Críticas,  Literatura

Resenha | Deuses Americanos, de Neil Gaiman

Shadow está preso, com os dias contados para finalmente reencontrar a liberdade. E ele tem um plano: encontrar sua mulher, Laura; voltar ao emprego que seu amigo lhe garantiu e levar uma vida tão normal quanto possível. E tudo caminha para isso até que Shadow recebe a notícia de que será liberado um pouco antes…

…Porque sua mulher morreu em um acidente de carro. Seu melhor amigo também. E, se formos ser um pouco drásticos com aquele pé na realidade, seus planos também. Sem o futuro (quase) brilhante o aguardando e ainda sem exatamente acreditar no que aconteceu, Shadow está voltando para casa quando encontra um homem que insiste em contratá-lo.

Wednesday é seu nome, um homem de sorriso fácil que parece não dizer nada. O trabalho é simples: não perguntar muito, fazer exatamente o que é mandado e, se necessário, enfrentar uma ou outra pessoa. Shadow não está muito disposto a aceitar, mas a verdade é que, após o enterro de Laura, essa até parece uma proposta razoável.

— … Que caminho você deseja seguir: o das verdades difíceis ou o das belas mentiras?
Shadow hesitou.
 — Verdades — respondeu. — Já cheguei longe demais para ter apenas mais mentiras.

É assim que ele parte em uma viagem pelos Estados Unidos que tem muito pouco do conceito de “normal”. A primeira coisa que entende, assim como nós, é que uma tempestade está a caminho. E será grande. Wednesday fala sobre uma guerra entre os deuses de ontem (aqueles sobre os quais gostamos de ler) e os de agora, que poderiam ser resumidos como “deuses do materialismo”. É, basicamente, uma guerra entre crenças e realidade/adoração.¹ A questão é que tempestade está chegando, quiçá já começou, e promete não poupar ninguém.

É nesse contexto que mitologia e realidade se encontram em personagens extremamente bem desenvolvidos. A narrativa dá dicas sobre quem é quem e qual a função que desempenha na história, ainda que sejam sutilezas que muitas vezes passam desapercebidas. Por isso mesmo acredito que seja um livro que permite algumas releituras, cada uma capaz de nos fazer descobrir ou perceber algo novo.

São detalhes que, no conteúdo extra, o tradutor Leonardo Alves tira umas poucas páginas para explorar superficialmente — ideal para quem, como eu, não conhece tanto assim do assunto, mas fica curioso. É ali que ele também fala sobre algumas das dificuldades na tradução, e como escolheu resolvê-las. É bem interessante ver esse pano de fundo para o processo talvez mais básico de um livro como este.

Ele se perguntou se casa era uma circunstância que acontecia depois de algum tempo em um só lugar, ou se era algo a ser encontrado depois de uma quantidade suficiente de andança e espera e vontade.

Neil Gaiman mais que mistura as mitologias, ele cria versões de deuses de outras culturas. É uma história sobre raízes culturais e imigrantes, entendendo que os deuses citados ao longo da narrativa tomam formas diferentes quando estão na América já que são moldados pelas crenças e o culto daquela região (no caso, os EUA).²

Com uma escrita fluida, os capítulos um pouco mais longos não interferem no ritmo de leitura. Ainda que eu de fato tenha sentido que lia devagar, os capítulos não eram maçantes, mas interessantes do início ao fim. Shadow é uma personagem particularmente boa porque, diante de todas as circunstâncias, ele até é curioso, mas aceita a situação que escolheu e se conforma em ficar muitas vezes na escuridão.

Isso faz com que muitas coisas apareçam bem aos poucos, o que não se torna inquietante ou ruim porque a narrativa não fica estagnada: sempre tem alguma coisa acontecendo com alguma personagem. Detalhes do início do livro reaparecem no meio e criam a situação perfeita para o final, deixando o livro tão interligado que é impressionante como nada se perde.

Admito que Deuses Americanos não era uma leitura que eu faria de imediato, que só peguei para ler porque me foi recomendado antes de assistir a série. E essa, sem dúvida, foi uma escolha acertada: é um livro popular e literariamente brilhante.


NOTA ★ ★ ★ ★ ★
¹ é uma espécie de reflexão acerca do fato de que deuses velhos deixam de existir, ou ficam fracos demais, quando não habitam mais o imaginário das pessoas e deuses novos surgem quando as crenças das pessoas canalizam e dão energia pra que eles existam. São coisas do imaginário e da história do desenvolvimento dos EUA enquanto país.
² vide comentário abaixo.


Essa resenha foi escrita com a ajuda de Lucas Nóbrega Lopes que, ainda bem, foi muito além da interpretação básica do livro. Os comentários acima são cortesia dele.

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