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A quem iríamos recorrer se não existisse a arte?

Você sabe como é se sentir um deslocado em todos os lugares no qual entra? Você sabe como é carregar um vazio que insiste em não te abandonar? Você alguma vez já conheceu a dor da rejeição, da solidão ou de como é se sentir sem rumo?

Se você, infelizmente, entende do que estou falando, a arte também pode servir pra você como um refúgio que te faça se sentir acolhido mesmo que apenas por alguns instantes.

Além de nos proporcionar uma fuga, mesmo que momentânea, de nossa realidade para qualquer outro lugar, universo ou dimensão que nossa imaginação nos levar; a arte ameniza nossa solidão a partir do momento que sentimos empatia e criamos um elo com pessoas que só existem na ficção.

Às vezes conseguimos nos identificar mais com personagens do que com pessoas que convivemos diariamente, pois conhecemos os primeiros mais profundamente que os segundos.

Sabemos o que criaturas fictícias pensam e sentem 24 horas por dia e até como agem quando não tem ninguém por perto, mas nunca poderemos saber o mesmo de pessoas de carne e osso, que ao mesmo tempo que estão tão perto de nós, estão tão distantes.

Por isso que é normal nos apegarmos aos personagens de séries, filmes, livros, que gostamos. Passamos tanto tempo de nossas vidas acompanhando suas histórias e consequentemente, todos seus sofrimentos, alegrias, desesperos e reviravoltas, que fica impossível não criarmos uma conexão profunda com eles.

Quem nunca sentiu a dor da perda de um personagem nem chorou a “morte” de uma série ou saga, não conhece o prazer de viver uma obra de arte até seu limite. Dedicamos tanto tempo de nossas vidas a ela, que quando termina parece que uma parte nossa morreu junto, como se nada fizesse mais sentido. Só resta o vazio.

Vazio este, que precisará ser preenchido com outras histórias, outros dilemas, outros universos, enfim, com mais arte.

Contudo, mesmo assim, nenhum vazio pode ser preenchido por completo. Cada obra tem sua particularidade, logo, cada uma te marca de uma forma específica e deixa saudade por motivos particulares. Nenhuma obra de arte substitui a falta que a outra te faz.

Ainda tenho um vazio deixado por Lost, outro deixado por Dexter, e milhares de outros vazios deixados por todas as histórias que tive o prazer de acompanhar e me permiti ser envolvida.

Tenho um carinho eterno por todas as novelas, livros, séries e sagas que já li ou assisti, porque sem elas, com certeza eu não seria a mesma. Afinal, quem seria eu sem todas as lições impregnadas nas obras de arte que já tive contato? Como suportaria algumas fases da vida sem o sossego, conforto e escapismo que só a arte podia me proporcionar?

A quem iríamos recorrer se não existisse a arte?

Chega uma hora, que a trajetória dessas criaturas oriundas de mentes brilhantes e criativas (e um pouco incompreendidas, em sua maioria) passa a fazer parte de nossa trajetória também. Até o esperado momento no qual as duas vidas, fictícia e real, se entrelaçam, formando uma só. Não sabemos mais quem somos nós e quem são apenas personagens. A pessoa se transforma em persona e a persona se transforma em pessoa.

Onde termina nossa linha da vida para começar a vida de seres que nunca esbarraremos em nenhuma esquina do nosso universo metido a real, mas encontraremos sempre que nos permitirmos mergulhar em nossa imaginação? Afinal, a arte que imita a vida ou a vida que imita a arte?

A maioria dos episódios de Lost começavam com um personagem abrindo os olhos para mostrar que aquela história seria apresentada ao telespectador através do ponto de vista daquele personagem específico.

Então, dessa forma, o público também enxergaria aquelas cenas com olhos que não são dele, exercitaria a empatia ao ser estimulado a se colocar no lugar do outro, julgaria menos aquilo que não conhece, entenderia as motivações alheias e principalmente, que pessoas são produtos de toda bagagem de vida que carregam (quanto mais pesada, mais difícil de nos libertarmos dela). Portanto, é preciso, antes de tudo, sensibilizar para conseguir transformar o que quer que seja.

E qual o papel da arte, independente de como se manifesta, se não esse? Não importa de que tipo de arte estamos falando e nem se é oficialmente considerado arte ou não. Seja arte da favela, da zona sul, acadêmica, popular, clássica, cult e rebuscada ou teen, pop e de “modinha”, se te emocionou de alguma forma e te fez refletir sobre algo, deve ser valorizada como arte sim.

Esquece as classificações e regras acadêmicas do que deve ser aceito ou não como arte.

Conseguiu te tocar? Mexeu com o seu inconsciente e com um lado seu que estava adormecido há tanto tempo que você mesmo não sabia mais que existia? Te fez crescer como ser humano? Se sentiu renovado e mais consciente dos seus erros? Te serviu como um abrigo seguro para os dias que a vida aperta e as pessoas ao redor parecem endurecer?

Te fez se sentir acolhido, com a sensação de que naquele instante você não está mais sozinho, pois tem alguém que te entende em algum canto do mundo? (lembre-se que criações podem não ser reais, mas as mentes por trás delas são de carne e osso como a gente). E por último e mais importante; te fez voltar a sorrir e acreditar na vida mesmo que por poucas horas?

Se você respondeu sim para pelo menos uma dessas perguntas, então, não tem saída. Aquilo que você leu, viu ou ouviu é arte e não tem discussão. O resto é mero preconceito. E preconceitos não têm valor.

No final das contas, a única coisa que realmente interessa, é aquilo que te faz sentir.

Estudante de Letras metida a astróloga graças (ou não) ao seu escorpião com ascendente em peixes e lua em aquário. Viciada em séries a ponto de se recusar a aceitar a "morte" de Lost até hoje. Precisa de injeções diárias de realidade pra não ser abduzida pela Terra do Nunca.

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