Críticas,  Literatura

Resenha | Philomena Borges: Azevedo entre o riso, o imaginário e o protocolo romântico

Por anos da vida acadêmica observei que nos debruçamos sobre livros clássicos, de autores consagrados e nos distanciamos dos livros — como dizer? — não-clássicos. Pensamos imediatamente em Machado de Assis quando alguém nos fala em “Dom Casmurro”, ou, em Clarice Lispector quando citam “A Hora da Estrela”, mas somos solapados pela memória quando nos citam aqueles textos escondidos no tempo, esquecidos pelo senso comum, ou ainda, abafados.

Seriam eles os erros que nunca deveriam ser mencionados ou seriam raros, escritos por mentes brilhantes, e que sequer foram descobertos? Então, decidi escrever sobre textos pouco conhecidos, ou como eu gosto de chamá-los os não-clássicos.

E como estreia escolhi o não-clássico “Philomena Borges”, de Aluísio Azevedo. Philomena Borges, textualmente, possui uma marcação dialógica com o Romantismo. Certas características românticas são bem marcadas e compassadas ao longo da obra.

Não conhecê-las pode torná-la mais interessante, já que algumas vezes, essa marcação torna-se pontual, chata e óbvia. A edição lida deste romance é de 1973 e possui a introdução escrita por Antonio Cândido, crítico literário, que sem dó, nos diminui quaisquer expectativas.

Ele comenta que Aluísio Azevedo percorria caminhos díspares na linha reta de sua vida enquanto escritor, e que possuía como dom saber enfileirar os seus livros (pasmem!) mais secundários. Exatamente aí, entendi que não havia muito a se esperar de Philomena Borges.

Cândido chama o livro de “decaída”, se comparado aos sucessos de Azevedo. Mesmo diante dessa “instabilidade criadora” do escritor e dessa essência “ascendente e descendente”, a produção possui detalhes singulares.

A trama é voltada ao casamento da jovem Philomena com o Borges, filho de português, quarentão, robusto, não à toa chamado de João Touro, e o mais importante à trama, um dos construtores mais ricos da Corte.

O casamento ocorre, ainda que ambos não se conheçam tão bem, afinal, na época, casamentos arranjados eram comuns de serem acordados e aceitos. Na noite de núpcias, para não concretizar o enlace, a noiva usa um ferrolho para impedir a entrada de Borges no quarto do casal. Borges passa a noite questionando-se por que Philomena fez tal coisa.

Assim como a peripécia realizada na noite anterior, o café da manhã é marcado pela sagacidade da moça que traz uma leveza própria da juventude. Philomena é original e genuína numa essência envolvida pelo véu da sensualidade, e convictamente forte.

Borges é a rispidez do homem que trabalhou a vida inteira e que se mantém numa zona de conforto entre a casa e o trabalho. Ambos dúbios, não em si, mas entre si. Eles são a contraposição de essências diferentes, mas nunca divergentes, e ganham ao longo dos anos uma sensível afinidade.

A leitura, e nisso concordamos eu e Cândido, é muito divertida. Há algumas passagens entre personagens principais e secundários que nos fazem “criar” a cena e rir dela como num teatro. As viagens do casal são uma tentativa de recriação imaginária de Philomena sobre os lugares e as cenas românticas detalhadas nos livros, e, também, uma recriação do próprio marido.

Os lugares lhe trouxeram alguma decepção, porque afinal, a moça não conseguia identificar a mesma riqueza de detalhes e belezas descritas nas cenas.

Philomena é e está entre a realidade e a fantasia, entre a ciência e a filosofia. Ela é o vigor de uma imprevisibilidade quase tresloucada. Na tentativa de diferir a realidade e o sonho, Schopenhauer, filósofo alemão, diz que o campo do sonho e da realidade não se diferem.

Philomena é essa intercessão em que um não anula o outro. Apesar do fracasso com os lugares românticos, ela obtém sucesso com o marido: ele muda inteiramente, criando-se um novo homem à esposa e à sociedade. Vestimentas, posturas e hábitos, nunca antes experimentados, tornam-se chaves da sua visibilidade social.

Observemos que a construção desse homem ocorre através de eventos comprados pela riqueza. Sabemos da contrariedade entre o Romantismo e o capitalismo, e ela é percebida no texto, justo quando as camadas e nuances de uma nova persona vão sendo atribuídas ao Borges.

Enquanto Philomena ancora a sua imaginação entre o campo onírico e o realístico, tornando-os um só, em paralelo, ocorre a construção do indivíduo através do capital, um individuo mais polido, e portanto, mais aceitável.

Borges era admirado pela força e pelo trabalho, mas sua inclusão dava-se por sua riqueza e bens. Após o casamento, Borges é incluído no grupo social por sua conduta e comportamento lapidados, numa espécie de construção aparente do status. O romance mostra a perspectiva capitalista que constrói e desconstrói, na ascensão e na decadência, incluindo e excluindo o indivíduo, a partir do capital.

Além dos recursos fez-se necessário um título. Os esforços de Philomena não são em vão, ela obtém o título de Barão de Itassu para Borges. O frenesi na obtenção do título recorda preceitos de uma ideologia de exclusão, na qual acredita-se que mais importante que o nome (indivíduo) é o elemento de determinação do status social anterior ao nome (como por exemplo, doutor).

Nenhum ser é mais importante que o poder outorgado à autoridade desse elemento anterior ao nome do indivíduo. Enfim, Borges torna-se em pouco tempo Visconde, não por ambição, mas por satisfação da mulher.

A dinamicidade da mulher confere dinâmica à vida de Borges. E assim, ele consegue ser o construtor, o aprendiz, o homem elegante, o viajante aventureiro, o titular de alta roda, o pobre falido, o atleta de circo, o falso índio, o empresário da mulher, o funcionário da Casa Imperial e o quase ministro. Aparece, inclusive, a figura do imperador. Figura que confirma como o poder da autoridade determina a vida daqueles que a cercam.

Azevedo chega a questionar a autoridade dada aos títulos comentando através de uma personagem que no Brasil o título confere poder inquestionável, mesmo aos idiotas, afinal, já não é necessário saber para ser, o ter já garante condição inquestionável à competência.

Recordemos que no início falamos sobre as marcas românticas do texto, certo? Cumprir o roteiro do gênero literário mostra um grande equívoco na realização dessa obra. Ao final, o desfecho lança mão da abordagem sobre a loucura e a morte, dois temas tão recorrentes do Romantismo europeu, mas que escapam à coerência da trama.

O divertimento ofertado durante o romance e bem conduzido pelos personagens e diálogos poderia ter sido poupado de um final — desnecessariamente — romântico. Enfim, Aluísio Azevedo optou por seguir o protocolo do roteiro exigido pelo gênero. Fato que pode decepcionar ao leitor, como, infelizmente, decepcionou esta colunista.


por Yasming Pereira, exclusivamente para Versificados

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