Críticas,  Literatura

Resenha | A Breve História de Sete Assassinatos, de Marlon James

A Breve História de Sete Assassinatos traça um enredo que se estende dos anos 1970 até os anos 1990 numa trama que, ao contrário do título, não é nada breve e que descreve muito mais que sete assassinatos.

Tomando como ponto de partida o antes e o depois de um atentado contra a vida do cantor Bob Marley, em 1976, nas vésperas de um show pela paz na Jamaica, inicia-se um mergulho de proporções gigantescas em diversos contextos: da espionagem e do esforço anticomunista nas Américas, das favelas jamaicanas e da violência do crime organizado no país, da pobreza e do racismo institucionalizado e das relações profundas do reggae, Rastafarianismo e os rumos políticos no país insular.

Jamaica, Guerra Fria, racismo e drogas formam uma história embalada ao ritmo do reggae, mas pelo seu peso político e cultural e não pela referência estereotipada do rasta que vive despreocupadamente entre tragadas de um cigarro de maconha com a cabeça nas nuvens, sonhando sobre paz e unificação dos povos do planeta.

Estereótipo esse que é descontruído e demolido rapidamente, quando os efeitos da popularização do Rastáfari (ou Rastafarianismo), por meio do sucesso do reggae de Bob Marley e tantos outros intérpretes se fazem sentir no resto do mundo e se transformam no mais novo fetiche de consumo das classes médias e abastadas de jovens brancos e hippies.

O Rastáfari aqui é retratado como mais uma das tradições que o Homem Branco, o WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant), esvazia e transforma em delírio consumista, uma tendência, uma nova moda.

Essa é uma história sobre usurpação. Usurpação da cultura de um povo, usurpação de seus direitos, oportunidades, escolhas e de sua própria identidade. Esse contexto estabelece relações entre personagens que tentam desesperadamente, cada uma à sua maneira, encontrar o seu quinhão no mundo.

Digladiam-se umas com as outras, violentam, roubam, matam, morrem, prostituem-se, afogam-se em turbilhões de sentimentos, emoções e turvam-se em drogas e outros prazeres viciosos. E no fim do dia, o que a maioria dessas personagens quer é o direito de existir, ser alguém em um mundo que constantemente empurra-as em direção ao esquecimento e a marginalização.

É certamente uma história sobre assassinatos, porém, mais do que isso, é uma história sobre vidas desfiguradas por uma realidade que não perdoa e não permite esquecer. Um livro denso, porém muito bem escrito, com personagens excelentes e bem desenvolvidas.

Fica aqui também uma parabenização ao excelente trabalho de tradução que esmiuçou muito bem os modismos e maneirismos jamaicanos e dos outros idiomas apresentados.


Por Lucas Nobrega Lopes
exclusivamente para Versificados


Nota ★★★★★

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