Literatura

Resenha | Pó de Lua, de Clarice Freire

Quando a Intrínseca anunciou o livro de Clarice Freire, admito que fiquei um pouco animada, mas nem tanto assim. Já conhecia a página do facebook (minha mãe me apresentou) e acompanhava as postagens, mas nem sempre me identificava com o que era escrito ou desenhado.

Entretanto, com essa onda de publicações diferentes — vide Destrua Este Diário e Eu Me Chamo Antônio — fiquei interessada em Pó de Lua. Não só pelo conteúdo, mas pelo cuidado da editora com o livro, o fato dele parecer um moleskine porque é onde a autora costuma escrever, ou as folhas serem pintadas de azul.

Mesmo a diagramação: com as informações da autora ao final do livro, os desenhos que às vezes ligam as páginas, e as páginas separatórias pretas com escritos brancos. Talvez não pareça grande coisa, mas experimente pegar o livro em uma livraria e dê uma folheada, notará que é totalmente diferente.

Como o normal nem sempre me agradou, pedi. E não tenho certeza se todo o conteúdo é inédito ou não, mas definitivamente me vi em todas as fases da lua. Por exemplo: “Quem sabe se juntarmos nossas dúvidas não formamos uma certeza”. A foto não pegou os coraçõezinhos, mas, bom, a frase é auto-explicativa.

Acredito que, em um relacionamento, ninguém pode ser uma metade que pede um complemento — mas, se estamos falando de incertezas, é diferente. A questão do ‘talvez’: talvez o namoro dê certo, talvez a gente se case, talvez a gente fique bem, talvez não. Se duas pessoas se amam, eu (inocentemente?) vejo os ‘talvez’ serem substituídos por certezas. Mesmo que seja enquanto durar.

Sei lá, é complicado explicar coisas assim, que a gente sente lá dentro e faz todo o sentido. Porque isso vem da experiência de cada um também, certo? Imagino que este livro, assim como tantos outros, seja mais ou menos impactante de acordo com o que você viveu, sentiu e pe(n)sou.

Senão isso, pelo menos você tem uma garantia de inspiração. Não sei vocês, mas quando leio uma série de poemas/poesias, quando paro fico criando minhas próprias mentalmente. Nunca as escrevi, depois de alguns minutos minhas rimas todas foram perdidas na memória. Foi inevitável fazer o mesmo depois de ler Pó de Lua.

PÓ DE LUA NAS NOITES EM CLARO

Livro Pó de Lua nas Noites em Claro

Diferentemente do primeiro livro de Clarice Freire, Pó de Lua nas Noites em Claro traz mais que apenas escritos e desenhos da autora. Eles ainda ocupam uma ou duas páginas, eles ainda são impactantes e fáceis de se conectar. Sem dúvida, eles ainda falam por nós.

A diferença é que, aqui, existe sumário. E o sumário é dividido em horas, indo de meia-noite às 5 da manhã. É, se formos pensar, uma proposta de madrugada com um livro na mão. Os desenhos recebem complementos com pequenos textos — apenas algumas frases — e os capítulos contam uma história.

O livro todo, aliás, conta uma história. Sobre noite, escuridão, amanhecer. Um tanto sobre descobrirmos a nós mesmos, um tanto sobre aproveitar os momentos de puro silêncio e aquele tico de mistério que o ar da noite carrega consigo.

Abri a gaiola do imaginário / então liberei os sonhos contidos. / Voaram com o vento por toda a casa / como se não fossem mais proibidos.

Em meio à história, ainda encontramos os Diálogos Insones, com os quais uma ou duas frases contam uma história nova, daquelas que a gente sempre tem e imagina ter logo antes de dormir.

É poesia pura, e exige um pouco de imaginação do leitor. Mais uma vontade de entrar, por alguns momentos, numa leitura diferente, que nos inspira e nos leva numa viagem. É fácil se ver nos escritos, fácil sentir aquele aconchego que um bom livro causa. Mais que isso, pra mim, foi um conforto e confronto.

Quando Clarice coloca em palavras “quem te visita na madrugada? E quem sai pela tua janela? […] Quem invade teus sonhos sem ser convidado?” é impossível não encarar a realidade que bate à porta e na correria do dia a dia a gente sequer vê.

Não te dei meus pedaços. / Nem minhas partidas. / Eu quis partir com você por inteiro.

Acho que Pó de Lua sempre foi isso: as entrelinhas que a gente encara todos os dias e nunca vê. O trabalho da diagramação continua tão impecável quanto no primeiro volume: ainda em formato moleskine, com páginas coloridas e folhas com boa gramatura.

É impossível não se apaixonar, não se apegar e não querer que o livro fosse só um pouquinho maior. Ele deixa saudade quando acaba e a certeza de que valeu a pena.


NOTA — ★★★★

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.