Guerra do Velho
Literatura

Resenha | Guerra do Velho, de John Scalzi

Após muitos avanços tecnológicos, as viagens interestelares são possíveis. Foi-se descoberto que existem muitos outros planetas totalmente passíveis de serem habitados por seres humanos e que, na verdade, não somos mesmo a única espécie inteligente no universo. Diante disso, é inocente pensar que todas essas espécies e a nossa vivem em plena convivência pacífica.

É por isso que existem as Forças Coloniais de Defesa, na qual homens e mulheres podem escolher se alistar a partir dos 75 anos. Você não leu errado: é preciso ter, no mínimo, 75 anos para poder fazer essa escolha. Com a morte batendo à porta e um passado de lembranças, não é tão surpreendente a quantidade de homens e mulheres que optam exatamente por isso.

Bem, sabe, sinto falta da minha mulher. Mas também sinto falta da sensação de, sei lá, conforto. Da sensação de que você está onde deveria estar, com alguém com quem deveria ficar.

Fora isso, há uma ideia subentendida: como velhos, eles não poderiam de fato estar em alguma guerra — não são mais tão fortes e ágeis quanto foram antes, portanto seus tempos de luta seriam ínfimos; logo, é fácil concluir que, seja lá o que for acontecer com eles, será o bastante para os deixarem pelo menos um pouco mais jovens.

É assim que a escolha é sustentada, partindo para o desconhecido (ninguém sabe nada sobre as espécies, os modelos de sociedade e de que guerra estão falando) e deixando tudo e todos que conhecem para trás. É essa a escolha de John Perry, e de outros como Jessie, Thomas, Harry, Susan, Maggie, Alan, que, juntos, formam Os Velharias, um grupo que fica unido mesmo quando são separados, cada um para sua unidade de trabalho.

Parte do que nos faz humanos é o que significamos para as outras pessoas e o que as pessoas significam para nós.

Guerra do Velho é um livro que superou todas as minhas expectativas. A primeira coisa sobre a qual preciso falar é a escrita: John Scalzi tem muita coisa para explicar e desenvolver, e faz isso de forma brilhante com uma escrita clara, que conta o essencial, com pitadas de humor irônico e que não se prende em situações, conversas, espaços que não são importantes para a construção da história.

Segundo que suas personagens são ótimas. Por ser narrado em primeira pessoa, naturalmente nos envolvemos mais com a história e passado de Perry, mas é impossível não se apegar a Harry, Thomas, Jessie e, especialmente, Alan.

— Como é perder alguém que se ama? — perguntou Jane.
— Você morre também — respondi. — E espera que seu corpo um dia entenda.

É verdade que há poucas personagens femininas, e chamo atenção aqui para Jane, que equilibra muito bem a força impressionante de uma mulher pronta para a guerra com os questionamentos e quilos de emoção que pertence a todos os seres humanos (não, homens não têm seus sentimentos abafados), e Kathy, que de forma alguma é uma personagem a ser desenvolvida, fazendo parte das memórias, mas se mostra de forma forte.

Achei particularmente impressionante como foram desenvolvidas as outras espécies. Não temos detalhes delas além do essencial sobre sua aparência, mas seus costumes e objetivos como sociedade são contados de forma fluida ao longo da narrativa — e nos deixa intrigados sobre o que está por vir.

Apesar de contar com uma continuação, lançada recentemente, é um livro muito completo em si mesmo, não deixando muito espaço para perguntas sem respostas ou considerações desnecessárias. Uma leitura que foi muito melhor do que eu esperava, e valeu cada página.


NOTA ★ ★ ★ ★ ★ ❤

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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