Críticas,  Literatura

Resenha | A Forma da Água, de Guillermo del Toro e Daniel Kraus

Guillermo del Toro é um dos “sonhadores” mais prolíficos da atualidade, o que se provou ser verdade em seu último longa, A Forma da Água, da 20th Century Fox. Seu surrealismo fantástico assumiu forma única em suas produções cinematográficas, das quais se destacam O labirinto do Fauno e Caçadores de Trolls, além da produção de Festa no Céu.

Existe um elemento sempre presente em suas histórias: princesas. Suas princesas, porém, vão além do arquétipo clássico. São mulheres “normais” cujo desenvolvimento ao longo da trama é contrastado com elementos fantásticos. É justamente na fronteira entre o normal e o dito impossível em que os sonhos e as fábulas tomam forma.

A Forma da Água é mais uma dessas histórias brilhantes de del Toro em parceria com o autor Daniel Kraus – parceria essa que, vale lembrar, está gerando conteúdo exclusivo para a Netflix de Caçadores de Trolls. O livro transporta os elementos presentes na produção cinematográfica para as páginas, com alguns adendos. É como assistir ao filme com comentários do diretor, mais especificamente com uma visão privilegiada das personagens.

A Forma da Água
Cena do filme A Forma da Água

O livro conta a história de Elisa, uma mulher cuja voz foi roubada quando ainda jovem, nunca conheceu os pais e viveu uma vida de constante humilhação e opressão. Ainda assim, nunca abriu mão dos pequenos prazeres de sua vida, como o hábito de colecionar sapatos e sua grande admiração pelo cinema.

Elisa é servente em um laboratório secreto do governo norte-americano completamente voltado para projetos experimentais. Tudo muda quando ela e sua companheira de trabalho, Zelda, são designadas para a tarefa especial de limpar o laboratório em que o taciturno Coronel Strickland mantém aprisionada sua mais recente conquista:

Uma criatura aquática macho. Quase sendo um “Deus amazônico” sobre o qual pouco entendem, pouco conhecem e com quem pouco se relacionam. Afinal, Strickland admitir que está frente a frente com algo que não compreende é, por si só, um desafio.

“Ali era um lugar onde a fantasia superava a vida real, onde era escuro demais para ver cicatrizes e o silêncio não era apenas aceito, mas imposto.”

Elisa, tomada pela curiosidade, acaba por conhecer a criatura e, com o tempo, decide desvendá-la. São os pequenos cuidados, o carinho dos mais simples gestos que, eventualmente, os conectam, desenvolvendo neles uma afeição inexplicável. O amor toma forma.

O mérito da obra é aprofundar os dilemas éticos e pessoais apresentados no filme. Se, no cinema, somos guiados pelas expressões e ações das personagens, no livro somos mergulhados em seus sentimentos e pensamentos mais profundos.

Da desumanização de Strickland à libertação de Elisa, A Forma da Água com certeza é uma jornada interessante para aqueles que querem desvendar ainda mais as nuances desta fábula moderna.


NOTA ★★★

crítica por Lucas Nobrega Lopes, exclusivamente para Versificados

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