Revista

Amor não precisa ser jogo para ser bom

Cara lindo e maravilhoso? Check. Gostoso, mas sem aqueles extremos toscos? Check. Bad boy ou bonzinho, mas sempre com humor e alguma história de vida levemente (ou muito) impactante? Check. Carinhoso? Check. Romântico na medida certa? Check. Sabe corrigir os erros de sua burrice momentânea? Check.

Se a vida real fosse como os livros, começaria com um cara exatamente assim. A menina poderia mudar um pouco — ainda que, geralmente, seja aquela com alguns problemas de autoestima -, mas, sem dúvida, se apaixonaria pelo cara errado que, no final das contas, seria o certo para ela. É um amor que está escrito nas estrelas.

Uma série de circunstâncias e momentos que culminam em um encontro aleatório para, em seguida, se transformar em encontros diários “acidentais”. Se a vida real fosse como nos livros, os amores seriam sempre perfeitos, mesmo nos momentos tristes e intensamente ruins.

Cambaleio entre a total descrença e um romantismo clichê (e um pouco tosco, admito) quando o assunto é amor. Vamos lá: sou dessas que só gostam de finais felizes e que odeia triângulos amorosos porque fica pensando que (1)pode escolher o cara errado para fazer par com a personagem principal e (2) alguém vai sobrar, e provavelmente esse alguém nem é uma pessoa ruim e odiosa, só não é aquela que foi escolhida.

Mas, ao mesmo tempo, reviro os olhos quando me aparece uma história de amor com uma menina que finge quebrar padrões, é desastrada e vive dizendo para si mesma “mas é impossível que ele goste de mim” quando só falta o cara pedir em casamento. E, mesmo quando ele pede, ela fica na dúvida. Quer dizer, não dá para aceitar de uma vez e ser feliz?

Minha parte de puro romantismo clichê veio do berço. Meus pais são típico casal que já está junto há mais de 30 anos e, apesar dos duros momentos, amam-se. Aceitam o lado bom e o ruim um do outro. Mesmo que, de vez em quando, esse lado ruim gere umas brigas bizarras e sem sentido.

Um tio viu a foto de uma tia e decidiu que seria ela — e, de fato, foi. Outro tinha tudo para morrer por causa de um aneurisma que cirurgia nenhuma resolvia — e deixou a mulher que amava ir embora. Apenas para, depois da sétima cirurgia e alguns anos, reencontrá-la e viverem seu felizes para sempre. Então, ei, eu acredito nesse tipo de coisa. Muito mesmo.

Mas, como toda e qualquer pessoa, já tive lá minha cota de desilusões amorosas para entender que, sério, não é tudo lindo assim. Ou simples, perfeito ou verdadeiro. E daí surgiu o lado da descrença, que não acredita que só temos uma pessoa perfeita para nós ou que tudo é uma preparação para o amor maior.

O lado que revira os olhos quando assiste comédias românticas (ainda que suspire de vez em quando) e fica desconfortável quando lê sobre esse amor-quase-divino. O amor dos livros me deixou de soar verdadeiro, porque a verdade não é nem de longe tão glamorosa.

Mas, se a vida fosse como nos livros, entretanto, as coisas seriam mais genuínas. Não estou falando do corpo maravilhoso ou qualquer besteira dessa, mas sim do fato de que tudo funciona às claras. É óbvio: o leitor sempre sabe o que cada personagem está pensando, qual a justificativa de cada ato e o amor está ali, estampado, só as personagens que não conseguem ver.

Mais que isso, elas se dão o direito de serem honestas. De admitirem o que sentem e o que querem, abrem espaço para a insegurança e os medos, e para o direito de expor tudo isso sem soar pé no saco ou dramáticas.

Na vida real essa honestidade não é bem-vinda. Faz de você vulnerável, trouxa, idiota ou apaixonado demais — tudo com o que nos preocupamos todo dia em não parecer. Uma frase errada e pronto, aquele jogo de sedução minimamente elaborado cai por terra e um dos lados perde o interesse.

E muitas vezes é apenas isso, um jogo. Quantas pessoas você beijou naquela balada? Foram só homens ou mulheres também? Foi mais longe com alguma delas? Você venceu o placar! O que você falou? Como você falou? Não, tira print, quero ver exatamente como foi a resposta.

Ah, um sorriso significa dó, sai dessa. O quê? Seguido de um coração? Quer te comer. No primeiro beijo ele não tentou ir mais longe? Ok, bom sinal, ele te valoriza e isso poderia dar namoro, viu?

Jogos são divertidos. Por pouco tempo. É tipo banco imobiliário: a gente nunca termina de jogar antes de iniciar uma nova partida, porque perde a graça e fica chato. A gente rouba do banco (e talvez dos oponentes), tentando ganhar logo — por que quem quer perder? Mas é só isso, um jogo. Que quando cansa é esquecido. Que não é genuíno. E eu posso, mas não quero, jogar.

Um amigo me aconselhou uma vez: “se joga, no amor não tem espaço para o medo de ser trouxa ou para o orgulho. Se você for qualquer um dos dois, vai doer, mas vida que segue”. Ele está tão, tão certo.

Acho que passou da hora de ser verdadeira, porque placar nenhum deixa o coração quente, dá frio na barriga ou te faz sentir que as coisas, naquele momento, estão certas. E sem nada disso, sei lá, não vale a pena, vale? Não é nem divertido, porque o amor não precisa ser jogo para ser bom.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!