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Crítica | Porque Trama Fantasma não é tão ruim quanto você pensa

Fui ao cinema assistir Trama Fantasma com certo receio. Do trailer, eu já não tinha entendido muita coisa: qual era o ponto alto do filme? Sobre o que ele falava? O que aquele possível relacionamento poderia ter de extraordinário?

Além disso, as críticas do boca a boca não eram otimistas. Basicamente, as pessoas ao meu redor se dividiam entre: não ter entendido nada do filme e achar que se tratava única e exclusivamente de um relacionamento abusivo. É claro que em tempos de forte militância é difícil ver além disso – mas, acredite, vale a pena.

A narrativa de tantas reviravoltas me exigiu mais de uma conversa e duas leituras (e alguns vídeos) para entender os dois pontos da história. Para mim, é impossível esmiuçar o filme diante de todas as entrelinhas, portanto focarei em uma: o relacionamento entre Reynolds Woodcock e Alma.

A primeira coisa a ser notada é que, notoriamente, este é um filme que expõe um relacionamento abusivo de ambas as partes. Ele, absolutamente controlador, metódico e perfeccionista, encontra nela uma musa – alguém capaz de inspirar toda a sua criação artística voltada para moda, algo que é tão relevante para ele que carrega desde antes de os nove anos de idade e em cima do qual pauta toda a sua vida.

Ela, por sua vez, encontra nele um ponto focal de admiração que se desenvolve para um amor que, a princípio, ele não pode dar. Afinal, nas suas próprias palavras, Woodcock é um solteiro convicto e não vai abrir mão disso em nome de se tornar algo que não é.

Com a rotina dos dois, uma rotina na qual sexo não tem relevância se comparado ao que ela pode oferecer ao trabalho dele, Alma reforça seu espaço frente a qualquer mulher que apareça.

spoiler alert

Apesar do rosto inocente e o sorriso quase tímido, ela é uma força de determinação e não aceita menos do que quer, tornando-se extremamente possessiva e fazendo o que estiver ao seu alcance para conseguir a atenção dele. Tudo isso sem levar desaforo para casa.

O interessante é que, ao mesmo tempo que ela aprecia o lado forte dele, deseja vê-lo caído e precisando única e exclusivamente dela. É seu ponto de relevância e, como diz Isabela Boscov na sua crítica para a Veja, faz dele seu “próprio objeto criativo”.

Algo perceptível no próprio olhar de Alma, interpretada por Vicky Krieps (de Anônimo, 2011), que se mostra totalmente diferente no primeiro encontro dos dois, quando ela é apenas uma garçonete, e nos momentos finais, com a certeza de que ele está preso à ela independentemente do que acontecer.

Um amor tão doentio que, aliás, ela não está exatamente preocupada se ele vai morrer ou não diante das suas artimanhas para mantê-lo sob (seu) controle. Um amor tão doentio que, ao se ver diante dessa absoluta falta comando, Woodcock (interpretado por Daniel Day-Lewis) vê uma possibilidade de se reinventar.

Filme Trama Fantasma

Percebe-se, então, que o relacionamento entre eles não é uma questão de querer estar junto pois um aprecia a companhia do outro ou qualquer outra concepção que podemos considerar aceitável de amor. É suprir necessidades que tem mais a ver consigo mesmo do que com quem se está.

E é aí que o filme é brilhante. Sua proposta não é nos fazer suspirar pela belíssima história de um homem rico que se apaixona por uma mulher não-privilegiada como tanto vemos em romances de época. Sua proposta é, em palavras simplistas, explorar o interesse próprio diante de toda complexidade do ser humano.

Tendemos a achar que Woodcock é quem está no controle de todas as situações, e nos custa um tempo perceber que foram as mulheres que determinaram seu passado, que sustentam o seu presente e controlam o seu futuro – inclusive quando ele vai estar doente, como será o tratamento e o que ele terá direito neste meio tempo.

Há uma relação de poder que segue ciclos, e a liberdade de escolha é totalmente questionável em meio a silêncios torturantes, uma trilha sonora instrumental incrivelmente bem-feita e interpretações excelentes.

Trama Fantasma não é, claramente, um filme para se ver esperando amor; mas espere manipulação, personagens bem construídos e se prepare para quebrar a cabeça tentando compreender a dinâmica entre os dois. Lembrando que entender passa muito longe de concordar e aceitar.

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