Revista

Podemos ser afinal?

Oi, prazer, eu sou novo aqui, acabei de nascer e ninguém me disse ainda como falar ou o que vestir. Não conheço regras, ninguém me programou, como que faz pra ser alguém? Posso ser lunático? Terráqueo? Posso flutuar em nuvens de pizza? Posso beber o algodão das montanhas de gelo? Me expliquem esse mundo, arranquem de mim meu inocente vazio.

Me moldem para encaixar nessa sociedade de vocês. Digam-me como me comportar, como andar, sobre que assuntos não devo falar. Afinal de contas vocês tem que me moldar não é mesmo? Ou devo expressar livremente meu espírito e o meu ser? Vocês prometem não se chocar? Vocês prometem não se surpreenderem com o que eu vou fazer?

Posso realmente ser eu mesma? Fico com um pouco de medo, afinal de contas, vocês são muitos, sofrerei condenações se não for capaz de me adequar, afinal de contas como devo viver para ser nesse mundo de vocês?

Engraçado propor o tema da identidade para alguém que teve sua formação acadêmica dentro da filosofia. Quem sou eu afinal? Fui inserida nessa realidade do zero, e de repente tive que fazer escolhas e assumir uma vida, muita responsabilidade, sempre responsabilidades!

Tive que seguir caminhos que foram moldando essa forma eternamente mutável, essa personalidade líquida e flutuante. Esse texto pode parecer confuso, mas começamos a existência como seres puros, que sonham, fantasiam, brincam com os sentidos e com a vida e isso vai sendo arrancado de nós a cada dia.

E ai lhes pergunto, o que sobra? Somos o que realmente somos? Somos na mais pura desenvoltura de nosso verdadeiro ser? Ou o mundo nos molda? Nossas atitudes, amizades, visões, fatos, nos modificamos desde o momento em que nascemos até a hora de nossa morte, para caber nessa realidade que estamos inseridos o tempo todo? Se for assim então, me questiono: Seriamos nós, nós mesmos?

Acho que vivo uma condenação, a de jamais ser capaz de fazer um texto sobre o que eu sou, ou, sobre o que são as pessoas a minha volta, por que afinal, o que é a identidade? O que é o ser?

Talvez a identidade pura, limpa, simples e verdadeira realmente não exista, se corrompa no nascimento e se perca ainda na infância, apenas vamos vivendo e nos identificando com a nossa realidade, criando conexões e desconexões simultâneas que nos moldam dia a dia de uma forma diferente, então a descrição do ser perde totalmente seu sentido, somos e ao nos definir já não somos mais, somos algo novo. Então afinal de conta, o que somos nós se não uma eterna tentativa de encontrar uma resposta?

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