virtual, não é novidade. Muito menos que são causadoras de mal entendidos bem como brigas – que muitas vezes chegam ao viés Jurídico tamanha problemática causada por um erro de entendimento ou de explicação.

Quando falamos sobre comportamento humano, não podemos deixar a Psicologia de fora. O embasamento científico é uma obrigação e não uma opção. Precisamos ter a consciência de que, as psicopatologias foram e são estudadas cientificamente portanto, não existem a partir de uma experiência pessoal. Nem suas nomenclaturas foram dadas ao acaso.

Tem quem confunda a ansiedade considerada normal dentro de padrões psicológicos e psiquiátricos com o Transtorno de Ansiedade (Ansiedade Generalizada) e esse é um erro gravíssimo diante de nossa sociedade atual onde um site de busca parece ter muito mais experiência do que um profissional da área da saúde.

Não é incomum nos depararmos com pessoas que dizem ter características de determinada psicopatologia após lerem alguma postagem aleatória e muitas vezes sem nenhum embasamento científico.

Para conseguirmos diagnosticar um paciente com esse ou aquele transtorno, precisamos de no mínimo 6/8 meses de análise só para construirmos um possível diagnóstico. Não é tão fácil como “se encontrar” em tópicos ou nos ”possíveis” sintomas descritos em imagens ou textos espalhados pela internet como muitos acreditam. Diagnósticos dependem de diversos fatores que são observados a cada sessão: desde a estrutura psíquica a qual o paciente pertence até os resultados dos testes psicológicos utilizados.

Não há nada de incrível em ser portador do Transtorno Afetivo Bipolar ou da Síndrome Mista de Ansiedade e Depressão ou de romântico nas diversas tipologias depressivas. Transtorno de Personalidade Antissocial (a famosa Psicopatia) não transforma homens em cavalheiros trajados á rigor como Hannibal Lecter ou em charmosos analistas forenses como Dexter. A Sociopatia não é só recorrente em homens.

A Delinquência não é uma característica de adolescentes mal educados ou de uma sociedade desigual. Esquizofrenia não é estupor artístico nem Transtorno Obsessivo Compulsivo é qualidade do signo de Virgem. Ciúme Obsessivo não é prova de amor nem a promiscuidade presente no Transtorno Borderline é de motivo Escorpiano. Fobia é sofrimento extremo e não medo racional. Pedofilia também é do Feminino. Vício não é falta de caráter.

Estamos em uma Era de “quebra de paradigmas” em sua maioria de visão corpórea e pouco (ou nunca) pautamos as psíquicas: se os meios de comunicação são capazes de “criar” um estranhamento e uma não aceitação do próprio corpo, eles também são passíveis de embelezar a dor das psicopatologias.

A Psicologia não é um jogo de questões de múltipla escolha, são anos de estudos científicos acerca do iceberg que é a psiquê. Apesar da premissa Lacaniana da “psiquê ser estruturada como uma linguagem”, esse “código linguístico” só é lido durante o processo terapêutico no setting terapêutico por um especialista.

O maior erro não está em publicar algo sem embasamento mas sim acreditar em tudo que se lê sem buscar fontes acadêmicas confiáveis que comprovem os fatos.

Por outro lado, temos os indivíduos tão narcísicos quanto imaturos que diante da repercussão de afirmações virtuais, sentem-se bem afirmando-se aquilo que não se é somente para “viralizar”, para ser conhecido, para ser visto.

Será que eu realmente preciso expor publicamente meu Eu mesmo que esse “Eu” não seja o meu? Qual teu faltante? Que angústia é essa que só cessa quando eu me deleito daquilo que eu nada sei? O que afeta tanto certas pessoas a ponto de se tornarem seu falso self (falso Eu)?

Diante dessas e de outras questões que surgem a cada dia de vivência virtual, atento para que vocês não se tornem falsas versões de si mesmos numa tentativa infantil de serem vistos por quem JÁ têm a capacidade de vê-los e de enxerga-los e de gostarem de suas reais versões.

Nós existimos pelo motivo que nos damos. Não se deem motivos tão fúteis enquanto a existência de vocês contempla detalhes tão complexos e únicos.

Na dúvida, busque ajuda com um profissional. A Psicologia possui diversas Escolas de Conhecimento. São diversas abordagens para acolher diversos tipos de indivíduos com diversos tipos de queixas – mesmo que não estejam explicitas. Conheça-te: ás vezes pouco nos conhecemos diante da imensidão de um vasto Eu.

Como diria Jacques Lacan: “a cura através da palavra“. Use-a com sabedoria, use-a em terapia. E verá que não há nada melhor do que sermos vistos como realmente somos. Principalmente vistos por nós mesmos.

Psicóloga Criminal, pós graduanda em Perícia Criminal e Toxicologia Forense, quase especialista em Serial Killers. Escritora por amor.

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