Literatura

Resenha | Cheio de Charme, de Marian Keyes

Marian Keyes tem a característica notável de, em todos os livros, criticar alguma coisa na sociedade. Para olhos desatentos, suas histórias podem parecer meras histórias, mas basta um pouco de atenção para notar que há mais ali.

Talvez por isso ache suas histórias um tanto quanto lentas para ler, mas que sempre compensam quando encerro a última linha. Cheio de Charme traz o aborda a violência doméstica como tema principal na forma de Paddy De Courcy, um político que tem um histórico incrível de mulheres — além de serem muitas, todas são bem diferentes uma da outra, com apenas uma coisa em comum. Uma marca na mão. De um cigarro apagado “acidentalmente” no lugar errado.

Apesar da crítica estar estampada na personagem deste homem, a história, porém, é baseada na vida de quatro mulheres que afetadas por ele.

Lola trabalha escolhendo roupas para outras pessoas, entende do assunto e é boa nele. Ao receber a notícia de que Paddy, seu namorado, vai casar, sua vida muda drasticamente para um estado deprimido. Esse a leva para uma cidade de interior onde acaba por fazer muitos amigos. Por estar “desempregada” é convencida a tentar um seguro desemprego, onde encontra Noel, um cross-dresser que usa a profissão dela para conseguir roupas de mulher nos tamanhos necessários.

Como se não bastasse isso, acaba sendo formado um grupo que se reúne uma vez por semana para assistir filmes e discutir assuntos mulherzinha. É num desses encontros que descobre o amor de sua vida — que não é mulher, mas às vezes gosta de se vestir como uma.

Lola, por amar Paddy, demora para notar que o que ele fazia não era questão de amor, era violência. Criando um medo que a impede de ir à polícia. Será que, mesmo se fosse, teria resultado? Afinal, apesar disso, ela o amava.

Grace tem um namorado perfeito, apesar da relação não ser nos moldes costumeiros da “relação perfeita”. A marca que Paddy deixou é a mesma que marca sua infidelidade e o fim de um relacionamento que é baseado não em sexo ou segundas intenções, mas sim no amor. A questão, para ela, é que admitir que tinha sido vítima de uma violência, era admitir sua culpa — e não poder culpar outra pessoa.

Marnie, irmã de Grace, é depressiva. Alcoólatra, ela se nega a crer que sua família perfeita vai a deixar por causa de umas “poucas bebidas”. Sua baixa auto-estima é o que a faz perder tudo, quase acabar com a própria vida. É preciso que ela confronte Paddy para saber que não é, e nunca foi, a única. Assumir que é alcoólatra e procurar por ajuda, para reconquistar tudo o que acabou por perder.

Alicia é a mulher de Paddy — que apesar de ter sua carreira política dada por encerrada devido a um plano marcado pela derrota e pela vitória de todas as mulheres que de alguma forma se envolvem na violência doméstica — e a próxima a ser marcada, abusada e ver que De Courcy não é o homem perfeito que ela esperava que fosse.

O mais interessante é que a história inclui bom humor, uma organização dos textos brilhante e assuntos delicados utilizados na medida certa. Prende pelo que é, pelo conteúdo que tem. Marca o fim de uma literatura “mulherzinha fútil” e parte para algo original, que merece uma atenção extra e uma leitura atenta.

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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