Literatura

Resenha | Todas as constelações do amor, de Lydia Netzer

Sunny não tem cabelo. Maxon é muito na dele. Os dois são diferentes do resto do mundo, com suas particularidades. Ainda assim, conheceram-se ainda crianças e fizeram com que sua realidade amorosa fosse pautada em companheirismo e honestidade. Casados, eles têm um filho, Bubber. Bubber é como Maxon, ainda que em um nível mais intenso.

Todas as Constelações do Amor se inicia com o fato de que Maxon está a caminho da Lua, tendo deixado sua mulher, Sunny, grávida, na Terra. Ela usa uma peruca, fofoca com as amigas de bairro e segue a vida da forma mais normal que consegue. Ninguém sabe que não tem cabelo, ou sobrancelhas. E ninguém nota que seus braços e pernas não têm pelos.

“Amar sem motivo algum, sofrer por uma escolha feita racionalmente, perdoar, demonstrar piedade, confiar em um poço envenenado que pode causar danos. E humanos fazem isso, por quê?”

Um acidente de carro, entretanto, muda a sua realidade. Sua peruca sai do lugar e não tem ninguém para ajudá-la. Por uns minutos, está sozinha. Pensando em Bubber, no banco traseiro, no seu cabelo fora do lugar e na mãe, que está internada. Ela ainda não sabe, mas esse acidente vai mudar toda a sua história.

Maxon, por sua vez, está com tudo calculado. Vai chegar à Lua com uma equipe muito bem preparada, colocar lá seus robôs mães, e começar o trabalho de colonização da Lua. Depois, vai voltar para casa. Um acidente com a nave vai mudar tudo para ele também, tirá-lo dos trilhos e, quem sabe, ajudar a colocar tudo em seu devido lugar novamente — se ele conseguir voltar para a Terra, é claro.

“Uma das mãos fechou os olhos, a outra segurava a caneta sobre aquelas três palavras; amar, arrepender-se, perdoar.”

Separados, cada um com seus pensamentos, Maxon e Sunny têm muito com o que lidar. A incerteza está presente em todo o romance, que adquire um tom bastante intenso quando observamos uma família que precisa se reconstruir. De novo.

O que mais me tocou em Todas as Constelações do Amor é a forma como a autora nos apresenta os fatos, desenvolve o passado e constrói o presente. O futuro não é um debate, não existe um definitivo ponto final. Ao fazer tudo isso, entretanto, ela propõe outras reflexões: o que é ser normal? O que faz uma família, uma pessoa, um relacionamento ser normal?

“Há uma elevação real na conversa quando a morte ou o nascimento são mencionados. Nada permanece sem ser dito. Tudo que está subjacente vem à tona, e a escuridão transborda na linguagem cotidiana.”

Suas personagens, inclusive as secundárias, são intensas. Todas realistas. Todas têm seus problemas, seus pesos para carregar. O conceito de “normal” passa a ser reconstruído — e há algo mais atual que isso? Mais, talvez, necessário? É como Maxon conclui em determinado momento, logo no início.

Ele está refletindo as diferenças entre ser humano e um robô e conclui que o que separa um do outro pode ser limitado a três palavras: amar, arrepender-se, perdoar. Três coisas extremamente difíceis de se conseguir fazer por inteiro. Três coisas que nenhuma matemática pode explicar ou descrever.

Delicado e simples, Todas as Constelações do Amor é mais que um romance. É mais que uma família enfrentando problemas. É mais que um simples “eu te amo” ou cenas de amor. É isso: é mais.


NOTA ★★★★

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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