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Resenha | A sutil arte de ligar o f*da-se, de Mark Manson

Sempre tive muita certeza de quem era e o que queria para a minha vida — passei a adolescência expressando essas certezas com frases e palavras marcantes, até perceber que isso mais limitava que libertava. E, quando fiquei perdida, criei novos significados e entendi quais valores seriam norte para o meu dia a dia e futuro.

Foi tentando seguir à risca esses valores que acabei caindo em outro problema: viver dentro da minha concepção de perfeição tornou muito mais difícil ser humana. Minha autocrítica triplicou e querer estar certa me fez mais triste, estressada, capaz de sentir uma raiva extraordinária de mim mesma e refém do sentimento de que não sou boa o suficiente.

Mas por que estou falando tudo isso? Bem, porque:

“A enxurrada do excepcional faz as pessoas se sentirem menores, as faz sentir que precisam ser mais extremas, mais radicais e mais autoconfiantes para serem notadas ou terem valor.”

A sutil arte de ligar o f*da-se não está aí para falar que você é maravilhoso e incrível, único e especial, portanto pode ficar tranquilo que o mundo que não está compreendendo sua grandiosidade.

Ele está aí para te ajudar a entender um pouquinho mais sobre si mesmo, que a responsabilidade é toda sua e que só você pode mudar sua história. Parece lógico e óbvio, não é? Mas esquecemos constantemente disso quando ficamos presos em nossos próprios ciclos viciosos negativos.

Mark Manson não te dá um passo a passo que visa aumentar um pouco seu ego e trabalhar sua autoestima em cima disso. Aliás, ele não te dá passo a passo nenhum; mas coloca seus pés no chão e traz para a realidade: há muitos como você, que pensam a mesma coisa que você, sentem-se da mesma forma e tem os mesmos problemas.

“Eu tenho uma notícia boa e uma ruim para você: seus problemas são bem pouco originais e especiais. […] Há uma espécie de egoísmo que acompanha o medo, e ele é baseado numa certeza irracional. […]”

Lembra de todas as vezes que você começou uma frase com “só eu que…”? Bom, a ideia é exatamente acabar com isso porque não é só você. Para Mark, essa concepção cai em puro narcisismo. E isso vale para qualquer situação, até mesmo para medos como o de acharem que o seu projeto é idiota.

Narcisismo porque “você sente que os seus problemas merecem ser tratados de forma diferente, que os seus problemas têm uma característica única que não obedece às leis do universo”. E, honestamente, não é um pouco assim mesmo? E até ficamos um pouco chateados quando cortam nossa reclamação para falar que tal coisa acontece com todo mundo?

É ainda falando sobre problemas e nossa visão sobre eles que Mark explora um pouco mais o conceito de culpa vs responsabilidade. Algo que eu, por exemplo, sempre juntei no mesmo conceito.

A ideia é simples: você não tem culpa pelo que fazem de e com você — se é demitido, se optam por terminar um relacionamento ou se sua saúde não está uma maravilha — , mas é responsável por você mesmo. É responsabilidade sua escolher entre ficar parado reclamando ou tomar uma atitude e fazer algo por você mesmo.

Isso nada mais é que a forma de ver os problemas, o que não significa ser otimista o tempo todo. Pensar “o mal veio para o bem” pode ser ótimo, mas não vale a pena usar essa lógica para evitar sentir tristeza, angústia ou qualquer outro sentimento ruim. Aliás, evitar as coisas ruins que fazem parte da vida é nunca deixá-las ir. Sem encarar as situações de frente, apenas nos tornamos refém delas.

“Nossos valores determinam o parâmetro segundo o qual avaliamos as outras pessoas e nós mesmos. […] Se você deseja mudar sua forma de ver os problemas, precisa mudar seus valores e/ou sua forma de medir fracassos e sucessos.”

A sutil arte de ligar o f*da-se nos tira da zona de conforto porque nos leva a lidar conosco de formas que não são agradáveis. Nos faz pensar em como medimos nossos sucessos e fracassos, e o quanto isso tem a ver com a forma que nos vemos e com quem estamos nos comparando.

E faz isso em um tom direto, totalmente sem enrolação, e com um humor que permeia todos os capítulos. A proposta nos leva a diferenciar sentimento e realidade a fim de que seja possível mudar nossa perspectiva e tornar a vida pelo menos um pouco mais fácil.

Porque, mesmo que tudo esteja uma merda, isso certamente é possível se de fato trabalharmos um pouquinho nosso olhar. Isso exige coragem, força de vontade, dedicação e, honestamente, uma dose imensa de ação para compreendermos a nós mesmos e, consequentemente, nossas ações.

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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